Livro; O Ouro Maldito dos Incas

002 – Anno de 1527 “O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

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“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Lúcio Martins Rodrigues

Nossa caravela

A travessia do mar oceano nos assustava. Nossa caravela media uns 120 pés de comprimento (Nota do Autor: um pouco menos de 40m) e éramos, dessa forma, obrigados a coabitar em ambientes lotados. Assim, as acomodações para nós, pobres soldados, eram pequenas e sujas. Meu primo, baixinho, por exemplo, cabia no catre, mas eu era obrigado a dormir todo encolhido.
O interior do navio cheirava a podridão, a alcatrão e, ainda mais, a odores humanos bem ruins e a cordas úmidas. Já me perguntaram, rindo, que cheiro tem uma corda úmida.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Não sei descrever, o cheiro de corda molhada. Mas depois dessa viagem nunca esquecerei. Afinal, estava utilizando enroladas para apoiar a cabeça na hora de dormir. Em razão do desconforto do interior do navio durante a travessia das regiões frias perto da Europa, eu, aliás, dormia pouco. Assim, estava sempre sonolento.
Mal alcançamos mares quentes, porém, fiz como a maioria dos marinheiros. Ou seja, passei a dormir ao ar livre, no chão do convés

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Um pouco antes de fechar os olhos, nos demorávamos apreciando a lua ou mirávamos as estrelas, tentando reconhecer constelações. Enquanto isso nos deixávamos embalar pelo barulho das ondas batendo contra o casco do navio. Meu pensamento ia muito longe: Sevilha, meus pais, Teresa… Quantos meses se passariam antes que ela se casasse com outro? Comentei o assunto com Pablo.
Teresa não é mulher de ficar esperando por homem – disse meu primo.
Por amor de Deus, cale a boca!

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

A terra é plana?

Sozinho, pensei com meus botões. A decisão de partir significava, antes de mais nada, na renúncia a tudo o que deixara. Se um dia voltasse, seria o que Deus quisesse. Devaneava, olhando para aquele mar léguas e léguas à nossa frente, que eu não sabia onde terminava.
A terra era realmente redonda? Afinal, certos navegantes haviam comprovado isso. Se fosse verdade, não haveria o risco de nosso navio cair de repente no vazio. Graças a Deus!

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano Terra plana?

(Nota do autor: ainda hoje encontramos “filósofos” que defendem que a terra é plana. Melhor não contrariar)

Assim, Pablo e eu nos perguntávamos o que nos aguardava no final de nossa viagem. Como seria esse lugar chamado Nombre de Dios? E, acima de tudo, lá chegando, o que faríamos? De que modo poderíamos nos engajar em uma expedição? Afinal, novas terras estavam sendo descobertas. Quem sabe cheias de cidades pavimentadas com blocos de ouro.
Durante a maior parte do tempo, a viagem era, porém, tediosa. Em suma, para qualquer lado que olhássemos, tínhamos à frente um horizonte infinito que causava aperto no coração.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Monstros marinhos

Além disso, para aumentar nossa insegurança, corriam entre os marinheiros histórias de monstros e serpentes marinhas. Nunca saberíamos, aliás, se eram verdadeiras. Pablo disse que um marinheiro afirmara ter visto algumas. Mais de uma vez, aliás. Só a cauda de uma serpente saindo das ondas.
E o que ele fez? perguntei, meio caçoando, meio na dúvida se monstros marinhos existiriam de verdade.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Meu primo correu os olhos pela superfície marinha, como se procurasse alguma criatura terrível.
Ele gritou:
– Valha-me Santiago !
E deu certo?
Ele coçou a cabeça:
Parece que deu…

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“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano – Santiago, o Santo Guerreiro Espanhol

Valha-me Santiago

Fiquei cismado com essa história. Afinal, Pablo, sempre meio assustado, olhava para o mar o tempo todo, a ponto de me deixar nervoso. Um dia, estávamos sozinhos na popa, quando ele apontou para um rastro de espumas nas vagas e gritou:
Veja aquilo!
Apertei os olhos. A muitas braças de distância, tive, com efeito, a impressão de ver algo reluzente na superfície do oceano. Permaneci imóvel, observando, enquanto escutava meu primo repetindo sem parar:
Valha-me, Santiago! Valha-me, Santiago!

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

A coisa, o bicho, o monstro, fosse o que fosse, aproximava-se da caravela. Meu coração disparou. Foi quando algo saltou para fora d’água. Parecia um enorme peixe. Franzi a testa e então entendi: o que, de longe, parecia o dorso ondulado de uma serpente, era apenas um bando de golfinhos. Seguiam, assim, a embarcação, em fila, levantando esteiras brancas de espuma.
São golfinhos! – disse Pablo, aliviado.
Dei risada:
Era um monstro, sim, mas Santiago transformou-o em golfinhos.
Ele olhou-me com o rabo dos olhos:
Olhe esse mar, esse azul que tem não sei quantas braças de profundidade. Sabe-se lá o que vive sob essas águas, primo. Sorte nossa não ter sido um monstro de verdade!

