Livro: A Vaca na Estrada

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Viagem de trem na Índia

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A viagem ferroviária na Índia

Viagem de trem na Índia é uma experiência inesquecível. Enfim, na minha primeira viagem à Índia eu percorri o país de carro. Mas, utilizei o trem em outras ocasiões. Em primeiro lugar, é bom saber: foi graças aos ingleses, que a Índia possui uma das mais complexas redes ferroviárias do mundo. Ou seja, por via ferroviária você alcança quase qualquer ponto do território nacional.

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A função das ferrovias

A rede ferroviária indiana foi construída com dois objetivos. De um lado, destinava-se a escoar a produção indiana e colocar no mercado os manufaturados da metrópole. De outro, permitiria igualmente aos ingleses o rápido deslocamento de tropas quando fosse necessário reprimir insurreições.
O que os ingleses, porém, não imaginaram é que essas mesmas ferrovias conduziriam os líderes nacionalistas indianos pelo país inteiro em peregrinações políticas. Asssim, as estações tornavam-se pontos de agitação quando Gandhi, Nehru, Patel e outros discursavam do trem para as multidões que iam esperá-los.

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As campanhas “ferroviárias” de Gandhi

Viajar de trem na Índia: vivendo e aprendendo

Para fazer viagens noturnas, opto sempre que possível por cabines de 1º classe, que oferecem mais conforto do que os ônibus. Embora mudanças estejam ocorrendo, muitos trens indianos ainda são, muitos deles, bem lentos. Costumam, ainda mais, estar lotados e sua limpeza, principalmente na 2a classe, deixa frequentemente a desejar. Com um detalhe, a segunda classe com reserva ainda pode ser encarada por mochileiros que viajam em esquema econômico. Já fiz essa viagem, deu para levar. Entretanto, sem reserva, é punk!
Nota do Autor: : As ferrovias indianas têm se modernizado, novos trens mais rápidos e confortáveis servem atualmente as linhas mais importantes.

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Trens modernos, cada vez mais comuns na Índia

Os trens de luxo

Na Índia existem igualmente trens de alto luxo. Um dos mais famosos, que existe há décadas, é o Trem dos Marajas, que percorre o Rajastão, parando em todos os pontos turísticos. Esse trem possui não somente restaurante sofisticado e bar com bons drinks. Possuem também cabines elegantes e muito confortáveis. Em suma, luxo do luxo mesmo para os mais exigentes.

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O Trem dos Marajás

Dessa forma, seus salões, dormitórios, restaurantes e o bar são decorados de forma sofisticada, inspirados no luxo dos interiores dos palácios dos mais importantes marajás. Esse trem faz parte de um tour. Assim, inclui, por exemplo, a visita com traslado aos principais palácios do marajanato rajastani. Não são, portanto trens de linha, mas expressamente direcionados ao turismo no Rajastão. Não é, naturalmente muito barato, mas os preços não são, entretanto, excessivamente caros.

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Enfim, nada, infelizmente é perfeito. Ou seja, o Trem dos Marajás não é portanto, para o bico de mochileiros e todos aqueles que costumam viajar num esquema orçamento econômico. De qualquer modo, para os pés quentes que têm um orçamento de viagem folgado essa viagem pelo Rajastão, pode, entretanto ser uma experiência única. Ou seja, quem está acostumado em viajar pela Europa não vai se assustar

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A epopéia da reserva

Saiba em primeiro lugar que para se conseguir uma reserva, imprescindível para viajar em 1a classe, é preciso ter muita perseverança. Em suma, tentar, pelo menos, fazê-lo com alguns dias de antecedência. Assim, o ideal é ir direto na estação. Uma vez eu tentei fazer minha reserva em 1a classe por meio da agência de viagens do hotel onde estava hospedado. Fui, logo de cara, bem claro, dizendo que, se fosse para ficar em lista de espera, não me interessaria; alugaria um carro.
Não se preocupe, sir!, disse-me o funcionário da agência em um tom tranquilizador que, na Índia, sempre produz em mim o efeito contrário.
Eu estava reservando com uma semana de antecedência.
Tem certeza de que conseguirei um lugar?
Ele fez aquele movimento lateral de cabeça que significa “sim”, mas que confunde os estrangeiros, pois parece um “não”. Disse, ainda mais, que eu só teria que pagar quando retirasse a passagem.

