Livro; O Ouro Maldito dos Incas

029 – Anno de 1533 – “O Ouro Maldito dos Incas” – Cajamarca, traições e ardis

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é CAPA-MONTAGEM-PIZARRO-OK.jpg
“O Ouro Maldito dos Incas – “Cajamarca, traições e ardis

Jogo de ardis e traições

Ao chegar a Cajamarca o clima era de traições e ardis. Mas, fiquei sabendo que Pizarro continuava a convidar Atahualpa para jantar. Em resumo, comiam juntos quase todas as noites. Em suma, os dois conversavam durante horas seguidas. Vendo-os, diríamos que ficaram amigos, embora cada um fizesse seu jogo. Atahualpa, inteligente, já aprendera muitas palavras de espanhol. Um dia disse que gostaria de trazer seu irmão de Cusco para apresentá-lo a Pizarro.

Cajamarca, traições e ardis

Este, porém, desconfiou: Atahualpa talvez pretendesse mandar assassinar Huáscar no meio do caminho. Pizarro, porém, o advertiu: se o fizesse, pagaria caro. Atahualpa protestou, dizendo que gostava muito do irmão. Em suma, que nunca lhe faria uma crueldade. Se quisesse, aliás, já poderia tê-lo matado. Pizarro, porém, continuou desconfiado. Ou seja, sabia muito bem que os dois irmão se odiavam.

Cajamarca, traições e ardis

Huáscar

Detalhes de todo esse jogo só foram conhecidos posteriormente. Huáscar, por exemplo, fora informado por seus espiões de que o tesouro dos templos de Cusco tinha sido entregue aos espanhóis. Virara, portanto, uma fera. É meu esse ouro! Posso reunir tudo e entregá-lo aos viracochas para que matem Atahualpa, teria dito, segundo nos contaram posteriormete seus guardas, interrogados por nós. Ou seja, vivíamos de surpresa em surpresa. Assim, certa manhã, quando eu e uma meia dúzia de cavaleiros escutávamos as ordens de Pizarro, Atahualpa chegou de cabeça baixa. O Gobernador franziu a testa:
Que pasa, hombre? – perguntou-lhe em castelhano, língua com a qual o Inca já começava a se familiarizar e a entender. Tinha ainda forte sotaque, mas fazia-se compreender.
Não posso falar… Você vai me matar.

Cajamarca, traições e ardis

Fale, em nome de Deus!

Pizarro insistiu. Prometeu também que não o faria.
Fale, em nome de Deus!
Você disse que eu pagaria com a minha vida se meu irmão fosse assassinado… Meus capitães, porém, o mataram sem eu saber, disse Atahualpa em tom compungido. Pizarro abriu a boca:
Meu Deus! – Suspirou fundo. Era uma pena. Mas, seria inútil executar Atahualpa. Curacas leais a ele estavam acampados a poucas léguas de Cajamarca. Ou seja, se o enforcasse, provocaria assim a fúria dos quitenhos.
Está bem – disse irritado. – Já que seus capitães não sabiam.
Vou puni-los – declarou Atahualpa.
Pizarro controlou-se.
Agora é tarde! Ou seja, não faça nada.

Cajamarca, traições e ardis

O blefe que deu certo

O blefe, portanto, dera certo. O que posteriormente ficaríamos sabendo é que Atahualpa enviou uma ordem aos curacas encarregados de conduzir Huáscar a Cajamarca. Ou seja, mandou afogá-lo. Em outras palavras, para eles, uma forma indigna de se morrer. (Nota do autor. crença índia; afogados e queimados perdiam suas almas). Esses fatos, como eu disse, só ficamos sabendo quando o índio foi julgado. Huáscar, amarrado, foi atirado pelos capitães de seu irmão nas águas turbulentas do rio Andamarca. Depois retiraram seu corpo, o amarraram numa pedra e, assim jogaram-no de novo no rio.

Hernando saqueia o templo de Pachacámac

Numa tarde chuvosa Hernando Pizarro chegou a Cajamarca. Trazia consigo com uma grande quantidade de ouro saqueado do templo de Pachacámac, perto do litoral. Trouxe também consigo, prisioneiro, um dos principais comandantes de Atahualpa, Calcuchímac, alegando que o soberano queria vê-lo. O objetivo era, porém, era ter sob controle o perigoso general e, igualmente, obrigá-lo a confessar onde estaria o tesouro de Huáscar.

Cajamarca, traições e ardis

Calcuchímac

Conduzido à frente do monarca, Calcuchímac colocou um peso sobre seus ombros em sinal de submissão e beijou seus pés e mãos. Ainda mais, agradeceu aos céus por poder estar na presença de seu senhor, até que Atahualpa se dignou, finalmente, a olhá-lo:
Seja bem-vindo.
Mal Calcuchímac saiu do salão, Hernando Pizarro o prendeu. Queria, em suma, saber onde estava o resto do tesouro inca. O guerreiro quitenho, porém, disse não saber. O irmão de Pizarro o olhou de alto a baixo.
Você vai nos contar, por bem ou por mal.

