América do Sul

Cusco, a antiga capital inca

Rumo a Cusco

O Peru foi nosso destino seguinte após deixarmos La Paz, na Bolívia. Dessa forma, pegamos um ônibus da capital boliviana até Puno, junto ao lago Titicaca, a primeira cidade peruana de certa importância depois de cruzarmos a fronteira. Após alguns dias em Puno tomamos um ônibus noturno e, com o dia raiando, desembarcamos em Cusco.
Eu já estivera em Cusco mais de meia dúzia de vezes, escrevi um guia de viagem sobre o Peru e um romance histórico sobre a conquista do império inca (“O Ouro Maldito dos Incas”). Assim, sou apaixonado pelo tema. Ketty, que já vira minhas fotos tiradas em viagens anteriores, estava igualmente entusiasmada. Ainda mais, em produzir um vídeo e fotografar a cidade.

Centro histórico de Cusco

Cusco na história

Situada no Altiplano, Cusco foi a capital do império Inca, o maior e mais poderoso império do Novo Mundo. Com uma população de 12 milhões de pessoas, o Império Inca se estendia de Quito, no Equador, até o norte do Chile. Embora os povos conquistados pelos incas falassem algumas centenas de idiomas diferentes, a língua oficial era o quéchua, utilizado pelos incas.
Cusco, a capital incaica, teria sido fundada no século XIII, e era considerada pelos incas como o “umbigo do mundo”. 

Catedral de Cusco

A conquista espanhola

Em 1533 esse enorme império foi conquistado por um punhado de espanhóis, menos de oitenta soldados, comandados por Francisco Pizarro. Como? Vou resumir: os incas não conheciam armas de fogo e morriam de medo dos cavalos trazidos pelos espanhóis, acreditando que devoravam pessoas. E, ainda mais, os espanhóis desembarcaram no Peru quando o império estava dividido e em plena guerra civil. Assim, o trono estava sendo disputado por Atahualpa e Huáscar, filhos do imperador que falecera.
Finalmente, as doenças transmitida pelos espanhóis, como varíola e sífilis, contra as quais os nativos não tinham nenhuma resistência, mataram metade da população do império. Isso desestruturou a civilização incaica.

Um império avançado, mas que desconhecia a escrita

É uma pena que os incas, apesar de terem criado um enorme império muito bem organizado, não conheciam a escrita. Dessa forma, o que sabemos sobre a história de sua civilização é, em boa parte, baseada em lendas. A civilização inca, entretanto, possuía aspectos muito avançados. Assim, os espanhóis ficaram surpresos ao deparar com uma cidade tão grande como os maiores centros europeus da época, com ruas pavimentadas, mais limpas e organizadas do que as espanholas.
Os incas também não conheciam a roda.
Enfim, muita coisa sobre os costumes incas fui obrigado a estudar para poder escrever meu romance histórico O Ouro Maldito dos Incas. Creio que li 18 livros sobre os incas e a conquista, a maior parte deles comprado no Peru.

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A cultura inca, livro “O Ouro maldito dos incas”

Como ir do Brasil para Cusco

De avião via Lima

Saiba, em primeiro lugar, que não existem vôos diretos do Brasil para Cusco.  Eu já utilizei duas rotas diferentes. Uma é via Lima, 8 horas de vôo. Eu peguei uma promoção interessante de São Paulo para a capital peruana, mas essa rota costuma ser meio cara. De Lima há muitos vôos para Cusco. É possível, igualmente, ir por terra de Lima para Cusco, mas é uma viagem longa (mais de vinte horas de estrada!) e cansativa, exceto se você têm a intenção visitar lugares no caminho.

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A caminho de Cusco

De avião via La Paz

A outra opção é via La Paz, cinco horas de viagem e, normalmente, mais em conta. Só vale a pena, porém, se você estiver interessado em conhecer a capital boliviana e depois fazer por terra o trecho até Cusco, via Puno, junto do Titicaca. A passagem aérea de La Paz para Cusco não é muito barata. Se somar o trecho de São Paulo a La Paz e da capital boliviana para Cusco, tudo de avião, verá que talvez seja melhor pensar em uma promoção via Lima. Eu utilizei essa rota mais de uma vez, mas sempre fiz por terra o trecho de La Paz até Cusco, muito interessante, diga-se de passagem.

