Livro: A Vaca na Estrada

027 De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Khajuraho, o hinduismo

Visita imperdível

Khajuraho, fica a uns 600 km de Delhi, no estado de Madhya Pradesh. Bernard e eu tivemos, assim, que fazer um desvio em nossa rota para Katmandu, que podia ser mais direta. Mas, os templos eróticos, eram uma visita que não podíamos perder. Ou seja, são considerados Patrimônio da Humanidade. Alguns possuem esculturas bem despudoradas.
Abaixo: Mapa da região de Khajuraho

Templos do século XII

O conjunto de templos é todo em estilo sikhara. Comuns, aliás, no norte da Índia (e também no Nepal, como veríamos depois). Ocupam área verde de mais de 20 km2. Descobertos no meio de uma mata fechada, foram construídos entre os séculos X e XII. O conjunto erótico é obra da dinastia rajput dos Chandelas. Uma dinastia hindus voltada para essa vertente do hiduismo, o Tantrismo.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Khajuraho

O erotismo da velha Índia

Essa corrente do Hinduísmo busca, assim, a harmonia universal. Esta seria resultante da fusão do espírito e da matéria. Igualmente significam o encontro do masculino e do feminino, origem da vida. Portanto, não é de se estranhar a temática das imagens. Em suma, seus templos privilegiam a união física de homem e mulher. O sexo é simbolizado em muitas das representações. Algumas, que podemos ver em diversos templos de Khajuraho, são verdadeiras orgias.

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Nem todas esculturas são eróticas

Na realidade, a maioria dos templos é decorada com motivos religiosos até que bastante comportadinhos. Ou seja, não são todos os templos que têm temática erótica. Obviamente, entretanto, são os que possuem esculturas de cunho erótico despertam mais interesse entre a maioria dos turistas. Em resumo: esse pessoal parece que só pensa naquilo…

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As posições eróticas do tantrismo e o pudor atual

Linda e ricamente esculpidos, os templos de Khajuraho impressionam. Estão, aliás, entre os mais interessantes que já conheci na Ásia. É uma pena, entretanto que dos 80 templos encontrados por arqueólogos, poucos estejam bem conservados. As posições eróticas representadas nas estátuas nos mostram que, na velha Índia, tudo se conhecia em matéria de sexo. Ou seja, um contraste com o pudor que impera hoje no país. Afinal, nem beijos aparecem nos filmes produzidos em Bollywood.

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Orgias cabeludas

Alguns dos relevos são representações de orgias cabeludas. Não combinam em nada, portanto, com o moralismo vitoriano que predomina entre os indianos até hoje. Uma herança da colonização inglesa. Mesmo deuses aparecem participando da festa. Pode-se, dessa forma, ver imagens de divindades como o bonachão Ganesh, o deus com a cabeça de elefante. Ri quando Bernard comentou que Ganesh devia fazer sucesso com sua avantajada tromba.

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A reencarnação

Para entender a Índia é interessante em primeiro lugar se inteirar do conceito hinduísta de reencarnação. Para os hindus, a existência humana é um elo de uma cadeia evolutiva. Dessa forma, a nossa vida faz parte de um ciclo de existências. O carma é, portanto, a somatória das encarnações pelas quais passamos. Ou seja, o saldo do bem e do mal por nós praticados durante as vidas anteriores. Os bons reencarnam em castas superiores. Os maus, porém, perdem pontos.

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A justificativa para desigualdades

A reencarnação, tão cara ao Hinduísmo, infelizmente, fornece a justificação moral e religiosa para as mais terríveis segregações e desigualdades. Afinal, está intimamente ligada ao sistema de castas. Assim, o corpo, em suas diferentes encarnações, é a viagem de uma alma pela vida terrena. Porém cada existência, é igualmente o único caminho para o aperfeiçoamento espiritual. Em suma, o caminho rumo à união cósmica.

