Livro: A Vaca na Estrada

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada”- A colonização inglesa

O colonialismo inglês na Índia

Tive a oportunidade de ler diversos livros sobre a colonização inglesa na Índia. É, aliás, um costume que adotei de, sempre que visito um país, procurar ler a respeito do lugar. Em suma, de sua história, cultura, em particular sobre os costumes. Assim, em Paris, decidida a viagem, tratei de comprar mais de uma dúzia de livros. Tudo sobre a Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, Índia e Nepal. Sobre a Índia, principalmente, tinha vários. Como eram todos em francês, eu os repassava a Bernard. Meu companheiro de viagem era, igualmente, devorador de livros.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada”- A colonização inglesa

O livro “A Índia Ontem e Hoje”, que publiquei pela Companhia Editora Nacional era um pequeno estudo histórico e cultural sobre a Índia. Ao escrever “A Vaca na Estrada” tinha, igualmente como objetivo não apenas contar minhas aventuras pela Ásia. Queria também repassar ao leitor alguma coisa mais. A Índia sobretudo me fascinou. Vamos entender esse país tão especial?

A colonização inglesa na Índfia: dividir para governar

O extraordinário é que a dominação do subcontinente, bastante povoado, mesmo nos tempos coloniais — 300 milhões de pessoas — foi obtida por apenas 64 mil ingleses. Ou seja, uma proporção quase de um inglês para cada 5 mil indianos. Como um punhado de homens conseguiu erigir e manter, um dos maiores impérios de todos os tempos? E, ainda mais,não, apenas por um curto período, mas durante séculos.

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Uma das explicações é a multidivisão territorial da Índia em pequenos reinos. Em sua maioria rivais entre eles, por motivos políticos e religiosos. Isso tornava, portanto, mais fácil a submissão de cada um separadamente. Os britânicos aproveitaram-se também, o tempo todo, das rivalidades entre as comunidades religiosas. Dessa forma, jogavam os hindus contra os muçulmanos e vice-versa, de acordo com suas conveniências.

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Os marajás, base da sustentação britânica

A colaboração dos marajás

É preciso notar que os ingleses foram igualmente, muito habilidosos no trato com os príncipes indianos. Havia, portanto, durante o período colonial duas Índias. Uma sob administração britânica, com a capital em Nova Delhi, e outra, a Índia dos marajás — príncipes hindus — e dos nababos — príncipes muçulmanos. De seus santuosos palácios os marajás controlavam um pequeno reino. Era, aliás, só o que queriam.

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Assim, aos monarcas simpáticos à Grã-Bretanha foi permitida autonomia interna. Bastava aceitarem a Inglaterra como potência suserana. Aos ingleses eram, assim, entregues a defesa e também as relações exteriores de cada reino. Ou seja, os marajás atrasaram a independência do pais como um todo, como nação única, apenas para defender seus interesses.

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Os antigos castelos, hoje hotéis de luxo

Muitos palácios fortificados dos antigos marajás foram posteriormente transformados em hoteis. Hoje recebem turistas. Alguns têm, inclusive, preços razoáveis, se comparados a um três estrela na Europa, por exemplo. É uma visita bem interessante porque se pode ver como viviam os marajás. Igualmene, saber com eram esses enormes palácios por dentro. Sua decoração é rica, sem dúvida. Porém, excessivamente extravagante. Finalmente, vale a pena apreciar a magnífica do alto de suas muralhas.

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Durante 140 anos uma empresa governou a Índia

A colonização inglesa na Índia é curiosa. Assim, durante 140 anos, o país foi governado por uma empresa particular, a East India Trading Company. Ela cuidava da diplomacia, das guerras de conquista, da manutenção das tropas e do comércio. De toda administração, enfim. Somente durante o período vitoriano, após a revolta dos cipaios, é que o governo britânico assumiu diretamente a administração de sua mais importante colônia. Acabavam-se, assim, os governadores-gerais nomeados pela companhia. Em seu lugar surgia a figura do vice-rei, escolhido pela coroa britânica. A verdade, porém, é que mesmo as massas aceitaram, com maior ou menor resignação, o domínio britânico. A revolta dos cipaios foi, portanto, um acontecimento de rara e, aliás, incomum gravidade.

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A habilidade inglesa na colonização da Índia

De modo geral, os ingleses não tiveram nenhuma dificuldade ao recrutar soldados nativos. Puderam inclusive contar com a lealdade dessas tropas. Afinal, servir ao exército colonial não era nem um pouco vergonhoso para os brios indianos. Aliás, então uma honraria. À exceção de casos isolados, a maioria dos soldados nativos, era disciplinada e obediente aos ingleses.

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Sicks, os que mais se integraram ao exército colonial inglês

Os sikhs sobretudo, foram utilizados para garantir a manutenção da ordem pública. Os ingleses mesmo dispunham de apenas 60 mil soldados brancos e 2 mil oficiais. O número de soldados nativos, entretanto, chegava a 200 mil.
Essa foi talvez outra demonstração da habilidade inglesa na manutenção de seu império. Ou seja, o uso de soldados indianos contra os indianos. Afinal, um sikh não tinha muitos problemas de consciência em abrir fogo contra um muçulmano. Um muçulmano, igualmente, se sentiria culpado em atirar conta um hindu. Afinal, há séculos essas comunidades se matavam mutuamente. Antes de serem indianos, eram muçulmanos, hindus de tal casta, shivaístas ou vishiuistas. Até os idiomas eram diferentes. Um falava madrasi, outro bengali… Assim, como já mencionei, a única revolta das tropas coloniais contra os ingleses foi a dos cipáios. E, ainda mais por um fútil motivo religioso. Ou seja, o uso pelos britânicos de balas lubrificadas com banha de porco (impuro) ou de vaca (sagrada)…

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O apartheid  britânico

Para o vice-reino os ingleses transportaram suas instituições. Não apenas elas, mas também os costumes de sua sociedade e os preconceitos do homem europeu nos trópicos. Ali possuíam seu pequeno mundo particular onde os contatos com a população nativa eram os mínimos necessários. Consideravam-se membros de uma elite racialmente superior. Ou seja, o inglês, quando se dirigia a um indiano, era para dar ordens.