Por terra de La Paz a Cusco

Por terra

Há atualmente um ônibus de São Paulo a Lima. São seis dias de viagem para percorrer 6 mil km. É uma aventura que testa os limites de qualquer um.
Há igualmente ônibus de São Paulo e do Rio de Janeiro até Corumbá, na fronteira da Bolívia, muito mais recomendável. Quando fiz esse caminho tomei um táxi de Corumbá até o posto fronteiriço do lado boliviano, onde carimbei meu passaporte. Em seguida tomei outro táxi, até Puerto Quijarro, onde onde há trens para Santa Cruz de la Sierra.

O Tren de la Muerte

Esse é o famoso tren de la muerte, a Ferrovia Oriental. Enfim, o conselho é evitar o equivalente à segunda classe em um trem misto com vagões de carga e de passageiros. As passagens nesse trem são baratas, porém, a viagem é muito cansativa, um calor do cão, mosquitos, gente demais.
A viagem até Santa Cruz de la Sierra toma teoricamente 17 horas, quando nada acontece de errado. Uma de minhas viagens nesse trem demorou 36 horas!
Já foi muito pior. Hoje em dia, porém, a chamada Ferrovia Oriental melhorou muito a qualidade de seus serviços e oferece opções mais rápidas e muito mais confortáveis.

A Ferrovia Oriental melhorou

O super Pullman do Expresso Oriental tem poltronas reclináveis, ar condicionado, vagão-restaurante e outros confortos. Melhor ainda é o Ferrobus, uma espécie de litorina, também com ar condicionado e poltronas-cama, que reclinam bastante. De Santa Cruz, uma cidade agradável, mas sem grande interesse, há ônibus para La Paz. São 14 horas de estrada. 
De La Paz há ônibus diretos para Puno, no Peru, uma viagem que toma 4h30-5h de estrada. De Puno, junto do lago Titicaca, onde vale a pena passar uns dias, há onibus diretos para Cusco. Assim, são mais seis horas e meia de viagem. Se você tomar um ônibus noturno, como nós fizemos, desembarcará em Cusco com o dia raiando.

Dicas para quem dinheiro não é problema

Há trens turísticos de luxo três vezes por semana de Puno a Cusco, da Peru Rail Andean Explorer. Os trens saem de Puno às 8h da manhã, são dez horas de viagem com direito a paisagens magníficas (sente-se do lado esquerdo do vagão, a vista é muito mais interessante).
O serviço de bordo é excelente. Servem até champagne. Há igualmente espetáculo de danças típicas, turísticas até não poder mais. Nada disso, porém, incomoda, nem as danças nem o champagne. O que incomoda é o preço absurdo. Antes era uma viagem igualmente incrível, em um trem comum, e muito barato, mesmo na primeira classe. A festa acabou, se você não está com a carteira recheada de dólares, tome o ônibus.

Hotel em Cusco

Como já conheço Cusco bastante bem, já sabia de antemão onde era melhor se hospedar. Sem sombra de dúvida, o ideal é sempre se hospedar o mais próximo possível da Plaza de Armas, onde tudo acontece. Nas vizinhanças estão as principais atrações, perto da praça fica igualmente, o escritório oficial de turismo. Assim também, é na Plaza de Armas e arredores que você encontrará restaurantes, bares, casas de câmbio, agências de turismo, lojas, e muitos hotéis. Há hostels e hotéis igualmente em San Blás, um lugar informal e bem simpático no alto da Calle Triunfo, que sai da Plaza de Armas.

