Livro: A Vaca na Estrada

040 De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Perambulando pelo Vale de Katmandu

As tankas

Perambulando pelo Vale de Katmandu. Algo que sempre me atraiu na cidade de Bhaktapur foram as tankas, o mais expressivo exemplo da arte gráfica tibetano-nepalesa, que têm por tema as mandalas e o próprio Buda. No caso do Nepal, onde coexistem, em perfeita harmonia, o Budismo e o Hinduísmo, é comum encontrar representações hinduístas, igualmente em tankas, ou seja, aquelas manjadas figuras com vários braços, típicas da religião.

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Outras dessas pinturas tibetanas representam, assim, Buda em tamanho maior, como personagem central, sentado sobre a flor sagrada de lótus, rodeado dos Bodhsativas, ou de discípulos, em posição de meditação. O Buda representado nesse tipo de trabalho é, porém, esguio, não gordo como o chinês. Ou seja, é coberto com o manto dos monges e tem os cabelos presos em coque no alto da cabeça, rodeada por uma auréola.

Nagarkot

Nas montanhas, a aproximadamente duas horas de carro de Bhaktapur, em pleno contraforte do Himalaia, fica igualmente Nagarkot.
Ou seja, lá do alto, de um lado se avista a cordilheira de picos nevados e, de outro, todo o Vale de Katmandu com suas plantações em terraço. Enfim, o país é, em boa parte, montanhoso: alguns dos mais altos picos do mundo ficam no Himalaia (“Morada das neves”: hima = neve; alaya = casa ou moradia).

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O célebre Mont Everest, no Himalaia (em nepalês, Sagarmatha), é, antes de mais nada, a montanha mais alta do planeta, com 8.848m. Escalá-la sempre foi o maior desafio de alpinistas do mundo todo, muitos dos quais perderam, aliás, suas vidas tentando, suportando os efeitos da altitude e o frio extremo. O que o ser humano não faz pela fama e pela glória!

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Nagarkot fica junto ao Himalaia, mas rodeado pelo Vale de Katmandu. portanto, de fácil acesso. Nagarkot já era, nessa época, um lugar turístico: possuía até hotéis e pousadinhas. As noites, mesmo em pleno verão, são, entretanto bem mais frescas nessa altitude do que no vale abaixo. Passei duas noites lá no alto, numa pequena guesthouse mantida por uma família newar.

Papos poliglotas

Além de mim, eles tinham como hóspedes um belga, um holandês e um casal alemão. Era uma pequena salada de nacionalidades. Dessa forma, o belga (Nota do Autor: A pequena Bélgica tem duas língua francês e um dialeto do holandês, o flamengo) falava com o holandês em flamengo, com o casal em inglês e comigo em francês. O holandês, por sua vez, falava com os alemães na língua deles e comigo em inglês.

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Os papos, mesmo nessa torre de Babel de diferentes idiomas, junto a um fogo de lenha, eram animados e iam até a hora de dormir. Na segunda noite, escura e com o céu super estrelado, saímos para observar as estrelas. Pudemos igualmente apreciar , abaixo de nós, aqui e ali, pequenos pontos luminosos formados pelas aldeias e cidades do Vale de Katmandu.

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Um “biralo” abraçando um” kurkur”

Com os nepaleses da guesthouse aprendi algumas palavras de sua língua. O engraçado, aliás, é que a fonética nepalesa é, para nós, muito mais fácil do que a do inglês ou do francês, que têm sons inexistentes em português. É, portanto, fácil pronunciar biralo (gato), kukur (cachorro), kukura (galinha), gai (vaca), pani (água). Mas, se vc não fala francês, tente procunciar “vent” (vento) e “vin” (vinho), “unique” (único)…

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As novas amizades

De volta a Katmandu, mas ainda sozinho, acabei reencontrando em primeiro lugar o pessoal do terraço de nosso hotel e fazendo igualmente novas amizades com os recem-chegados. Primeiro conheci uma francesa que me afirmava que fora a Katmandu “para se encontrar”. Posteriormente cruzei com uma neozelandesa meio artista, perdida em suas “dúvidas existenciais” com quem acabaria namorando. Assim, após um tempo por lá, aliás, comecei a achar que todo mundo em Katmandu tinha dúvidas existenciais.

