Livro: A Vaca na Estrada

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Armazéns sobre palafitas

Caxemira: canais ligavam o cristalino Nageen Lake ao sujo lago da cidade, o Dal Lake. Essas vias aquáticas eram plenas de vida e atividade humana em suas margens. Eram comum em todo lugar cruzarmos com casas, quitandas, lojinhas e mesmo armazéns maiores sobre palafitas. Ou seja, lugares onde as pessoas da terra e mesmo turistas faziam suas compras a bordo de sikaras.

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Srinagar, uma simpática aldeia provinciana

Em Srinagar, a capital da Caxemira era ocupada por casarões de madeira de telhados inclinados, que nos davam a impressão de estar circulando por uma grande aldeia provinciana. Apesar de a cidade ser simpática, raramente nos dispúnhamos a deixar nosso paraíso lacustre e nos deslocar até Srinagar. Quando o fizemos, fomos pelos canais do lago, que levavam até a cidade.

A shikara, nosos transporte pelo lago

Novos house-boats à espera de turistas

Cruzamos em diferentes momentos com alguns houseboats em construção junto das margens. Muitos tinham os cascos já na água, enquanto a parte superior e as cabinas iam sendo levantadas. Às vezes, aliás, parávamos para fotografar. Era interessante assistir os artesãos e marceneiros lavrando as peças de madeira. Algumas, bem elaboradas, eram destinadas à ornamentação dos barcos. Gostávamos, igualmente de entender como construiam os house-boats.

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Fim da festa?

Quando estávamos por lá novos turistas, indianos tambem, mas igualmente pessoas de tudo quanto é canto, estavam chegando à Caxemira em grande número. Ou seja, foi um período de prosperidade para os donos dos houseboats. Infelizmente, o estado permanente de guerra entre Índia e Paquistão, além de atentados terroristas deu, entretanto, um fim nessa festa.

Jardins flutuantes

Passados esses trechos habitados e movimentados, as margens se despovoavam. Passávamos assim a atravessar longos trechos de águas calmas, forradas de vegetação. Eram, em outras palavras, verdadeiros jardins flutuantes. cheios de flores. Tapetes esverdeados de plantas aquáticas cobriam essa parte do lago. Pareciam campos de verdade, ou um gramado. Em suma, como se pudéssemos caminhar sobre eles.

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O festival sonoro do por-do-sol

O momento mais lindo, porém, era ao entardecer com o poente avermelhado contra as montanhas ao fundo. Ou seja, aquele momento mágico, quando pássaros os mais diferentes recolhiam-se às árvores nas margens. O imenso arvoredo servia de abrigo a pássaros que acompanhavam o pôr-do-sol com um forte coro de trinados. Em suma, a terra inteira se tornava sonora e viva. Era o hino do crepúsculo, que ouvíamos todos os dias, misturado ao cântico das mulheres que habitavam cabanas à beira do Nageen Lake.
As noites de lua cheia eram ainda mais especiais, com reflexos prateados balançando nas águas. O céu cobria-se de cores de sonho de criança. Era hora para se tomar consciência da beleza de nosso planeta Terra.

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Chicken sometimes

A vida no house-boat era tranquila, quase contemplativa. A única preocupação era, em síntese, escolher a hora do almoço ou do jantar ou, igualmente, nos informarmos sobre o menu. Combináramos que o cardápio preveria refeições da culinária indiana vegetariana, principalmente, e, vez ou outra, carne.
“Frango, por exemplo? “ perguntei, desconfiado de que nos serviriam um carneiro gorduroso só com ossos e pelanca, como acontecia, nos restaurantes indianos mais simples.
— Yes, chicken, sometimes — respondeu Mr. Jalal, o patrão do houseboat.

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Entretanto, só nos serviram frango eventualmente, o que virou motivo de piada para nós. Por sorte, pelo menos, nos prepararam um excelente tandoori chicken, um prato delicioso.
Certo dia, aliás, Bernard, depois de falar com o cozinheiro, disse rindo, que teríamos naquela noite um prato especial cachemiri: “Chicken sometimes ao curry.”

