Livro; O Ouro Maldito dos Incas

018 – Anno de 1532 – “O Ouro Maldito dos Incas” – San Miguel de Tangarará

Fundação de San Miguel de Tangarará

Pizarro desejava inciar a colonização do novo território e, assim, fundou San Miguel de Tangarará. Ou seja, a primeira aldeia espanhola na região. Para isso escolheu uma pequena colina em um lugar chamado Tangarará, junto ao rio Chirá. Em uma manhã de julho, reuniu toda a tropa, os curas, os negros, os índios carregadores, as índias que serviam aos soldados. Assim, solenemente, após a missa, deu por fundada a cidade de San Miguel de Tangarará.
Utilizamos como mão de obra índios capturados e também escravos africanos para levantar uma igreja de adobe, um cabildo e casas cobertas de palha. Tomou igualmente outra providência, para o caso de um ataque, foi erguer um fortim na parte mais alta da cidade. Em suma, um lugar seguro onde seriam estocados alimentos e armas de reserva. Estávamos de fato muito inseguros. Ou seja, não sabíamos como as coisas se passariam. Esse receio, aliás. fez com que pelo menos uma dezena de soldados procurasse assim se fingir de doente, para não seguir rumo às terras onde Atahualpa e seus milhares de guerreiros nos esperavam.

San Miguel deTangarará, o começo da colonização

Descontentamente entre os espanhois em San Miguel de Tangarará

Um dia, o descontentamento, motivado pelo medo, revelouse de modo anônimo, na forma de um papel pregado na porta da igreja, no qual Pizarro era chamado de “açougueiro”. Ora, a caligrafia, segundo o Gobernador averiguou, era muito parecida com a de Juan de la Torre, um dos Treze da Fama. Tive dificuldade em acreditar que ele fosse o culpado – um homem que eu sabia ser corajoso. Submetido a tortura por Hernando, confessou. Foi condenado à forca, mas, quando a sentença ia ser executada, Pizarro comutou sua pena. Juan teve as pontas dos dedos da mão direita decepados e foi enviado de volta para o Panamá. Mais tarde descobriu-se que era inocente. Por que, então, confessara?
– Claro que confessou – resmungou Ortiz, revoltado porque tinha amizade com Juan.
– Ele disse que não aguentou a tortura. Ou seja, mesmo que fosse analfabeto, confessaria que a letra era dele!

San Miguel deTangarará, a insatisfação entre os soldados

Boatos perturbadores chegam a Sam Miguel de Tangarará

Em San Miguel, do Tangarará os boatos trazidos pelos índios continuavam, porém, a chegar até nós. Assustados, eles falavam assim da crueldade de Atahualpa e dos movimentos de suas tropas. Agora nos avisavam que o Inca chegara a um lugar chamado Cajamarca, a poucos dias de viagem de onde estávamos. O medo, que contaminava as tribos, acabou sendo transmitido igualmente aos soldados, apavorados com a possibilidade de serem aprisionados e esfolados vivos.
– Será que Atahualpa é tão poderoso assim? Não quero morrer desse jeito – comentou Pablo com voz de medo.
– Morrer nas mãos de Hernando deve ser ainda pior. Os cães têm despedaçado muitos índios.
– Esses cachorros não mordem cristãos…

Dei-lhe um tapa nos ombros:
Cães não têm religião, homem.

Sob a bandeira de Cristo

Era um final de tarde chuvoso. Francisco Pizarro reuniu seus capitães e os veteranos na igrejinha de adobe que acabara de ser erguida em San Miguel de Tangarará. Disse-nos que a única maneira de acabar com os boatos era capturar Atahualpa. Percebi, porém que não passava pela cabeça do Gobernador derrotar em combate frontal as tropas do rei de Quito. Eram milhares; seria portanto impossível. Em suma, o que ele tramava era uma ação que lhe permitisse colocar as mãos no Inca. Como isso seria feito? Acho que Pizarro não tinha ainda um plano preciso. Logo, tudo iria depender de como os índios agiriam. Era um jogo de vida e morte, de astúcia e de coragem: o mais esperto venceria. Frei Vicente Valverde, que também falou aos soldados depois de Pizarro, disse:
Sob a bandeira de Cristo vencemos os mouros, muito mais fortes do que os índios. Por que ela não nos ajudará contra esses pagãos? Soldados, vocês são cruzados de Deus e do rei da Espanha. Cristo não abandona os seus. Nunca nos abandona! – disse, dedo em riste.
Cristo não nos abandona! – repetiram os soldados.
Na saída, Ortiz comentou baixinho:
Tomara que seja verdade.
Olhei-o com o rabo dos olhos:
Não brinque, homem!

San Miguel deTangarará, sob a bandeira de Cristo

Hernando de Soto: a execução cruel de índios

Saímos da igreja reconfortados. O ânimo da tropa melhorou. Dessa forma, em 24 de setembro, deixamos San Miguel rumo a Cajamarca. No povoado recém-fundado, ficaram os doentes, e também a maior parte das mulheres. Pizarro prefiriu igualmente deixar em Tangarará os covardes como nosso tesoureiro Riquelme e alguns espanhóis menos preparados para a guerra.
Apesar de Hernando de Soto ser indisciplinado e cruel, era porém corajoso. Ou seja, Pizarro precisava de um homem como ele para comandar as tropas a cavalo. Belalcázar, por sua vez, foi enviado à frente com meia dúzia de cavaleiros, para reconhecer o terreno e também punir um índio que matou um espanhol. O Gobernador determinara que todo cristão assassinado por nativos seria vingado. O selvagem em questão foi achado. Com pés e mãos amarrados, foi entregue aos cães na frente de outros de sua tribo que, horrorizados, assistiram à execução. Os animais, incitados por Hernando estraçalham o homem Toledo, meu primo, Ortiz e eu, presentes, permanecemos porém mudos e desviamos o olhar. Mas o madrilenho, mais sensível, afastou-se porém para vomitar num canto, longe da fogueira.
Hernando podia simplesmente ter executado o índio – disse Ortiz, de cara fechada. – É isso ser cristão?