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Os fiorentinos

Depois conheci três italianos de Florença, com quem, logo de cara fiz amizade. Assim, visitei com eles alguns lugares próximos. Eram anarchisti, mas graças a Deus, como diria Zélia Gattai.
Assim, visitei alguns lugares e realizei vários passeios com os amigos fiorentini. A convivência, além de agradável, aumentou em muito meu domínio da língua. Afinal falava italiano com eles o dia todo.

Pashupatinath

Com os italianos fui, também de bicicleta a Pashupatinath, onde são feitas cremações, às margens do Bagmati, afluente do Ganges. Eu, que já havia adotado a bicicleta em Katmandu, percebi que também dava para visitar muitos lugares no vale pedalando.
O templo de Pashupatinath, visto do morro do outro lado do rio, impressiona. Evitei, porém me aproximar dos gaths (“degraus” onde são realizadas as cremações). Mesmo assim, porém, a fumaça trazida pelo vento deixou-me de fígado virado. Passei, assim, uns quinze dias sem conseguir comer carne…

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Junkies doentes em fim de carreira, sem famílias para buscá-los, como acontecia com alguns, morriam e eram também cremados em Pashupatinath. Havia até a expressão: Foi para Pashupatinath quando um deles morria. Hoje, provavelmente isso não mais acontece, mas, na época, vi, no aeroporto de Katmandu, pais levando seus filhos esqueléticos, afundados em drogas pesadas, salvos da morte por pouco, para tratamento em seus países de origem.

Patan

Perto de Katmandu fica igualmente Patan, que também visitei de bicicleta com os novos amigos italianos: outra cidade medieval incrível. Patan foi, aliás, uma das capitais da dinastia Malla, quando o reino foi dividido em cidades-estado. O mais interessante em Patan é sua Durbar Square, onde ficam o palácio real e os principais templos. Seu conjunto de templos é um dos mais importantes do Nepal.

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As ruas laterais próximas da Durbar Square de Patan já não têm, entretanto, tanto interesse, como acontece em Bhaktapur e em Katmandu. São ruazinhas simples, comerciais e sem muita graça. Ou seja, temos mesmo que nos concentrar no Durbar Square. Essa enorme praça é, aliás, perfeita para se entender exatamente a arquitetura nepalesa e as marcantes diferenças entre os templos em estilo shikara e pagode.

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Nepalesas: trabalho pesado

Em uma ou duas horas vimos tudo. Depois paramos e comemos nossos lanches sentados em um pequeno templo, apreciando indolentes o movimento.
Uma coisa que me chocou tanto na Índia quanto no Nepal foi ver mulheres carregando tijolos em pesados cestos. Estes eram transportados nas costas, seguros na testa por uma tira. Um dia em que estava com os italianos, depois de um aceno para a moça que descansava ao lado de um desses cestos, fiz, assim, sinal a ela de que queríamos tentar erguer um deles. Conseguimos, mas não foi fácil. Como podia uma criatura frágil como aquela moça fazer isso toda sua vida? E ainda mais conseguir sorrir?

O humor fiorentino

Foi divertido viajar com os italianos. Tinham aquele falar cantado dos florentinos e eram também muito engraçados e bem humorados. Aliás, passar com eles horas seguidas também foi ótimo para melhorar meu conhecimento sobre os italianos. Igualmente sobre o idioma. Eu falava a língua cada vez melhor. Tinham expressão para tudo. Quando um deles parou para beber uma Coca Cola numa lojinha onde vimos que existia um minirrefrigerador, outro reclamou.

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— Você vai tomar l’aqua nera del imperialismo? Beba chá!
O primeiro estendeu umas rúpias para a moça da vendinha e virou-se o amigo:
Bolcevico! Acha que só podemos beber o que o comitê central determinar?
Ri com a expressão e, sem me preocupar com o que nosso companheiro “bolchevique” poderia pensar, pedi, anche per me, l’aqua nera.

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