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

O medo às tempestades: o preço do ouro e da aventura

O mar, nos dias de sol, tinha tons de um azul intenso que não existe perto da costa. Quando o tempo virava, o que, aliás, podia acontecer subitamente, o mundo à nossa volta tornava-se cinzento. Tínhamos pavor das tempestades. Assim, qualquer nuvem no horizonte já nos deixava apreensivos. Esse temor tinha, entretanto, razão de ser. Afinal, nossa caravela viajava sozinha. Em caso de naufrágio, morrer no mar era quase uma certeza, pois não haveria outros navios que recolhessem os sobreviventes agarrados a um mastro ou a bordo de um bote. Parte dos homens, aliás, não sabia nadar. Em suma, se alguém caísse na água arrastado por uma onda, não teria chance de salvação.
Quando a tempestade piorava, alguns ajoelhavam e rezavam, clamando por Jesus e por Nossa Senhora. Eu escutava a mesma ladainha: Não nos deixai morrer! Era horrível. O que pensa um homem que acredita que vai morrer? Muitos navios afundavam ao atravessar o oceano. Um velho marinheiro afirmava que uma em cada dez embarcações ia para o fundo do mar.
Não sabíamos, entretanto, se era verdade ou exagero. Apenas rezávamos para que nossoo galeão não fosse uma deles.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Felicidade: avistar terras firme

Em certos dias o mar ficava simplesmente encapelado. Muitos de nós enjoávamos com mais facilidade com o balanço da nau, que subia e descia. Nesse aspecto era pior do que durante as tempestades, quando o pavor impedia a náusea. Em outras palavras, a verdadeira felicidade era avistar terra. Em suma, um lugar onde poderíamos nos reabastecer, beber água fresca e comer frutas. Não havia, porém, muita terra entre a Europa e as colônias. Assim, os períodos em alto mar pareciam intermináveis. Em geral os barcos partiam de Sevilha e seguiam para as Canárias, onde a tripulação descansava durante alguns dias. Depois seguíamos viagem. O próximo porto seria somente em Hispaniola (Nota do Autor: Ilha de São Domingos, no Caribe, hoje ocupada pela República Dominicana e pelo Haiti.), já no distante Caribe.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano II
Galeão espanhol

Piratas do Caribe

Os piratas eram uma praga, sobretudo no Caribe, por onde passavam, rumo a Espanha, os navios carregados de metais preciosos que voltavam do México. Roubavam, portanto, as mercadorias e até a própria nau, se fosse de boa qualidade. Nossa caravela, porém, possuía canhões para defesa e, como éramos muitos soldados a bordo, estaríamos, portanto a salvo. E, aliás, as naves chegando da Espanha, porôes vazios, não despertavam interesse.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Porém, os navios mercantes, carregados de ouro, só tinham relativa segurança quando a travessia era acompanhada por uma esquadra armada. Embarcações solitárias eram, às vezes, atacadas; sua carga, roubada; e os homens, assassinados. Se houvesse mulheres a bordo, seu destino era sabido. Maltratadas e, ainda mais, contaminadas por sífilis e outras doenças do sexo, muitas acabavam morrendo.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

O que pensavam os ladrões do mar

Por uns poucos piratas e corsários capturados pelos espanhóis, sabíamos o que os ladrões do mar pensavam. Aliás, um frade dominicano que estava a bordo nos contou a história de um pirata arrogante, que fora enforcado. O malfeitor dizia que o ouro obtido pelos espanhóis no México também era roubado. Vocês roubam dos índios, nós roubamos de vocês. Ou seja, o miserável não via diferença entre nós e eles. Não queria reconhecer que a conquista das terras que nós e os portugueses estávamos descobrindo fora autorizada pelo Papa. Tínhamos o direito de desfrutar suas riquezas. Assim também, levávamos a palavra de Deus a pagãos.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Nombre de Dios: ouro e aventura II

Um dia, enfim, avistamos terra e, dias mais tarde, a vila de Nombre de Dios ao longe. A primeira visa, apenas um povoado. Chegáramos, afinal! Como Pablo e eu, muitos pulavam de alegria e se abraçavam. Aquela travessia fora a etapa inicial de nossa aventura. Estávamos chegando a outro mundo, diverso daquele que conhecíamos, e não sabíamos, portanto, o que nos aguardava.
À medida que nos aproximávamos da costa, as águas tornavam-se esverdeadas, de um tom esmeralda, enfim, cores que nunca víramos antes.