Plaza de Armas de Cusco

Hospedagem em San Blás e na Calle Triunfo

San Blás não fica tão da longe do centro. O problema, entretanto, é a mega ladeira para chegar até lá. Para descer é tranquilo, você vai no embalo. Para subir é de arrepiar. Muita gente que se hospeda por lá toma um táxi apenas para subir a ladeira!
No começo da Triunfo, perto da Plaza de Armas, há vários hotéis de mais fácil acesso e sem muita ladeira para se encarar. Entretanto, nem todo hotel nessa área agrada. Estivemos, por exemplo, no Peruvian Hostal, com quartos decentes, mas uma proprietária muito metida a esperta que tentou nos passar a perna nas contas. Evite-o!

Quando é melhor visitar Cusco

Em Cusco, em razão da altitude (3.400m), faz frio o ano todo, mesmo no verão. O frio, entretanto, principalmente durante o dia, se estiver sol, dá para encarar. Logo cedo e à noite, porém, as temperaturas são baixas.
De dezembro a fevereiro, chove bem mais e a chuva chega a incomodar. Apesar disso, é época de férias escolares no Brasil, quando a maioria de nossos turistas pode viajar. Muitos europeus igualmente saem de férias nessa época, considerada alta estação. Assim, além de passagens aéreas mais caras, hotéis mais caros, há turistas demais. Enfim, para a moçada que quer agito, paquera em barzinhos ou sair para dançar ok.
Outra época a ser evitada é julho e agosto, férias escolares em todo o hemisfério norte, também alta estação.

A noite no Altiplano onde fica Cusco, as temperaturas caem rapidamente

Em junho, a Festa do Sol

No outono no hemisfério sul, abril e maio são meses secos, muito agradáveis. Junho também, mas é quando acontece em Cusco a famosa Festa do Sol, ou Inti Raymi, que começa dia 20 e atrai turistas do mundo todo. É uma questão de escolha, portanto. Se você quiser ver essa festa, terá que ser conformar com o fato de muita gente ter a mesma intenção e a cidade estar lotada.
Nós chegamos dias antes para garantir hotel perto da Plaza de Armas, já que tínhamos intenção de ficar no mínimo dez dias na cidade (a festa se estendeu durante um semana!). Queremos, dessa forma, deixar uma dica: se você tem intenção de assistir a Inti Raymi, procure chegar uns dias antes em Cusco para conseguir hotel mais facilmente.

Plaza de Armas de Cusco

E a altitude, incomoda?

Há cidades mais altas do que Cusco no Peru, Bolívia e outros países. A capital do Império Inca fica a 3.400 metros snm e a altitude pode igualmente incomodar. Dessa forma, é indicado tomar chá de folhas de coca ou comprar em uma farmácia um comprimido contra el soroche, ou mal de altitude. Evite igualmente esforços físicos e qualquer excesso. Os que pretendem sair à noite e ir para uma danceteria deve lembrar disso.

Abra os olhos

Marginais existem no mundo todo. Se você mora em uma grande cidade brasileira deve saber muito bem como assaltos e outros golpes são frequentes. Por isso mesmo, em Cusco, se o turismo atrai muitos visitantes, atrai igualmente mal elementos. Assim, evite ruas desertas em horas tardias se você estiver sozinho. As turistas devem ser ainda mais cuidadosas. Assim também, nada de ir a pé de madrugada para a estação. Duas amigas nossas foram assaltadas. Tome um táxi.

Os golpes mais manjados

Golpes ocorrem igualmente na estação rodoviária e de trem. Um deles, famoso, é alguém jogar água suja (de café, por exemplo) em um turista. Logo, cholas (mestiças) acorrem prestativas com paninhos para enxugar e limpar o estrago. É mão por todo lado. Um delas baterá sua carteira. Em suma: eu mesmo já soube de pelo menos dois casos em diferentes viagens.
Outro golpe famoso é o das malas quando você chega em um hotel. Enquanto você está ocupado preenchendo a ficha com seus dados, sua mala pode sumir. Assim, adotamos o costume de um de nós cuidar dos trâmites do check-in na recepção enquanto fica de olho na bagagem. Fazemos isso sempre, não apenas no Peru mas em toda América do Sul. Diga-se de passagem, o hotel mesmo não tem absolutamente nada a ver com a atitude desses marginais.