Cajamarca, traições e ardis

Seção de tortura

Daquela vez Hernando Pizarro, entretanto, não utilizou seus cães. Ou seja, torturou o índio com fogo lento. Queimou, assim, suas pernas. Não conseguiu, entretanto, arrancar nenhuma informação. Do lado de fora da cabana em que estavam, escutávamos, portanto, sendo supliciado por nada. Logo, um dos dominicanos parou a meu lado. Benzeu-se.
É uma pena termos que fazer isso. Mas, essas riquezas nos ajudariam a construir igrejas e a manter religiosos para catequizar esses selvagens. É mais importante salvar suas almas do que suas vidas. Ou seja, muitas vezes é doloroso fazer a vontade do Senhor.

Cajamarca, traições e ardis

Em maio, quando mais navios espanhóis chegaram às costas do Mar do Sul, Pizarro mandou derreter os objetos de ouro e transformá-los em lingotes, mais fáceis, aliás, de serem transportados e manuseados. Carlos V, envolvido em guerras na Europa e na costa africana, precisava de ouro para custear suas campanhas e exigia, assim, a entrega da parte que cabia à Coroa.

Cajamarca, traições e ardis

Com nossas índias, à espera de mais ouro

Continuávamos, portanto, em Cajamarca, à espera de mais ouro e da chegada de reforços. Eu me dava bem com Ortiz e com nossas índias que, mal acordávamos, nos preparavam algo para comer. Ainda deitado eu sentia o cheiro inconfundível das espigas assando sobre o braseiro. Elas também cuidavam de manter o fogo aceso, sobretudo nos dias chuvosos, quando a temperatura caía. Ou seja, não importa o frio que fizesse lá fora. Dentro da cabana, porém, era sempre agradável. As duas, ainda mais, nos surpreendiam com pratos diferentes, como porquinho-da-India, que comíamos com farinha de milho O bicho tinha mais pele e ossos do que carne, mas era bom variar nosso restrito cardápio.

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é cUY-66.jpg
Cajamarca, traições e ardis

Nitaya e Ñusta, felizes de serem bem tratadas

Nitaya e Ñusta também aproveitavam o tempo tecendo e fiando. Assim, nos fizeram boas camisas de algodão parecidas com as que Atahualpa usava, além de ponchos de lã. Eram bonitas e chamavam, portanto, a atenção dos companheiros, que nos olhavam com certa inveja. Outros, entretanto, despeitados, ironizavam:
Vejam como são elegantes os soldados de Carlos V!
Ortiz e eu não ligávamos. Ríamos. Conversando entre nós, tentávamos entender por que éramos tão bem tratados pelas duas. Meu amigo tinha, aliás, uma teoria:
Talvez porque gostem de nós. Nós nunca as maltratamos, como fazem certos soldados com suas companheiras. São meninas que nada sabem da vida, moças simples, que estão satisfeitas tão somente por serem bem tratadas. Afinal, a maioira dos soldados se comportava de forma estúpida com elas.

Cajamarca, traições e ardis

Ortiz era um homem interessante. Acompanhara seu pai, um militar, quando ele integrara as comitivas de Carlos V. Vaijara, poranto em países como Itália, Portugal e Inglaterra, e me contava, assim, suas experiências. Eu me divertia com suas histórias. Três anos mais velho do que eu, era diferente dos demais soldados. A maioria conhecia apenas a cidadezinha onde nascera. Ele, porém, viajara, era um homem experiente.

Ortiz

Viajar – disse-me uma vez – ensina a comparar. Acho que entendo melhor nosso povo porque pude conhecer outros países. Consigo, aliás, ver os espanhóis como os estrangeiros os vêem.
Somos melhores ou piores? – Nem uma coisa nem outra. Temos qualidades e defeitos. Somos um grande povo, mas talvez ambiciosos em demasia.

Cajamarca, traições e ardis

Corria a mão pela barba, pensativo:
– Você acha a ambição um defeito?
Ele esfregou os olhos, sonolento:
– Em excesso, talvez.
Ortiz mostrou-se curioso sobre minha visita a Cusco. Assim ouviu com atenção as descrições sobre a cidade. Pediu-me para falar das paisagens que eu vira e dos caminhos que percorrera através de vales e montanhas.

Cajamarca, traições e ardis

Quando me calei, cruzou as pernas magras e longas:
Quisera ter ido com você.
Podia ter se apresentado também como voluntário.
Suspirou:
Pois é, lamento ter perdido essa oportunidade.
– Apoiou a mão em meu ombro. – Vou ser honesto: tive medo, como todo mundo. Ou seja, achei você um louco…

Siga o relato:

Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

Siga a continuação desta postagem: O reencontro de Almagro e Pizarro

*****

Você gosta de viajar? Então veja dicas preciosas e fotos dos principais destinos turísticos do mundo:

youtube.com/c/SonhosdeViagemBrasil
 instagram.com/sonhosdeviagembrasil 
facebook.com/sonhosdeviagembrasil

Temos, igualmente, neste blog o livro  A vaca na estrada, fartamente ilustrado. É o relato de uma viagem sabática, de carro de “Paris a Katmandu” com um amigo francês. Uma longa aventura por desertos e montanhas na Turquia, Irã, Afeganistão (antes do Talibã), Paquistão, Índia e Nepal.

Leia também neste blog o livro “A Vaca na Estrada“, uma viagem de Paris a Katmandu, no Nepal, de carro. Mais um livro, como este, totalmente ilustrado por imagens que acompanham o texto.

0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x