Livro; O Ouro Maldito dos Incas

048 – Anno de 1541 – “O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Ñusta

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“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

Uma pequena família

Voltando a Lima pude finalmente ficar com Nitaya e Ñusta. E também dar atenção as crianças. Pedrito, era alto para sua idade. Ou seja, deve ter puxado a mim. Era um pequeno mestiço, muito curioso, de olhos negros e profundos. Isabel, a filha de Ortiz, era uma menina bonita, com uma vasta cabeleira escura que chegava até os ombros. Educados principalmente pelas mães, começavam a falar quéchua com Nitaya e Ñusta. Eu sentia, porém, que, quando viajava a serviço de Pizarro, ao voltar para casa os pequenos me estranhavam.
Minha intenção era ensiná-los a ler e a escrever quando pudesse estar mais tempo perto deles. Ñusta achava que a menina não precisava disso: bastava aprender a cozinhar, a tecer… O que ela mesma fazia. Todos juntos, éramos uma família.

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O problema das encomiendas

Fixado em Lima, o Gobernador ocupou-se, por meses a fio, do problema das encomiendas. Em suma: a distribuição de índios para trabalhar nas propriedades daqueles que mais colaboraram com a conquista. Os almagristas e os “do Chile” foram novamente deixados de fora. Essa atitude acentuou o rancor que guardavam de Pizarro. Eu, porém não estava interessado nas encomiendas. Afinal, o que queria era voltar para a Espanha. Assim, fui recompensado com uma soma em ouro.

“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

Almagristas também querem terras e escravos

Pizarro fora avisado mais de uma vez que os “do Chile” poderiam querer matá-lo. Nunca, porém, dera muita atenção ao assunto. Ignorava, portanto, a pobreza na qual se encontravam. O Gobernador, ainda mais, os deixava sempre longe de qualquer vantagem obtida na conquista. Ou seja, Pizarro os desprezava a ponto de achá-los inofensivos, deixando, assim, que conspirassem. Chegou, aliás, a entregar aos seus uma herança que, por direito, caberia a Almagro, o Moço. Atos como esse insuflaram, portanto, o ódio dos almagristas. Muitos deles, aliás, eram amparados apenas por Diego Almagro Filho, que conservara algumas posses. Pizarro acreditava que, limitando a fortuna do filho de seu antigo sócio, reduziria, dessa forma, seus apoiadores, enfraquecendo-o entre seus seguidores. Foi um erro, pois mais almagristas deixaram Cusco e chegaram a Lima, indignados e sedentos de vingança. Todos queriam também suas encomiendas, ou seja terras e índios para escravisar. Como tinham os pizarristas.

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Diego de Almagro, o novo

O jovem era diferente de seu pai em muitos aspectos. Tinha caráter franco, rosto simpático e boas maneiras. Seu pai fizera questão de lhe proporcionar algo que ele não pudera ter. Ou seja, uma educação esmerada, o que era raro na colônia. Diego não apenas sabia ler e tinha conhecimentos, mas montava bem a cavalo e fora igualmente preparado para a carreira militar. Assim, era querido e respeitado pelos companheiros do velho Almagro. Estes, portanto, não tardaram a se concentrar em Lima, onde tramavam a morte do marquês. Na realidade, queriam acabar com todos os Pizarro. Gonzalo, porém, encontrava-se em Quito, onde seu irmão o nomeara governador Hernando, por sua vez, estava na Espanha.

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Querem me matar?

Foi somente quando os alertas sobre atentados contra sua vida se fizeram mais insistentes que o Gobernador finalmente mandou chamar Juan de Herrada, tutor de Diego. Herrada encontrou Pizarro no jardim de sua casa junto a um pé de laranja, uma muda trazida da Espanha, que pela primeira vez dava frutos.
Ouvi dizer que os almagristas estão comprando armas para me assassinar.
Herrada negou. Compraram armas para se defender, porque, por sua vez, corriam rumores de que os homens de Pizarro queriam matá-los. O Gobernador riu e disse que ficasse tranquilo. Afinal, por que iríamos matá-los? Vocês não nos incomodam em nada, teria dito com uma ponta de ironia.
Por fim, pediu a um auxiliar que lhe trouxesse uma banqueta, na qual subiu. Apanhou umas laranjas, que entregou a Herrada. Aquele gesto cordial, porém, não atenuou em nada o rancor que o almagrista tinha do Velho.

