Livro: A Vaca na Estrada

020 De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Amritzar

Amritzar, no Pendjab, terra dos sikhs

Amritzar, nossa etapa seguinte, é a primeira cidade indiana digna desse nome que o viajante encontra na rota que seguímos. Fica no Pendjab indiano, próxima à fronteira paquistanesa. Essa é única região da Índia onde os sikhs são de fato a maioria da população. Para muitos ocidentais, a imagem do indiano é a de um homem barbudo portando turbante. Na realidade, porém, os sikhs são praticamente os únicos a utilizá-los. Pelo menos esses turbantes pontudos, elegantes.
Abaixo: Mapa de Amrtizar e região

Sikhs, uma minoria entre os indianos

Ou seja, muçulmanos e rajastanis também usam turbantes, mas não são, porém, tão elaborados. Os dos sicks são, porém, mais elegantes.
Segundo apurado pelo Ministério de Assuntos Internos da Índia, os sikhs em 2001 representavam uma comunidade de cerca de 19 milhões de pessoas, o que, aliás, para um país como a Índia, é gota d’ água no oceano. A maior parte dos sikhs se concenta em Amritzar.

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O Sikhismo

O Sikhismo surgiu por volta do século XV e consolidou seus dogmas durante o século seguinte, no Pundjab. Seu fundador foi o guru Nanak, nascido em1469 – falecido em 1539. Suas ideias eram, assim, uma síntese do Hinduísmo e do Islamismo. Nanak foi o primeiro dos dez Gurus sikhismo. Durante o domínio mogol, os sikhs sofreram terríveis perseguições. A história dessas atrocidades, são, assim, sempre lembradas e ensinadas aos jovens sikhs.

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Guru Naak

Uma confraria aguerrida

Embora reprimidos, os sikhs espalharam-se pelo Pundjab, com sua crença em um Deus único, a Verdade Suprema. A violência do domínio mogol fez com que o nono e último sucessor do Guru Nanak, o Guru Gobind Singh, transformasse a religião numa confraria aguerrida. Dessa forma surgiram os Khalsa, ou “puros”, cujo sobrenome é Singh (“Leão”) e cuja fé deveria ser sempre exteriorizada.

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Skhs, facilmente reconhecíveis

Convém lembrar: todo sikh é Singh, mas nem todo Singh é um sikh. Quando você olha para um indiano qualquer, você nunca sabe sua religião. Assim, ele pode ser hindu, muçulmano, parsi, budista ou até cristão de Goa. Um sick, porém, você reconhece imediatamente . De cara, por seu turbante colorido, onde prende, enrolados, a barba e uma longa cabeleira. Os longos cabelos (e nenhum pelo do corpo) não podem nunca ser cortados. Você reconhecerá um sick igualmente pelo uso do bracelete de aço no punho direito.

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Are you sick?

Outras obrigações impostas pelo Guru Gobind Singh não são, porém, mais observadas pela maioria dos sikhs hoje em dia. É o caso, por exemplo, como o porte do sabre chamado kirpan.
A palavra sikh tem, aliás, o mesmo som que sick (doente, em inglês), o que gera por vezes confusões. Dessa forma, certa vez, conversando com um amigo indiano, notei que ele estava resfriado e perguntei:
Are you sick?
Ele olhou-me surpreso e respondeu:
No, I’m hindu!

Sikhs – importância econômica considerável

Com o fim do domínio mogol, os sikhs prosperaram, instalando seu estado próprio no Pundjab, junto à atual fronteira paquistanesa. Guerreiros corajosos, os sikhs resistiram com ferocidade aos ingleses, impondo-lhes algumas derrotas. Dominados finalmente em 1849, tornaram-se fiéis aliados do Império Britânico, fornecendo-lhes boa parte dos efetivos do exército colonial.

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Siks, um terço das tropas nativas do Império das Índias britânicas

Embora constituíssem aproximadamente 2% da população das Índias, forneciam entretanto, um terço dos efetivos militares nativos a serviço da Coroa. Sob o pavilhão inglês, ajudaram a consolidar o domínio britânico sobre o restante do território. Ainda mais, bateram-se valentemente contra os alemães na primeira Guerra Mundial e posteriomente contra o nazismo.
Apesar de os sikhs serem minoria na população indiana, sua relevância, porém, econômica é considerável. Constituem parte importante da oficialidade do exército indiano e da administração pública. São extremamente ativos no setor de transporte. Você os vê, igualmente, cruzando a planície indiana no volante dos potentes caminhões Tata.