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A very good position

Todos os dias eu passava pelo funcionário e perguntava pelo meu bilhete. Ele sempre me garantia que iria consegui-lo. Ou seja, levou esse papo até a véspera do embarque, quando, com a maior cara de pau veio me confessar que não obtivera ainda a reserva. A criatura garantiu-me porém, que eu estava em very good position na lista de espera!
Falei o diabo para ele, mas não adiantou nada. Logo, a partir daí eu mesmo passei a fazer minhas reservas diretamente na estação. É trabalhoso, porém compensa. Dessa vez, entretanto, tive que desistir do trem. Aluguei um carro com motorista.

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Uma experiência inesquecível

Eu já tinha aprendido, depois de minha primeira viagem ferroviária na Índia, que viajar sem reserva de assento e em 2a classe é uma roubada. Uma mega roubada, aliás! Estava uma vez indo de Mumbai para Udaipur com uma namorada brasileira e um casal franceses, Pierre e Agnés. Nós os conhecemos no aeroporto de Delhi ao desembarcar. Nossa amizade começou quando resolvemos dividir o táxi até a estação ferroviária. Estavam, como nós, decididos a fazer uma viagem econômica.

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Acontece que, na França, na Europa toda, aliás, quase todo mundo viaja de 2a classe. A primeira é luxo. Na Índia, não. Quando o trem parou na estação de Mumbai, uma multidão se precipitou aceleradamente para os vagões. Ou seja, invadindo-os até pela janela, já que as portas ficaram bloqueadas. Eram muitas dezenas de pessoas tentando entrar no trem com sacos de cereais, engradados e inclusive com animais vivos.

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Entrando no trem pela janela

Percebemos, portanto, de que teríamos que fazer o mesmo ou não nunca iriamos conseguir. Dessa forma, simplesmente imitamos os indianos. Assim, Pierre entrou primeiro; eu passei as mochilas para ele pela janela. Depois ergui as meninas, uma, depois outra, e ele as puxou para dentro da cabine, também por uma janela. Por último, finalmente, entrei eu.

O freio de emergência

Como só conseguimos três assentos, um de nós dois,Pierre ou eu — viajávamos de pé. Ou mesmo, exaustos, deitávamos no chão do corredor. Lembro-me também de que em alguns momentos cheguei a adormecer. Era, porém sacudido por pessoas que queriam passar. Não entendia porque não passavam por cima de mim, bastando para isso dar um passo largo. Irritado, recebi uma explicação por parte de um senhor que viajava perto de nós:
Fazem isso por respeito. Aqui é falta de educação passar por cima de uma pessoa deitada.

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A Índia sentida nos trens

Em um dos momentos em que consegui dormir, fui acordado por uma parada brusca do trem. Ao abrir os olhos vi que estávamos em frente a um povoado. Não havia estação, nem mesmo uma plataforma de embarque. Diversas pessoas que deviam morar por ali deixavam, porém o trem às pressas pelas portas e janelas. Posteriormente fiquei sabendo que puxavam o freio de emergência para descer onde lhes era mais conveniente.

Embora a viagem tenha sido cansativa, porque excessivamente longa, foi igualmente uma grande oportunidade de acompanhar mais de perto os costumes do povo por lá, algo que sempre me interessou em minhas aventuras pelo mundo. Aliás, uma cena engraçada que vi foi a de um sikh de meia idade ter seu serviçal acompanhando-o para, entre outras coisas, enrolar e desenrolar seu turbante. Ou seja, arrastava uma espécie de mordomo consigo durante sua viagem.

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Os perrengues da segunda classe sem reserva

Nenhum de nós quatro, nem nós, nem nossos amigos franceses, se arriscava sequer a ir urinar. Além do risco de perder o lugar, o cheiro que vinha das extremidades do vagão onde ficavam os toaletes era também desanimador. O maior problema, entretanto, não foi embarcar na 2a classe, mas sim fazê-lo no vagão “sem reserva”. Foi aí a besteira. Nessa classe não há limite para passageiros. Ou seja é, como em um ônibus urbano, o passageiro não tem direito a poltrona. Desse modo, o assento é de quem pegar primeiro.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Viagem de trem na Índia: uma experiência única

Super confortável, o vagão de 2a classe “com reserva” obviamente não é. Mas não chega a ser ruim. Lembra até os eruopeus. Enfim, o importante é que pelo menos o assento é garantido. E, ainda mais, se você estiver com amigos ou família poderá reservar uma cabine só para vocês. À noite essas cabines têm belixes que abaixam e se transformam em algo que lembra uma cama.