As graciosas crianças caxemiris

Apesar de nunca ter me interessado em ter filhos, impossível nos meus planos de sair pelo mundo, sempre me interessei em fotografar crianças nos vários países que visitei. Quase sempre eu conseguia imagens encantadoras, excelentes, na Cachemira, no Rajastão, no Nepal, na Tailândia. Muitas, ainda mais, usavam suas roupas típicas, que as faziam ainda mais especiais e diferentes aos nossso olhos. Frequentemente estavam por perto de nosso houseboat, curiosas, normalmente em relação aos estrangeiros.

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As canetas bics

Eram sempre graciosas com seu indefinido tipo oriental e seus olhos negros e brilhantes. Duas delas nos pediram canetas bics. Em toda parte, aliás, isso era um pedido comum das crianças nessa nossa viagem pela Ásia. Sabiam pelo menos as palavra school e pen em inglês. Não tínhamos, mas prometemos comprá-las se fôssemos em Srinagar. Cumprimos nossa promessas, entregando-lhes as canetas sob os olhares aprovadores das mães. Aliás, creio que são elas que mandam as filhas pedirem canetas aos “gringos”.

Os amigos do lago

Sentimos um certo isolamento inicial, sem muito contato com outros viajantes, como acontecera, até então, no Afegansitão, no Irã e na Turquia. Ao navegar pelo lago com nossa sikara cruzamos, porém, com europeus com o quais fizemos amizade. Eram franceses, três garotas e dois rapazes de Tolouse, que também tinham alugado um houseboat não longe do nosso. Começamos a nos convidar mutuamente, primeiro para tomar um chá ao anoitecer, depois para jantares. Preparávamos, assim, na medida de possível pratos franceses, dispensando o “serviço de bordo” do houseboat.

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Um chef de cuisine brésilien

Como sempre curti culinária e tive amigos franceses que eram verdadeiros mestres de alta cozinha, propus fazer um boeuf-bourguignon em nosso house-boat. Francês é exigente com gastronmia. Franziram a testa, desconfiados. Acho que ignoravam a vocação dos brésiliens para a culinária. Pedi que me deixassem só na cozinha. Depois, à mesa os olhares foram de aprovação.

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Onde aprendi?

Onde você aprendeu isso? perguntou uma das moças com seu marcante sotaque de Toulose.
Dei risada:
En France!
Um de nosso novos amigos franceses insistiu em me testar:
Qual vinho, na sua opinião acompanharia esse bouef-bourguignon?
Eu já preparara esse prato e o degustara dezenas de vezes e tinha resposta na ponta da língua:
Un Nuits-Saint-Georges, peut-êtreOu um Chateau-Neuf du Pape.
Foi quando passaram a me respeitar como chef de cuisine e gourmet

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Papos na lua cheia

As visitas que se estendiam até altas horas quando, aproveitando a lua cheia, subíamos para o terraço no teto do houseboa. Era onde conversávamos, bebericando um chá ou um café (quase sempre mal feito…). Sempre falávamos de viagens, naturalmente, algo que todos adoravam. Todo mundo ali, aliás, conhecia dezenas de países. Afinal, os europeus viajam muito mais do que nós, brasileiros.

A noite subíamos para o teto do house-boat, levávamos cadeiras e
levávamos bons papos com nosos vizinhos franceses

Afinidades sob o luar

Mas, íamos além. Ou seja, acabávamos conversando, igualmente, sobre uma varidade de assuntos, dos existenciais à sociologia, história, política e lendas. Todos nossos amigos eram da área de humanas, entre eles dois cientistas sociais, como eu. Ou seja, isso rendia assunto.
Ao escrever sobre o Paquistão, já pude mencionar anteriormente, que as pessoas se deixam convencer a praticar atos irracionais por motivos religiosos. Aliás, o homem pode igualmente, em nome de uma ideologia ou do “patriotismo”, ser convencido a matar seu semelhante, ou um habitante do outro lado do planeta. Ou seja, basta o governo dizer às pessoas que existe uma ameaça externa, invocar seu patriotismo e acusar os pacifistas de traição.

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O planeta não aguenta mais tanta gente

Todos concordavam, em maior ou menor medida. Era perfeitamente consciente, como eu, que o planeta não suporta mais tanta gente. Era hora de parar de nos reproduzirmos como coelhos. Ter um “monte de filhos”, como desejam alguns, é arriscar o futuro de todas as novas gerações. Talvez, inclusive comprometer o futuro do homem sobre a Terra.