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Soldados sikhs

O Templo Dourado

O lugar mais sagrado para os sikhs é o famoso Templo Dourado na cidade de Amritsar. Logo ao chegar a Amritzar Bernard e eu descobrimos que era possível nos hospedar no templo. Existia, assim, um alojamento destinado a peregrinos. Resolvemos, portanto, domir lá pela curiosidade da experiência. A cama era apenas um estrado no chão. O local era, entretanto, bastante limpo. No templo também eram servidas refeições simples aos peregrinos. Assim, nos sentamos ao lado de sikhs para comer um arroz com legumes e galinha.

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A cerimônia no Templo

Pudemos visitar o interior do templo. Ainda mais, nos permitiram, também assistir ao cerimonial da seita. Os sikhs, de fato, são bem tolerantes com estrangeiros. Obviamente, os que se comportam de forma respeituosa. Ou seja, bastou, para sermos aceitos, nos sentar entre os sicks, no interior do templo dourado. Só tivemos que manter completo silêncio. Posteriormente, em outras viagens pela Índia fiz amizades com sikhs. Gente boa!

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O templo

O templo de mármore, em estilo misto mogol e hindu, fica na cidade de Amritzar, junto da fronteira paquistanesa. O lindo templo fica no centro de um lago, também sagrado, utilizado para banhos rituais. Assim, o templo é acessível por uma ponte até a margem. Sua cúpula foi recoberta de folhas de ouro em 1601, por ordem do Guru Arjan, o quinto grande mestre espiritual sikh.

O Guru Granth Sahib em Amritzar

Para entrar no templo é necessário cobrir a cabeça, tirar os sapatos e igualmente lavar os pés. No lugar de honra do templo, sobre uma plataforma, fica o livro sagrado dos sikhs, o Guru Granth Sahib. O livro sagrado reúne orações e cânticos elaborados pelos gurus da seita e tornou-se posteriormente, a partir de 1708 uma espécie de “guru escrito”.

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O Granth Sahib

Em suma, substitui os guias espirituais de carne e osso. Nenhuma estátua de guru humano é, aliás, reverenciada no interior do templo deAmritzar. Todas as edições do Guru Granth Sahib, manuscritas ou impressas, possuem exatamente 1430 páginas. Os redatores e, igualmente os diagramadores que se arranjem; afinal, o número é sagrado. Ou seja, o número de páginas tem que bater!

O templo mais sagrado dos sicks em Amritzar

Quando visitei o Templo Dourado de Amritzar pela primeira vez, a situação estava calma. Posteriormente, porém, separatistas sikhs, que pretendiam a autonomia do Pundjab, entrincheiraram-se ali. Estavam armados com metralhadoras pesadas e bazucas. Liderados por Jarnail Singh Brindranwale, desafiaram o poder de Delhi.
Durante algum tempo, a então primeira-ministra Indira Gandhi hesitou em atacar o Templo Dourado. Ou seja, temendo as repercussões entre a comunidade sikh.

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O ataque ao templo de Amritzar

Chegando a um impasse, deu ordem ao exército indiano para ocupar o templo dourado de Amritzar. Perto de mil pessoas morreram nos combates, entre eles o próprio Brindranwale. O belíssimo templo foi bastante danificado. Daí em diante, Indira foi jurada de morte pelos extremistas sikhs.
Indira sempre declarou ser apenas contra a liderança radical da seita .Ou seja, não tinha nada contra os sikhs em geral. Indira, entretanto, cometeu a imprudência de manter sikhs em sua guarda pessoal. “Com sikhs como esses” , dizia, referindo-se aos seus guarda-costas — “não tenho nada a temer.” Foi um erro.