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Nasceu na casta errada? É seu karma…

Assim, um indivíduo que nasce numa casta superior está apenas sendo recompensado por suas virtudes em vidas anteriores. Da mesma forma, os nascidos párias ou em castas inferiores estão sendo punidos por seus atos em existências passadas. Ou seja, o cidadão já nasce culpado! Esse conceito foi, aliás, desde o início do Hinduísmo, utilizado em seu favor pela elite dominante de origem ariana. Os brâmanes, o utilizavam para a manter sua supremacia sobre as massas miseráveis, de pele escura.

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Nasceu numa casta, morre nela

No Cristianismo e também no Islamismo, promete-se o paraíso aos sofredores. No Hinduísmo, uma nova vida terrena mais confortável. A reencarnação, através do sistema de castas, tornou-se, entretanto a melhor justificativa ideológica para a exploração de pobres-diabos. Em suma, retirando-lhes qualquer veleidade de mudança ou de melhoria. Afinal, uma vez que, nas castas, a sociedade é dividida em compartimentos fechados. Assim, quem nasceu numa casta, vai morrer nela.

Pegos pela tempestade de monções

Andando pelos jardins, nos descuidamos do tempo. Para variar um pouco, viemos de bicicletas, que alugamos numa pequena bicicletaria bem do lado do hotel. O carro, portanto, ficara na cidadezinha de Khajuraho, de menos de 8 mil habitantes. Marcando bobeira, não nos ligamos às grossas nuvens negras que se acumularam no final da tarde no céu de Khajuraho. Ou seja, fomos pegos de surpresa por um aguaceiro. Talvez um dos últimos das monções.

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Sob a chuva

Assim, tivemos que nos refugiar em um dos templos. Assim, ficamos sentados um tempão sobre um degrau vendo a chuva cair. Afinal, nem todo temporal de verão é breve. Depois de um tempo, quando já começava a escurecer, resolvemos voltar para o hotel debaixo de chuva. A cidade inteira se, aliás, transformara num lamaçal. Além de molhados, estávamos também imundos. Chegamos no hotel enxarcados.
No quarto, enquanto eu enxugava meus cabelos numa toalha, Bernard comentou com um sorriso azedo:
Existem 3 mil deuses na Índia… Ou, sei lá quantos. Será que não tinha nenhum que pudesse ter nos livrado desse dilúvio?

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O Hinduísmo

Falo de templos e deuses em quase todo esse livro. Nem teria como comentar nada sobre a Índia sem falar de religião, sobretudo do Hinduísmo. Compreendê-lo é compreender o país. Talvez seja agora, quando até templos eróticos estão surgindo em minha narrativa, o momento de contar um pouco sobre o Hinduísmo. Em suma, comparando-o com as principais religiões monoteístas.

Sem profeta, sem criador

O Hinduísmo é uma religião sem criador e com um vasto panteão de divindades. O Islamismo se fundamenta num texto preciso, com leis a serem observadas pelos fiéis — o Corão. Segui-lo garante o reino dos céus. O Islamismo tem igualmente um deus criador, Alá. Possui também um profeta, Maomé. O cristianismo tem a Blíblia e todo um folclore. Não apenas herdou do judaísmo uma cobra falante e o homem de barro do Velho Testamento. Juntou, ainda mais uma virgem dando a luz e um filho crucificado com o aval de Deus, seu pai.

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As castas: interessantes para quem mesmo?

O Hinduísmo era interessante para os hindus de castas superiores. Não oferecia, porém, atrativos para os intocáveis, eternos renegados dentro de sua fé. O Islamismo, porém os redimia. Em suma, fazendo-os seres humanos iguais aos outros. Milhares de intocáveis, a mais baixa hierarquia no sistema de castas hindu, aderiram, assim, à nova religião. Afinal, bastava aceitar a ideia de um deus único e misericordioso e a palavra de Maomé para ser acolhido como um igual. O mesmo aconteceu com os hindus que se converteram ao Cristianismo. Infelizmente, entretanto, mesmo dentro da religião cristã ou do Islamismo, conservaram seus preconceitos de casta.