Onde e o que comer em Cusco

O lugar melhor para se comer em Cusco é nos restantes da Plaza de Armas ou da Calle Procuradores. Ali, em atenção aos turistas do mundo todo, servem culinária peruana e igualmente pratos da cozinha internacional, pizzas etc. A comida peruana típica, porém, inclui pratos que a maioria nós, brasileiros não estão acostumados. Experimentamos vários.

Filé de lhama

Os peruanos comem esse prato que vem geralmente acompanhado de batatas cozidas ou de purê. É, assim, um prato comum por lá, muito consumido pela população nativa. Já havíamos igualmente saboreado esse prato no norte da Argentina, na Quebrada de Humahuaca, uma região de população mestiça aymara, etnicamente semelhante à peruana de Cusco.

Filé de lhama com batatas

Palta ou aguacate relleno

Experimentamos em um restaurante da Plaza de Armas o abacate recheado com camarão. Em quase toda América do Sul, igualmente, notamos que o mais comum são receitas salgadas de abacate. Lembro-me que alguns peruanos arregaram os olhos quando dissemos que, no Brasil, consumimos abacate batido com leite e açúcar. Êita povo esquisito esses brasileiros… (Deve ser isso o que pensaram!)

Ceviche servido em um restaurante de Cusco

Ceviche

É filé de peixe cortado em postas extremamente finas, marinadas durante um bom tempo no suco de limão. A Ketty, que morou muitos anos no Japão, adorou, porque lembra o sashimi. Eu, nem tanto. Enfim, para quem curte peixe cru é um prato cheio.

Cuy

É um porquinho da Índia. Já experimentei uma vez em outra viagem. O cuy é só pele e osso. Não achei, entretanto, grande coisa e ainda fiquei com dó desse bichinho simpático. Os peruanos o consomem assado. O cuy faz parte da culinária incaica desde a época do Império Inca.

Cazuela peruana

Trata-se de uma espécie de sopa muito consumida no Chile e igualmente na Colômbia. Pode ser à base de galinha ou carne bovina (carne de res). Leva frango, batata, pedaços de espiga de milho, pimentão, ervilha, cenoura e vários temperos, como cebola e alho, além de especiarias locais. Saiba, porém, que os ingredientes variam muito de região para região no Peru. Assim, no frio do Altiplano, esse caldo quentinho e nutritivo pega bem.

Papa à la Huancaína

Iguaria preparada com batatas amarelas cozidas e um molho à base de queijo cremoso, queijo fresco, ovos, azeitais pretas, alface. Veja bem, essa receita varia muito de um lugar para o outro, podendo igualmente levar suco de laranja. É consumido em todo o país, particularmente em Lima.

Papa á la Huancaína

Seco de cabrito

É um prato muito consumido no norte do Peru e Equador, porém, você provavelmente o encontrará no cardápio em vários restaurantes em Cusco e em todo o Altiplano. É cabrito com arroz branco, feijão, um tipo de mandioca peruana e, acreditem se quiser, igualmente pedaços de abacate.

Seco de cabrito, feijão em arroz, em Cusco

E quanto às bebidas?

No Peru há boas cervejas e também bebidas tradicionais alcoólicas ou não.

Chicha morada – Trata-se de uma bebida não alcoólica preparada com milho roxo dos Andes (mais morado ou culli).

Pisco Sour – É uma bebida feita com aguardente de uva, limão, gelo e açúcar. Trata-se de uma bebida forte, de alto teor alcoólico, muito a grosso modo, uma espécie de caipirinha peruana. Sendo ao mesmo tempo adociada e refrescante por causa do gelo, muitos turistas abusam passam por uma bela ressaca no dia seguinte.

Outros comes

Nós do “Sonhos de Viagem”, somos fãs dos mercados sul-americanos. Sempre descobrimos algo bom. É, assim, uma maneira de conhecer bons produtos locais. No Peru encontramos ótimos queijos e azeitonas no mercado de Cusco, além de frutas frescas e secas.

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