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Os vagões de estradas de ferro reservados aos europeus eram de um luxo muito superior ao dos que rodavam na própria Inglaterra. Afinal, deixar sua ilha civilizada e rica na Europa merecia uma compensação. Aliás, aventurar-se no clima quente, sujeito às tempestades de monções na distante Índia não seduzia a qualquer britãnico. Em resumo, queriam algumas vantagens, como status, padrão de vida etc.

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Os cantonments

Os britânicos possuíam seus bairros reservados, os cantonments. Ficavam longe da bagunça do resto do país. Em outras palavras, com ruas limpas, gramados impecáveis, residências luxuosas. Igualmente com clubes, restaurantes, bares, lojas e meios de transporte exclusivos. A nada disso os indianos tinham acesso.
E, obviamente, só se deslocavam em carruagens. Em suma, era mais ou menos como o apartheid sul-africano. Os altos funcionários britânicos moravam em casas ricamente mobiliadas, com pratarias, cristais, tapeçarias. Possuíam também uma multidão de criados nativos para servi-los.

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Um padrão que os próprios ingleses nunca tiveram na Inglaterra

Ou seja, conformavam-se em suportar o clima úmido e quente do subcontinente e o risco das enfermidades tropicais longe de sua pátria. Eram, porém, mas recompensados com um padrão de vida e um status a que nunca teriam direito na sua velha ilha. Vinham como senhores todo-poderosos a serviço do Império. Tinham assim que administrar e mandar. Ou seja, impor sua “civilização” aos asiáticos.

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O apartheid instituído pelos ingleses na Índia e a exploração colonialista acabaram, entretanto, por ferir os brios de uma elite intelectualizada nativa. Gente educada nas melhores universidades europeias. Por sua vez, os britânicos tinham necessidade de formação de quadros locais. Assim, precisavam deles, principalmente, depois da Primeira Guerra Mundial, quando perto de 500 mil ingleses foram mortos nos campos de batalha.

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A tomada de consciência

O acesso à cultura e às instituições democráticas ocidentais, porém, fez com que os indianos instruídos começassem a tomar consciência dos problemas de seu país. Afinal, sentiam-se estrangeiros em sua própria pátria. Eram proibidos de frequentar muitos lugares públicos. Em muito locais indianos somente podiam entrar na qualidade de empregados, pela porta de serviço.
É verdade que, para as massas indianas não havia muita diferença entre serem dominadas pelos ingleses ou por príncipes despóticos. Ou seja, em ambos os casos sua vida continuava igualmente miserável. Assim, essas discriminações acabaram por unir as elites nacionalistas hindus e muçulmanas. Ambas arejadas por ideias de pensadores liberais e socialistas do Ocidente.

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O partido do Congresso

Mas os ingleses foram espertos. Assim, procuraram contrapor ou neutralizar os crescentes sentimentos nativistas no subcontinente. Com esse objetivo foi fundado por iniciativa do vice-rei Octavian Hume, o Partido do Congresso. Sua função, entretanto, era “enquadrar” as elites indianas. Estas teriam, portanto, suas aspirações nacionais expressas através de um movimento extremamente moderado. E, ainda mais, sob controle inglês. Foi assim o que aconteceu durante muito tempo. Posteriormente, porém, a negativa de conceder independência às Índias acabou por radicalizar a ação dos seus membros.

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O Rowllat Act

Mesmo assim, o Partido do Congresso, Gandhi inclusive, apoiou a Inglaterra durante a Primeira Guerra. Esperavam que essa colaboração, fosse assim, recompensada após o término do conflito. Em suma, que os ingleses aceitassem a independência da Índia. Entretanto, o que aconteceu foi justamente o contrário. Ou seja, mal terminada a guerra, os ingleses logo baixaram O Rowllat Act. Ele foi, afinal, expressamente destinado a conter, mesmo com o uso de tropas militares, se fosse preciso, qualquer veleidade de independência por parte de sua preciosa colônia.

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Gandhi com Nehru

Nunca houve, entretanto, uma verdadeira revolução para expulsar os ingleses da Índia. Ocorreram, porém intensas pressões populares. Elas foram conduzidas por Gandhi, Nheru e demais seguidores, até obterem sua independência. Os ingleses conseguiram, porém, sair como amigos. Foram os indianos, separados pela religião que se mataram entre eles. Falarei mais adiante do horror que foi a partilha do “império das Índias”. Este abrangia a Índia atual, Paquistão e Bangh-Desh. Também é interessante falar mais sobre a luta de Gandhi. Sem muito sucesso, ele fez tudo para os massacres religiosos. Crimes, aliás, praticados por hindus, muçulmanos e sikhs.

Explicação necessária:

Outras viagens pela Índia, lugares e experiências

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Nosso destino nessa viagem de carro, espinha dorsal do livro “A Vaca na Estrada” de Paris ao Nepal, seria Katmandu. Da Europa passaríamos pela Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão e Índia. Antes, porém, de seguir para o Nepal fomos visitando outros lugares na Índia. Aliás, como estive diversas vezes no país, o livro “A Vaca na Estrada”, inclui igualmente algumas experiências vividas em outras viagens pelo subcontinente indiano.
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