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Os planos dos almagristas

O plano, portanto, era emboscar Pizarro no domingo, dia 26 de junho, durante a missa. Um dos conspiradores chegou, entretanto, a se confessar, dizendo que tinha intenção de eliminar Pizarro. O religioso, porém, quebrou o segredo do confessionário e correu para alertar o Gobernador. Encontrou-o conversando com Martin, seu irmão por parte de mãe. Este logo o aconselhou a não aparecer na missa. Também ficou decidido que, por via das dúvidas, na tarde daquele domingo, seriam igualmente presos os principais almagristas.

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Pizarro, o mesmo homem cuidadoso?

A ausência à missa surpreendeu todos. Afinal, o marquês nunca deixava de comparecer aos santos ofícios. Assim, por segurança, alegando estar acamado, Pizarro chamou um padre para rezar uma missa particular em sua residência, à qual assistiria junto com amigos. Para mim, era quase inacreditável que as coisas tivessem chegado a esse ponto. Em suma Pizarro não parecia o mesmo homem que, diante da remota possibilidade de um ataque índio, mantinha os cavalos encilhados e mandava seus homens terem suas armas prontas. Ou seja, não aprendera com Atahualpa que o excesso de confiança pode levar à ruína. Pizarro, aliás, não andava sequer de armas à mão nem escolhera soldados para escoltá-lo.

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Jantar interrompido

Pizarro, mesmo avisado, não tomou, portanto, nenhuma medida imediata para se proteger. Assim, estavam no meio da refeição com o irmãos e vários comensais, quando um pajem entrou no salão. Assustado, o jovem índio avisou que uma vintena de almagristas chegara ao solar com a intenção de assassiná-lo. No lugar de se prontificarem a defender o anfitrião, os comensais, porém, trataram de fugir. Ou seja, amedrontados, escaparam pelas janelas. Francisco e Martín se levantavam para ver o que se passava quando ouviram gritos de “Morra o tirano, viva o rei!” vindos do pátio.

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Tragam minhas armas!

Imediatamente, Pizarro pediu a seus serviçais que fossem buscar suas armas e as de seu irmão, e disse a Francisco de Chaves, um dos poucos, aliás, que não fugiram, que trancasse a porta.
Mas Chaves, bem relacionado com os almagristas, achou que poderia detê-los, chamando-os à ordem. Foi, porém, um erro ter aberto a porta. Os conjurados não quiseram escutar. Ainda mais, o feriram com um golpe de espada na cabeça, empurrando-o escadaria abaixo, enquanto aproveitavam para invadir o salão.

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O assassinato de Pizarro

Dessa forma, Francisco Pizarro entrou em seus aposentos, seguido por Martín, e tentou impedi-los de invadir o quarto. Conseguiu fazê-lo durante algum tempo, até que Martín tombou mortalmente ferido. Assim o grupo ingressou no dormitório do Gobernador. Atingido por vários golpes, Pizarro defendeu-se como pôde, até que, ao perder o equilíbrio, caiu. Foi quando recebeu um golpe de espada que lhe perfurou a garganta. Assim, o velho leão, moribundo, teve apenas tempo de fazer o sinal da cruz antes de morrer.

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Morte de Pizarro

Morreu o tirano

Uma hora mais tarde, a notícia da morte de Pizarro se espalhou pela cidade. Lima foi, dessa forma, tomada pelos almagristas, que, saídos do nada, percorriam as ruas aos gritos de Morreu o tirano!
Logo casas de pizarristas notórios foram saqueadas. Uma multidão pretendeu também pendurar o corpo de Pizarro no meio da praça. Só não o fez por intervenção de religiosos e da cunhada de Pizarro, que os chamou de covardes. Houve igualmente quem quisesse degolar o cadáver, o que por pouco não aconteceu.
Não houve, portanto, resistência. Ou seja, nenhum oficial de Pizarro tentou mobilizar tropas para reagir. Nada se passou. Assim, de repente, Lima estava nas mãos dos “do Chile”.