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Os vedas

Na época dos Vedas, a religião hindu já apresentava características totêmicas e animistas semelhantes às atuais. Ou seja inspirando-se na natureza, nos astros e fenômenos naturais. Entre seus variados deuses temos de cara a trindade Brama, Vishnu, Shiva. Depois há igualmente uma infinidade de outros. Mas especializados, eu diria. Ou seja, um panteão compartilhado por diversas divindades. Varuna, deus da ordem universal; Indra, deus da força; Pittar, deus-pai; Priviti, deusa-mãe; e Agni, deus do fogo, que exigia sacrifícios.

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Foram os arianos que, ao invadir a Índia, que trouxeram ou desenvolveram o sistema de castas. Por meio dele, impuseram, assim, sua religião — o Vedismo — no século VII a. C. O Bramanismo, por sua vez, surgiu como uma evolução do Vedismo. Entre 800 e 600 a.C., foi acrescido de novos textos sagrados. Estes são parte do grande acervo filosófico que conhecemos como Hinduísmo. Ou seja, os Brâmanes e os Upanichades.

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Os novos textos hindus

Mais tarde, o Hinduísmo se consolidou com novas obras. É o caso do Mahabharata, do qual faz parte o Bhagavad Gita, e o Ramayana.
A evolução do Vedismo para o Hinduísmo resultou em uma transformação na ideia da salvação. No Vedismo primitivo a salvação viria pelas obras do homem na terra. Posteriormente, no Bramanismo, seria o resultado do conhecimento. No Hinduísmo atual, a salvação chegaria pela fé e pelo amor a Krishna, um dos avatares ou encarnações de Vishnu.

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Krishna e Cristo

É curiosa a semelhança de muitos dados biográficos de Krishna com aqueles de Jesus Cristo. Mesmo seus nomes. Krishna também nasceu num estábulo. Como Cristo, Krishna sofreu perseguições de um rei cruel. Monarcas que teriam mandado assassinar milhares de crianças, numa tentativa de matar o recém-nascido. Krishna, que acabou sendo salvo, se tornou pastor. Mais tarde, surpreendeu os brâmanes do templo com seus conhecimentos. Assim, dedicou-se a pregar a resignação, o desinteresse e a bondade. Cristo também impressionou os sacerdotes do templo de Jerusalém, pelo conhecimento. Ainda mais, quis expulsar os vendedores que profanavam o local.

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As diferenças

Há, porém, características que o diferenciam profundamente de Krishna. Este possuía 6 mil amantes, as Laksmis, que o rodeavam permanentemente, idolatrando-o. Além disso, Krishna, segundo as lendas, demonstrava traços de humor que seriam incompatíveis com a seriedade e o pudor de Cristo. Afinal, só cristãos muito ousados insinuam alguma relação mais próxima entre Jesus e Maria. Mas, sabe-se se lá! Afinal os envangelhos foram escritos cem anos depois que Jesus tinha morrido. Outra, Krishna surgiu sabemos lá de onde. Cristo nasceu de uma virgem fecundada por um suposto Espírito Santo fantasiado de pombo. Não fui eu quem inventou isso, está na Bíblia…

Hinduísmo é uma religião complexa

O Hinduísmo é uma religião complexa. Simplificando, há três deuses principais. Assim, Brahma é o criador. Shiva, o que destrói para renovar. Em outras palavras, espécie de força dinâmica do universo. Vishnu, finalmente, é o que conserva, responsável pelo equilíbrio universal.
O Hinduísmo apresenta dois aspectos: um lado idólatra, primitivo. Outro, filosoficamente elevado.
No Hinduísmo ritualístico das grandes massas, os templos são lugares de oferendas. Ou seja flores, arroz, pós coloridos. Igualmente, inúmeras imagens de deuses de aspectos variados. São encarnações (avatares) de Shiva, Vishnu ou Brahma. Há o deus-macaco Hanuman; Ganesh, o deus-elefante; diversas divindades representadas às vezes por vários braços, e uma infinidade de deuses. Até mesmo Kali, a Sangrenta, para a qual hoje são realizados sacrifícios de animais, como eu presenciei no Nepal. Em um passado distante sacrificavam seres humanos a Kali. O mais curioso é que ela é igualmente um avatar de Parvati, esposa de Shiva. Parvati, afinal, é igualmente deusa do amor e deusa da música. Vá entender….