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A Terra tem seus limites

É egoísmo! Ou seja, mesmo adotando severas medidas de controle da poluição, a terra tem seus limites. Há estudos da ONU a respeito, conduzidos por cientistas. Mais gente é mais poluição, plástico, ferro, consumo de água, de madeira, desmatamento, queimadas, destruição de florestas. É mais disputa por território, mais guerras. É hora, portanto, de encarar: não há mais espaço para negacionismo!

Jesus na Caxemira

Jesus na Caxemira? Esse foi outro de nossos papos no terraço do house-boat. Corria entre o povo a versão de que Jesus teria vivido na Caxemira e estaria enterrado por lá, perto de Srinagar. Não teria sido crucificado, mas partido para a Índia, onde se exilara para escapar das perseguições. Enfim, existe até uma casa onde dizem que Jesus teria morado, e que pode mesmo se visitada. (Não é um house-boat…). . Afinal, há, igualmente outras versões, as mais diferentes possíveis sobre a vida de Cristo. Aliás, mesmo os evangelhos foram escritos cem anos após sua morte. Por isso eu franzo sempre a testa quando escuto alguém pregando: “Jesus disse isso, disse aquilo“. Quem estava do lado anotando? Há, ainda, os que defendem que ele teria tido um filho com Maria Madalena, ou mesmo, que Maria posteriormente se instalara no sul da França… Lendas são lendas!

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Caxemira 2Filme “Maria Madalena”

A ignorância não tem fronteiras

Há momentos em que as pessoas aceitam coisas que contrariam o mais elementar bom senso. Como e porque isso acontece? Ainda não cheguei a conclusão alguma. Acho, porém, que as pessoas têm necessidade de seguir um líder, uma causa, de crer em um ou mais deuses. Querem dogmas prontos para adotar. Em suma, detestam ser obrigadas a pensar. Assim apoiam aiatolás fanáticos no Irã. E o que dizer de um povo culto e racional como o alemão, seguindo um ditador psicopata, como Hitler?

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Caxemira 2 – Gente aparentemente normal

E no Brasil?

E no Brasil, pessoas aparentemente normais acreditando em certos mitos com evidentes desvios psicológicos? Ou, ainda mais, se deixando explorar por picaretas em nome de uma pseudo-religião? Eu poderia, enfim, dar muitos outros exemplos. Em resumo, como disse uma das francesas: “La connerie n’ a pas de frontières!” (A imbecilidade não tem fronteiras).

Fim das férias

Ficamos aproximadamente um mês na Caxemira. Foi ótimo! Katmandu, entretanto, nos esperava. Era preciso, enfim, pegar de novo a estrada. Foi, entretanto, com pesar que abandonamos aquele paraíso, uma importante pausa na viagem, um lugar confortável, divertido. Bom para descansar e escrever cartas aos meus amigos de São Paulo e de Paris. Em resumo, perfeito, portanto, para nos refazermos do inferno das planícies indianas ainda alagadas pelos últimos temporais das monções.

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Retomando a estrada, rumo a Delhi

A viagem, portanto, não acabava ali. Tínhamos ainda milhares de quilômetros ainda para rodar antes de chegarmos a Katmandu. Em suma, era preciso seguir em frente, dar adeus ao lago. Despedir de nossos amigos, à poesia musical dos crepúsculos, ao perfume das montanhas. Durante uns quatro dias adiamos, por um motivo ou outro, nossa partida, mas chegou um momento em que não teve como.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Caxemira 2houseboats

Fim das férias na Cachemira indiana

Tomamos, finalmente, coragem para abandonar o clima doce do lago e enfrentar o ar morno das terras baixas, com estradas lotadas, ocupadas por carros, caminhões, carroças, camelos e até elefantes.
Quando voltei à Caxemira anos depois, com uma namorada brasileira, Instalamo-nos em um houseboat no mesmo lago, onde passamos duas semanas maravilhosas. Posteriormente, porém, começaram as guerras, os atentados terroristas e a Caxemira tornou-se, assim um destino perigoso.

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