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Situação delicada

Os acontecimentos me colocaram numa posição inusitada.
Depois do almoço com Nitaya e Ñusta, fiquei pensando nos rumos que tomaria a colônia. A figura de Francisco Pizarro não saía de minha cabeça. Quando Juan, seu irmão, morreu, cheguei a dar graças a Deus pela Providência Divina ter nos livrado daquele encrenqueiro. Também estava contente por saber que Gonzalo estava bem longe dali, – sendo devorado por mosquitos – em busca de El Dorado. Ou seja, uma cidade toda de ouro que diziam existir no meio da selva. Mas e agora, com o Gobernador morto e o poder nas mãos dos almagristas rancorosos e sedentos de vingança? Contratado por Pizarro, eu, aliás, não tinha mais direito sequer às minhas moedinhas de ouro…

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Um país fora conquistado.

Milhões de índios morreram, direta e indiretamente, por obra dos espanhóis. Assim, o mundo daquela gente mudara. Todos deviam, portanto, trabalhar para os encomienderos, que dividiam terras e índios. Ainda mais, tinham poder de vida e morte sobre eles. Exigiam-lhes ouro e até mesmo suas mulheres e filhas. Poucos foram os nativos que se converteram ao cristianismo e, se o fizeram, foi apenas por medo. Eu sabia, aliás, que conservavam suas crenças. Acho, enfim, que entenderam os métodos dos espanhois. Sabiam, portanto, que foram propositalmente contaminados por doenças contra as quais não tinham nenhuma resistência.

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Os ressentimentos de Almagro

Muitas vezes pensei no papel desempenhado por cada um dos sócios. Ou seja, tentei entender quem eram, como pensavam. Almagro foi um homem sempre ressentido com relação a Pizarro, que obteve mais poder, glória e o posto de Gobernador de Nueva Castilla. Foi também o comandante supremo das operações. Para Almagro,
sobrou o Chile, que, acreditava-se, tinha muito ouro e cidades ricas como Cusco.

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O ouro dos mortos

Quando descobriu que sua Nueva Toledo era apenas um território inóspito, repleto de índios ferozes e sem riquezas, sentiu-se, portanto logrado.
Agora Pizarro e o caolho Almagro estavam mortos. Para eles, portanto, toda a conquista de nada valera. Em suma, não puderam, ambos em seus túmulos, usufruir a riqueza que juntaram. Em outras palavras, ouro não serve para nada quando se está morto.

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Almagro, severo; generoso quando lhe convinha

A impressão que eu tinha, conhecendo Almagro, é de que ele não se conformava com a posição secundária que lhe fora reservada. Ele não era cruel como Hernando, mas não poupava, porém, seus inimigos. Felipillo, que fora com ele para o Chile, também acabou executado. Segundo ouvi falar, Almagro, soube sua tentativa de jogar os espanhóis uns contra os outros durante o encontro com as tropas de Pedro de Alvarado em Quito. Assim, não perdou quando o índio tentou desertar. Quando lhe convinha, porém, o Adelantado era generoso e deixava que todos soubessem de seus atos magnânimos.

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Fellipilo

Pizarro, o que tinha em mente?

Pizarro era um homem reservado. Nem sempre, portanto, era possível saber o que tinha em mente. Da mesma forma que Almagro, vestia-se de modo simples. Igualmente não apreciava cerimoniais elegantes.
Podia às vezes parecer tímido, mas tinha grande segurança no que fazia. Era, assim, um valente que não hesitava em sair à frente de suas tropas contra qualquer inimigo. Homem prático, nunca agia como um fanfarrão, mas gostava de dar exemplo a todos. Não se esforçava, porém, em agradar, nem apreciava ser adulado. Quase todos na tropa tínhamos confiança nele e, igualmente, o respeitávamos. Nunca foi cruel como seus irmãos, mas teve porém, atitudes cruéis.

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Assim, mandou matar, por vingança, a esposa de Manco Yupanqui Inca, quando este assassinou seus mensageiros. Também estrangulou a princesa quéchua Arzapay, por pressão de sua companheira, uma índia enciumada. Querendo se livrar da rival, ela inventou que a jovem estava arregimentando guerreiros para atacar Lima, quando a cidade foi cercada durante a sublevação dos nativos.

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Pizarro e os incas


Com relação aos índios, nosso Gobernador teve também, atitudes no mínimo contraditórias. Exigiu, por exemplo, talvez por medo de uma insurreição, que os encomienderos de Cusco tratassem melhor os índios. Mas, permitiu o saque de ouro, pedras, roupas e objetos pessoais dos índios e o abuso de suas mulheres. Que o Pai o julgue! Eu, que o acompanhei desde os momentos difíceis que enfrentamos na ilha de Gorgona, acho que seu principal erro foi atribuir tanto poder a seus irmãos. Em suma, não os via como realmente eram. Hernando era cruel, mas foi um comandante valoroso. Gonzalo e Juan Pizarro, embora também corajosos, não passavam, porém, de ignorantes, cruéis, presunçosos, que não respeitavam ninguém. Logo, quando os vi desembarcando para juntar-se a nós tive um pressentimento. Iriam certamente prejudicar o irmão.