Anno de 1527 – 001x: “O Ouro Maldito dos Incas” – A travessia do Mar Oceano

Nos deparávamos Iigualmente com a luxuriante vegetação dos climas quentes e úmidos, tão diferente de nossa seca Andaluzia.
O povoado de Nombre de Dios era composto principalmente por cabanas cobertas de palha. Quando atracamos no pequeno porto vimos que boa parte do povo era constituída por índios descalços seminus e por escravos negros, mais comuns do que na Espanha. Daquele lado do oceano, inclusive os espanhóis vestiam-se com maior simplicidade. Alguns, aliás, pouco à vontade, transpiravam em suas roupas visivelmente impróprias para o clima.

Nunca tínhamos visto um Índio

Nós nunca tínhamos visto um índio. Na aldeia havia muitos. Ou seja, quase todos tinham capturados e escravizados pelos espanhóis. Sua pele era mais escura do que a nossa, mas esses nativos não eram como os africanos. Os traços marcantes eram os olhos amendoados e os cabelos pretos, lisos e compridos.
Exceto por uma ou outra, suas mulheres não eram, entretanto, bonitas. Algumas, na verdade eram graciosas mas de uma beleza mais rústica do que as europeias e a pele mais morena.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Prefiro as espanholas – disse Pablo.
Eu também. Mas por aqui não tem. Enfim, que eu saiba não tem.
Acha que esses índios são gente igual a nós? Será que eles igualmente têm alma?
Como nós, não… Mas são gente, também.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Indios e negros tem alma?

Índios também tem alma com nós? perguntou-me Pablo.
Mais ou menos como os negros. Por isso acho que podem ter alma. Talvez, porém, uma alma diferente da que nós temos.
Não gosto muito dos negros – disse Pablo. – São escuros demais.
Dei uma boa risada:
Ora, ora… Claro que sim. Se são negros!

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

As tentações do porto

Escravos índios e africanos enviados por seus senhores ficavam à espreita dos que desembarcavam das naus. Ou seja, mal demos os primeiros passos pelo cais e nos deparamos com eles oferecendo frutas desconhecidas, galinha, mandioca assada e outras iguarias. O odor, aliás, era irresistível!
Seus senhores eram espertos: sabiam das privações que passamos a bordo e da ânsia por comida fresca. Os recém-chegados se amontoavam, portanto, em torno dessas banquinhas, sem se preocuparem, aliás, em saber se estariam pagando muito caro por frutas, abundantes no país, ou por uma simples coxa de frango.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

O recrutador

Comíamos frutas em um canto do molhe, junto a barris de vinho que acabavam de ser desembarcados, quando fomos abordados por um careca barrigudo que tinha uma cicatriz vermelha na face. Examinou-nos como se estudasse nossas aptidões. Depois disse que estava engajando homens para uma expedição pelo Mar do Sul. O indivíduo, de pele gordurosa, era um recrutador que ficava no porto esperando navios que chegavam da Espanha.
Há muito ouro esperando por homens corajosos – disse.
Voltei-me para meu primo:
Você é corajoso, Pablo?
– Certamente que sou – disse ele, batendo no próprio peito.
O rosto do careca se iluminou:
– É de gente assim que precisamos. Sabem montar a cavalo?
Claro que sabemos, garantiu Pablo.
Enfim, não éramos exímios cavaleiros, mas, enfim, sabíamos andar a cavalo.

Anno de 1527 – 001x: “O Ouro Maldito dos Incas” – Ouro e aventura II – O que os cavalos comem?

Ouro e aventrura: de um oceano para outro

Passamos um tempo em Nombre de Dios, andando perto do mar ou bebendo numa bodega sem ter muito o que fazer. Assim, foi até que vieram nos convocar.Tivemos, portanto, para chegar ao Mar do Sul, que atravessar as doze léguas do istmo do Panamá, que separa os dois oceanos. A viagem levou apenas três dias, porém, foi penosa por causa do caminho barrento. Assim, carroças e carros de boi atolavam todo o tempo. Enfim, essa trilha era mais apropriada as mulas e cavalos.

O pior, ainda mais, eram os mosquitos que não nos deixavam em paz e o intenso calor. Não existia, porém, outro modo de passar de um oceano ao outro. Aliás, tudo chegava da Europa pelo lado Atlântico. Posteriormente, porém, parte das mercadorias seguiam em lombo de burro até o Mar do Sul. Como seria bom se um rio ou canal ligasse os dois mares!

“O Ouro Maldito dos Incas” – Travessia do Mar Oceano

Siga o relato:

Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

Siga a continuação desta postagem: A chegada ao Panamá

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