O esquema de reserva para turistas

Na Índia, as principais estações de trem oferecem serviço de reserva para turistas. Isso ajudava um pouco. Os trens noturnos de longa distância, com ar condicionado na 1a classe, são, aliás bem mais limpos e melhores. Oferecem, entretanto sutilezas tipicamente indianas. Ou seja, é preciso reservar também lençóis e cobertores para não passar frio. Afinal, no inverno, as noites de inverno são bem frescas.
Quando eu viajava acompanhado, tentava conseguir cabine para duas pessoas e cuidava da reserva com o máximo de antecedência. Notei igualmente que europeias que viajavam sozinhas e com mais dinheiro no bolso reservavam uma cabine exclusiva para elas. Aliás, uma garota belga contou-me que, viajando com uma amiga em uma cabine com indianos, não pôde fechar os olhos. Ou seja, mal o fazia, sentia que mãos bobas a tocavam.

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O susto

Foi num trem de Madras para Delhi, nos primeiros instantes de uma viagem de cerca de 40 horas, que passei por um dos maiores sustos de minha vida. Para começar, cartões de crédito internacionais não eram comuns como hoje. Dessa forma, a maioria dos jovens viajava ainda com uma bolsa de cintura, onde guardavam seus preciosos dólares e seus passaportes. A famosa bolsa de viagem cangurú.

Como pretendíamos viajar muitos meses, mesmo que em um esquema bem econômico, minha namorada e eu tínhamos uma bela soma conosco. Era nosso costume dar uma checada geral no quarto antes de deixar um hotel. Desta vez, porém, o fizemos muito rapidamente. Logo mais tomaríamos o trem para Delhi e estávamos apressados. Assim, esquecemos as bolsas de cintura sob o travesseiro. Nem sei bem porque as tínhamos posto ali, pois não era nosso hábito. O fato é que quando o trem já começava a se mover percebemos que estávamos sem dinheiro, nem documentos. Assim, jogamos as mochilas pela porta ainda aberta e saltamos do vagão.

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Correria perigosa

Ainda era cedo. Em suma, talvez ninguém tivesse arrumado o quarto e encontrado as bolsinhas com dinheiro e nossos papeis. Minha namorada ficou com a bagagem e eu saí correndo desatinadamente, rumo ao hotel onde dormíramos. Assim, ia atravessando os trilhos, preocupado com o risco de ser atropelado pelos trens que chegavam ou deixavam a cidade.

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Chegando à rua, entrei no primeiro táxi que vi. Ao desembarcar diante do hotel, fiz sinal ao motorista para que me esperasse. Desse modo, passei corrrendo pela recepção e subi as escadas, indo diretamente para o quarto onde dormíramos. Empurrei a porta. Estava aberta e o aposento estava tal e qual o deixáramos. Ergui o travesseiro: nossas bolsas estavam ali! Cheguei a tremer. Respirei profundamente e fechei os olhos um momento. Enfiei as bolsas dentro de meu jeans, sob a túnica. Na portaria, ao sair, perguntaram-me se eu havia esquecido algo no quarto. Confirmei com a cabeça:
Sim, meu passaporte.

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Mudando nosso hábitos

No táxi, voltando para a estação, ia pensando na situação em que nos encontraríamos, sem as bolsas. Ou seja, naquele fim do mundo do sul da Índia, com pouquíssimo dinheiro — só uma pequena quantia na carteira. Estaríamos igualmente sem passaporte, sem nada… Isso, aliás, em uma época em que até falar por telefone da Índia para o Brasil era difícil. Daí em diante, todas as noites, depois de tirar a roupa, passei a amarrar a bolsa de cintura no passador da calça que iria vestir no dia seguinte. Ou seja: como ninguém sai sem calças na rua, nunca vai esquecer a bolsa…

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Quando reencontrei minha namorada na estação, ela chorava, rodeada de moças e senhoras indianas que me olharam feio. Quando contei que recuperara o dinheiro e os documentos, minha namorada me abraçou forte: “Que sorte!”. Depois ela me explicou que, vendo o que ocorrera, a mulherada achava que eu a tivesse abandonado. Diziam uma para outra: “O marido a deixou!”. E quase choravam junto, solidárias… Será que divórcio indiano é assim? O marido sai correndo?

Explicação necessária

Como estive diversas vezes no país, o livro “A Vaca na Estrada”, inclui igualmente temas socio-culturais e algumas experiências vividas em outras viagens pelo subcontinente indiano.
Mumbay – Goa  – Os marajáso controle da natalidade – Arte na ÍndiaRajastão 1Rajastão 2 – Casamento à indianaViagem de trem na ÍndiaAs castas A colonização inglesa Gandhi  – Costumes, cultura Shiva e Jesus 

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