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O oportunismo dos reis espanhois

A morte de Pizarro parece, aliás, não ter incomodado em nada as autoridades espanholas. Seu excessivo poder era, ainda mais, visto com desagrado pelo Conselho das Índias, que almejava consolidar o poder real sobre o Peru. O que o império espanhol desejava naquele momento era ouro e paz. Na corte todos já estavam, enfim, cansados das intermináveis disputas entre os irmãos Pizarro e os seguidores de Almagro. A conquista terminara. Pizarro não era, portanto, mais necessário. Almagro também se fora. Os reis espanhois deram graças a Deus.
Almagro e Pizarro, que me engajaram em 1527, estavam mortos. A situação na colônia tornara-se cada vez mais confusa e perigosa.

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E eu, Pedro Garcia?

Eu precisava, portanto, decidir o que fazer. Tinha algum ouro, não muito. E, igualmente, uma estranha família para cuidar. Solitário, eu me punha, assim, a pensar sobre a conquista. Ou seja, a maioria dos soldados não foi feliz. Muitos morreram, outros ficaram aleijados. Alguns perderam tudo no jogo ou foram roubados pelos próprios espanhóis. Eu não tinha mais o que fazer naquele país. Era hora, portanto, de voltar para a Espanha antes que acabasse morto ou ainda perdesse o pouco que tinha.

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José

Disse a José, que trabalhara para nós durante esses anos, que ele era livre para voltar à sua aldeia para a qual nunca mais voltara. Pensei nas peças que o destino prega às pessoas. Onze anos antes, o pobre José fora fazer uma pequena viagem de jangada e cometera a imprudência de aceitar o convite de subir a bordo de nossa caravela. Depois disso, fora parar no Panamá e participara conosco da conquista. Agora, ao retornar, nem sabia se seus pais e amigos ainda estavam vivos. Nossa despedida foi melancólica. Ele ficou triste. Habituara-se comigo e eu com ele. Abraçamo-nos, ele passou a mão pela cabeça das crianças fazendo-lhes um agrado, abaixou-se, pegou seu alforje. Nele havia algumas peças de ouro que eu lhe dera. Saiu para a rua empoeirada e nunca mais o vi. José fora um amigo leal. Eu sabia que sentiria a sua falta.

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Rumo ao Panamá

Em Lima, fui em busca de um navio que partisse para o Panamá. Muita gente ligada a Pizarro, assustada, também partia. Até frei Valverde deixara Lima. Para seu azar, ao desembarcar na costa norte, perto da ilha de Puná, foi capturado e torturado por índios, que o mataram. Creio, aliás, que os ilhéus nunca se esqueceram de nossa passagem pela ilha e dos estragos que causamos. De Lima, em alguns dias alcançamos o Panamá.

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Atravessando para a costa atlântica

Depois de nos acomodarmos em uma estalagem, fui ao mercado em busca de mulas que transportassem nossa bagagem para o outro lado do istmo. Assim, reconheci o mercador com quem Pablo tivera uma discussão anos atrás. Mais velho e barrigudo, ele parecia, porém, próspero. Era visível, aliás, que tinha enriquecido, pois comandava inúmeros empregados e sua tenda era enorme. Ele, entretanto, não me reconheceu. Foi, em suma, quem nos conseguiu, para a travessia, mulas, caríssimas, aliás, para atravessarmos para Nombre de Dios. Da costa atlântica embarcaríamos para Sevilha.

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O Panamá mudara

Madre de Dios crescera muito. Ou seja, era o principal porto entre a Espanha e o Panamá. Assim, seu porto agora abrigava dezenas de navios. Era grande, aliás, a quantidade de ouro e mercadorias que circulava pelo porto para onde convergiam comerciantes e piruleros (Nota do autor: aventureiros que partiam tentar a sorte no Peru) de toda a Espanha. Assim, vinho, cavalos, porcos, armas, roupas, calçados e ferramentas seguiam para o Peru. Lá eram vendidos por até quatro vezes o preço que valiam na metrópole. Verdadeiros tesouros em joias de ouro e prata eram carregadas pelos índios para nossos galeões.