San Miguel deTangarará, os cães assasinos de Hernando

Rumo ao sul

Depois disso, não tivemos mais problemas com os índios. A dificuldade, portanto, foi apenas atravessar o rio Chirá, em plena cheia, provocada por chuvas em suas cabeceiras. Vimo-nos, mais uma vez, obrigados a construir balsas. já que vários soldados e carregadores índios não sabiam nadar. Como o truque dera certo anteriormente, uma égua no cio foi assim trazida para atrair os cavalos.
Caminhamos muitas léguas rumo ao sul pela mesma trilha. No dia seguinte encontramos Belalcázar, que, com seus homens, ocupava um fortim abandonado. À noite, à beira do fogo, ele descreveu aos soldados como o assassino fora punido.– Nunca vi alguém gritar tanto!
Hernando deu risada e cuspiu no chão:
– Não temos carne de lhama suficiente para alimentar a matilha. É bom, portanto, que comam um índio de vez em quando.
Éramos ao todo cento e vinte soldados e tínhamos oitenta cavalos, além de escravos negros e índios.

Partida de San Miguel deTangarará

As estradas incas

Após cavalgarmos uma dezena de léguas pelo caminho poeirento, deparamos depois com uma das estradas incas mencionadas por José. Ficamos estupefatos com a qualidade da obra, muito superior, aliás, a qualquer uma que víramos na Espanha. Os homens que tinham lutado no exército espanhol no sul da Itália acharam os caminhos incas, no mínimo, tão bons, aliás, quanto aqueles construídos pelos romanos, até hoje utilizados em quase toda parte na Europa.
A intervalos regulares, havia hospedarias, chamadas tambos, que podiam alojar muitos homens. Nelas havia cobertores de lã para os hóspedes, e também alimentos, como milho, frutas e batatas. Quase todo tambo possuía um pequeno rebanho de lhamas nos fundos para o fornecimento de carne. Em diversos pontos da estrada, bicas de água corrente saciavam o viajante sedento. Por esses detalhes, logo nos convencíamos de que estávamos entrando em um poderoso reino, muito bem organizado. Era bom ter água fresca e uma estrada por onde avançar, mas ao mesmo tempo tudo isso nos deixava porém com medo.Em suma, não era qualquer povo que construía vias como aquelas, nem tampouco que erguia aquedutos tão bem feitos.

As estradas incas

As aldeias arrazadas por Atahualpa

Acompanhamos o rio Piúra até chegar a Pabur, uma aldeia um pouco maior também incendidaq por Atahualpa. Seu empobrecido curaca nos recebeu como pôde, nos ofertando duas lhamas, frutas e milho. A verdade, aliás é que nenhuma comida parecia suficiente para um bando numeroso e sempre faminto como o nosso. Pizarro, depois de ter reunido na aldeia os curacas que acreditava serem leais, deuassim a entender que estava ao lado deles contra novas violências de parte de Atahualpa.

Cajas

A jornada foi cansativa, após deixar San Miguel de Tangarará, pois fomos obrigados a atravessar extensos desertos, com dunas em alguns trechos.
Cajas não era um povoado, mas uma pequena cidade, infelizmente destruída pelos soldados de Atahualpa porque seu curaca tinha tomado o partido de Huáscar. No caminho, pouco antes de entrarmos na cidade, deparamos igualmente com uma grande quantidade de cadáveres de índios tallans. Eram corpos despedaçados, cujos rostos exibiam horríveis retratos da morte, os olhos arregalados com expressões de pavor. Outros ainda mais, tiveram seus olhos arrancados. Alguns deles, em pé e amarrados em grossas estacas cravadas na terra, tinham um aspecto ainda mais assustador. Com a pele arrancada e recheados de palha, tornaram-se assim como bonecos vermelho escuro de sangue pisado.

A tática do terror

Por que Atahualpa fazia aquilo? Para nos aterrorizar. Creio, aliás, que conseguiu, porque muitos de nós se perguntavam se teriam um fim semelhante. José, um tallan, estava chocado. Meu primo e também o galego foram acometidos de forte ânsia de vômito. O cheiro era horrível. Afinal muitos dos cadáveres tinham o ventre aberto, com as tripas à mostra. Como se cheira mal quando se morre!

Uma guerra de extermíno!

Atravessando aquele circo macabro a cavalo, éramos obrigados a desviar os animais para que não tropeçassem nos corpos. Houve um momento em que Toledo desabafou:
Não aguento mais ver isso… Não tinha pensado que a guerra poderia ser assim.
Eu também imaginava a guerra como uma luta entre soldados – concordou Ortiz –, mas não é. É medo, tortura, fome, é matar uns pobres diabos… Em suma, uma guerra de extermíno!
Medi-o um instante.
Por que um homem como você se engajou nessa aventura?
Ortiz fez uma careta:
Sou fidalgo… Não posso ter um ofício menos nobre. Seria mal visto. A carreira militar é nossa principal opção. E minha família precisa de ouro porque se encontra empobrecida.

Siga o relato:

Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

Siga a continuação desta postagem: As Virgens dol Sol e o orejón

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