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Um deus para cada manifestação da natureza

Além disso, existem deuses para as diferentes manifestações da natureza. Em suma, para as doenças, para a fertilidade, por exemplo. Deuses não faltam. Temos Ganesh para dar sorte. Temos divindades dos rios, representada pela tartaruga. Garuda, é o deus-pássaro, inimigo das serpentes. Hanuman é o deus-macaco. Rama, por outro lado, é encarnação de Vishnu; assim por diante.
Nas figurações de certos deuses aparecem atributos que facilitam seu reconhecimento. São objetos ou animais, como o cisne, o tridente, o cetro, a adaga, a pele do tigre, a flauta e outros. Ou seja, cada divindade toma nomes diferentes segundo sua posição e os atributos de que é dotada. Por isso, com frequência, a identificação da divindade representada em uma estátua ou pintura não está ao alcance de um leigo.

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Hinduismo, religião sem tábuas de mandamentos

O Hinduísmo não foi fundado por um profeta. Nasceu da fusão de crenças dos arianos com as dos primitivos habitantes do Vale do Indo. É, em suma, o amálgama de lendas populares e, igualmente, ensinamentos filosóficos e preceitos contidos em diferentes textos sagrados. Mas, não tem, entretanto salvadores. Não nem tábuas de leis cujo respeito garantiria um lugar no paraíso. Mais precisamente não falam de paraíso algum, nem de inferno. Aliás o tal “inferno” no cristianismo, foi inventado na Idade Média pela Igreja para assegurar seu domínio. Cristo mesmo, nmunca tocou nesse assunto!

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Um alegre festival

Assim, o inferno não existe para o hindu. Como não também existem liturgias, sacerdotes ou autoridades religiosas. Os hindus não tem um papa, por exemplo. Nem “bispos” e pastores manipulando ninguém. O templo hindu é, portanto, um alegre festival. O praticante pode ir orar para o deus de sua preferência, levar oferendas. Pode, até mesmo cochilar, conversar com um amigo, meditar. Ou investir em oferendas a Ganesh, o deus-elefante. Dessa forma, por exemplo, atrair sorte nos negócios. Por isso é comum, aliás, sua imagem em lojas.

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Função das oferendas

As oferendas ou, no caso de determinadas divindades, os sacrifícios de animais, destinam-se assim, obter graça, sorte, amor. Dessa forma, é comum vermos, diante da imagem de um deus, um pires com arroz, flores, moedas ou incenso. Ou seja, oferendas, da mesma forma no Cristianismo. A diferença nesse aspecto é que os fiéis oferecem velas e rezas para os santos ao pedir determinadas graças. Os hindus oferecem incenso. Mas ninguém paga dízimo ou é extorquido por pastores já riquíssimos, como ocorre no Brasil.

Sigam o relato:

Sigam esta aventura de carro pelas estradas da Ásia. atravesse o Oriente mágico e éxotico que encantou milhares de jovens europeus. Uma experiência vivida pelo autor do livro “A Vaca na Estrada” por países como Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, ÍndiaNepal


Veja a continuação desta postagem: Benares 

Explicação necessária:

Como estive diversas vezes no país, o livro “A Vaca na Estrada”, incíui igualmente temas socio-culturais. Abordei também algumas experiências vividas em outras viagens pelo subcontinente indiano.
Mumbay – Goa  – Os marajáso controle da natalidade – Arte na ÍndiaRajastão 1Rajastão 2 – Casamento à indianaViagem de trem na ÍndiaAs castas A colonização inglesa Gandhi  – Costumes, cultura Shiva e Jesus

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