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As tavernas do cais eram ainda mais numerosas e o vaivém de marinheiros, índios, negros e mulas era grande. Existiam, aliás, até prostíbulos com mulheres brancas, que cobravam caro por seus serviços. Notei também que as espanholas tinham se tornado muito mais comuns. Antes elas eram raríssimas. Agora, entretanto, estavam em toda parte, vestidas com roupas chamativas, em contraste com as nativas seminuas.

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Afinal, a ambição de todo encomiendero ou colono bem-sucedido era casar-se com uma espanhola. Os homens que conseguiram acumular uma boa fortuna em ouro atraíam, assim, cada vez mais aventureiras. Eram espanholas que procuravam, assim, enriquecer por meio do casamento. Essa chance elas nunca teriam na Espanha, cujas cidades estavam escassas de seus homens, convertidos em piruleros.
As índias, por sua vez, outrora suas concubinas, eram delegadas à condição de serviçais. Algumas, aliás, eram tratadas praticamente de escravas.

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Rumo a Sevilha

Uma semana depois de chegarmos a Nombre de Dios, consegui lugares em um velho e mal conservado galeão que partia para Sevilha. Assim, em uma tarde ensolarada, vi, do tombadilho, Nombre de Dios ficando para trás. Dei adeus ao povoado em que eu, tantos anos antes, desembarcara, acompanhado de primo Pablo, ambos esperançosos, inexperientes, sonhadores e, igualmente, pobres. Eu, que padecera muito no Peru, tinha agora trinta e três anos. Era um homem vivido, mas cansado, precocemente envelhecido e, de certa forma, descrente da vida e dos homens. Em suma, a morte de tantos companheiros, e, em especial, a de Ortiz, somada à perda da maior parte do ouro que eu amealhara com esforço e sob tantos riscos, me abatera.

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“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

Esforçava-me , entretanto, para não me tornar um homem amargurado. Às vezes olhava as peças de ouro que sobraram. Teriam os incas amaldiçoado seu tesouro, estabelecido, dessa forma, seu preço em sangue e lágrimas?
Eu viajava agora com algum conforto, o que, mais uma vez, me custou caro. Em suma, não suportaria as condições severas que os jovens soldados e marinheiros aceitavam. Já passara, aliás, por isso. Apenas rezava para que a viagem transcorresse tranquila. A travessia do Mar do Caribe, costumeiramente assolado por furacões, me apavorava.

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O risco de cruzar com piratas

Outro medo constante, não apenas meu, mas também dos marinheiros, era a ação de piratas e bucaneiros, que infestavam aquelas águas. Ou seja, nunca sabíamos quando poderiam aparecer. Estava apreensivo por ter comigo mulheres e crianças em um navio armado com poucas bocas de fogo. Ainda mais, conduzido por um capitão quase sempre embriagado. Estávamos, assim, nos afastando das ilhas próximas a Hispaniola para alcançar o Atlântico quando um aviso do grumete na gávea alertou sobre a presença de uma nave a boroeste. O navio, ainda muito longe, vinha em nossa direção com todas as velas enfunadas. Nosso capitão observou-o, preocupado.

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Podem ser piratas.
O terror tomou conta dos passageiros. Muitos tinham ouro e mulheres, e todos sabiam o que se passaria se fôssemos abordados. Tomei uma decisão: se fôssemos cercados por piratas, mataria Nitaya e Ñusta. Teria também que matar meu próprio filho e a linda Isabelita para que não caíssem nas mãos deles e fossem feitos escravos.

Salvos pela tempestade

Como se o efeito do álcool tivesse desaparecido num piscar de olhos, o capitão deu ordem para que se aproveitasse o vento ao máximo. Ou seja, não importaria se nos desviássemos da rota. Vi pesadas nuvens se amontoando acima do navio que nos perseguia. Dessa forma, em pouco tempo, o céu ficou cor de chumbo daquele lado do horizonte.
Assim, o provável navio-pirata desapareceu na névoa, envolvido pela tempestade. Foi, portanto, a chance de mudar de direção e escapar rumo ao Atlântico. Marinheiros comentaram que haviam rezado para a Virgem e ela os atendera. Disfarcei um sorriso. Em suma, teria sido melhor se ela tivesse feito com que aqueles piratas nunca nos tivessem avistado…

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Sevilha

No restante do trajeto enfrentamos uma tempestade. Felizmente, porém, de fraca intensidade, marcada mais por olhares de preocupação trocados entre os passageiros do que por ladainhas e rezas, comuns nos momentos de real perigo. Lembro apenas que as duas índias e as crianças colaram-se a mim, assustadas, interrogando-me com seus olhos negros. No Atlântico, tivemos, portanto, sorte. O vento de popa ajudou e, assim, em quarenta e cinco dias, alcançamos o porto de Sanlúcar em Sevilha.