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Indira metralhada

Ou seja, um dia, eles a metralharam. Parece ter havido descuido da polícia indiana e do próprio esquema de segurança da primeira-ministra. Investigações posteriores mostraram que seus assassinos eram ligados a grupos radicais sikhs. Mais uma vez a polícia indiana, como no caso do assassinato de Gandhi, mostrou-se de extrema incompetência.
O assassinato da primeira-ministra Indira Gandhi, ocorrido em 1984, mergulhou a Índia em novo banho de sangue. Desta vez, entretanto, atirando hindus contra a minoria sikh, seus aliados contra os muçulmanos durante a luta pela independência e a partilha das Índias.

“A Vaca na Estrada” – Amritzar
Descuido da polícia indiana resultaram na morte de Indira Gandhi

O massacre dos sikhs

Assim, provavelmente perto de 1.000 sikhs foram mortos em toda parte na Índia. O massacre ocorreu nas ruas, nas estações de estradas de ferro. Igualmente, e nos trens que levavam os que fugiam rumo ao Pendjab, sua região. Veículos conduzidos por sikhs foram detidos nas ruas de Delhi e seus motoristas, arrancados do volante e assassinados. Lojas, automóveis e casas de sikhs foram incendiadas. A capital indiana e outras grandes cidades viram-se palcos de extrema violência.

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Cadáveres de sikhs foram arrastados na praça central de Nova Delhi. As cenas de pessoas mortas nas ruas eram comuns. A baderna tomou conta das cidades indianas.Assim, faltaram meios de transporte, os incêndios e a confusão mantiveram os estrangeiros enclausurados nos hotéis. Felizmente, entretanto, turistas e outros estrangeiros raramente foram molestados. Somente jornalistas que tentavam documentar a violência tiveram problemas. Em Nova Delhi, uma equipe da televisão brasileira, foi agredida a pedradas, indo refugiar-se na Embaixada do Brasil.

A violência repentina

É estranho o modo repentino como essas explosões ocorrem na Índia. Ou seja, Delhi estava absolutamente tranquila e nada no ar denunciava qualquer inquietação. De súbito, espalhou-se a notícia: a Maa (“Mãe”) fora assassinada por sikhs. Assim, o grito de vingança “Sangue por sangue” correu pela cidade; Num instante, o caos foi completo. As ruas de Nova Delhi tornaram-se perigosas, entregues a hordas enfurecidas.
Ante a desordem e os saques nas ruas das cidades paralisadas, Rajiv, filho de Indira, que imediatamente assumiu o cargo da mãe, tomou medidas enérgicas. Ou seja, entregou ao exército a tarefa de recuperar a ordem. De um lado, os siks eram um terço das FA indianas. De outro a polícia nunca se mostrara decidida com os manifestantes. Dessa forma, com as forças armadas no controle da situação e o próprio filho da líder morta clamando por moderação, a paz foi finalmente voltando às ruas.

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Atentando contra avião

Posteriormente, porém, os radicais partiram para o revide: o terrorismo. Talvez o pior desses atentados tenha sido o cometido contra um avião da Air India. A aeronave xplodiu sobre o Atlântico, em vôo próximo da Inglaterra. Assim, novamente a população sikh foi alvo de vingança. Aliás, conflitos religiosos antissikhs ou antimuçulmanos são comuns na Índia.

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A política do novo primeiro-ministro foi partir para negociações. Dessa forma conseguiu um acordo com as lideranças sikhs mais moderadas. Atendendo, porém, algumas de suas reivindicações. Afinal, o dia de amanhã poderia trazer o inesperado. Em suma, o sangue estaria de novo sendo derramado pelo país. Ou seja, algo que nem hindus nem sikhs gostariam que se repetisse.

Sigam o relato:

Sigam esta aventura de carro pelas estradas da Ásia. Atravesse o Oriente mágico e éxotico que encantou milhares de jovens europeus. Uma experiência vivida pelo autor do livro “A Vaca na Estrada” por países como Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, ÍndiaNepal


Veja a continuação desta postagem: Caxemira 1

Explicação necessária

Como estive diversas vezes no país, o livro “A Vaca na Estrada”, inclui igualmente temas socio-culturais e algumas experiências vividas em outras viagens pelo subcontinente indiano.
Mumbay – Goa  – Os marajáso controle da natalidade – Arte na ÍndiaRajastão 1Rajastão 2 – Casamento à indianaViagem de trem na ÍndiaAs castas A colonização inglesa Gandhi  – Costumes, cultura Shiva e Jesus

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