Em casa

Meu pai continuava a tomar conta de seu comércio de vinhos, junto com meus irmãos. Seus negócios tinham melhorado um pouco. Eles, porém, continuavam a trabalhar muito e viviam de modo simples. O que os ajudava eram as exportações para as colônias no México e Peru. Desse modo, ele já enviara para esses países centenas de barris de vinho.

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Meus irmãos eram homens feitos. O menor, que tinha dez anos quando eu partira, estava mais alto do que eu. Meu pai tornara-se calvo e cansado. Minha mãe, que tinha a cabeça quase toda branca, me abraçou chorando. Pelo menos tivera o filho de volta, ao contrário, portanto, de tantas andaluzas que perderam filhos e maridos no Peru. Vestidas de preto, elas eram vistas perambulando pelas ruas de Sevilha ou rezando nas igrejas, rosário nas mãos.

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Visitando a família de Ortiz

Foi sofrido visitar a família de António Ortiz e comunicar seu falecimento. Minha intenção inicial era contar aos pais dele que tinham uma neta. Mas, Ñusta implorou para eu não fazê-lo, sabendo que corria o risco de perder a filha. Para mim, o assunto também era delicado. Como explicar a seus pais que a companheira do filho dele era uma de minhas concubinas? Na Espanha, isso era inaceitável.
Contar-lhes ou não a verdade foi uma dúvida que tomou, assim, conta de minha cabeça na noite anterior à visita. Eu não conseguia sequer olhar para Ñusta e Nitaya, que choravam a meu lado com as crianças. Por fim, me decidi: aquela menina era preciosa para Ñusta e para mim, e não fazia sentido perdê-la. Ou seja, eu aprendera a amar esses pequenos mestiços.

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No dia seguinte, encontrei forças para visitar a família de Ortiz. Foi, porém, muito difícil encarar seu pai, um homem altivo, magro e alto, de modos elegantes, de cujos olhos brotaram lágrimas silenciosas. O velho fidalgo quis saber exatamente como seu filho morrera e eu tive, assim, com tristeza, de lhe contar todos os detalhes.
O choro convulsivo da mãe de Ortiz me deixou igualmente de olhos molhados.
Volte sempre, por favor, disse ela quando nos despedimos.
Tudo o que eu desejava era sair correndo daquela casa e embriagar-me numa taverna, o que fiz.

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Pablo

No dia seguinte, encontrei Pablo. Minha família disse que ele comprara terras e alcançara certa prosperidade.
Pablo é agora um homem de sucesso, disse meu pai. Meu primo vivia em uma casa confortável no meio de plantações, com empregados e duas índias. As nativas, logo percebi, deviam, aliás, fazer mais do que apenas cuidar da casa. Ou seja, duas crianças mestiças eram a prova das relações de Pablo com elas. Mas, meu primo, aproveitando-se de sua fortuna, casara-se com uma espanhola, e as índias passaram à condição de criadas. Pablo mudara um tanto, embora continuasse gordo e desleixado.

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Tornara-se um comerciante experiente, que parecia lidar muito bem com seus negócios. Como voltara logo para a Espanha com seu ouro, pudera comprar a propriedade de um fidalgo arruinado por um preço razoável. Dera sorte, porque a entrada de grande quantidade de ouro vinda do México e Peru elevara o preço de tudo na Espanha. Assim, um cavalo agora valia muito mais do que quando deixamos Sevilha. Com o ouro abundante, tudo ficou mais caro. Pablo não apenas trouxera muito mais ouro do que eu, mas pudera, igualmente, na época, comprar mais bens com o que amealhara no Peru.

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A fazendinha de Pablo

Depois de uma taça de vinho, levou-me, orgulhoso visitar sua pequena fazenda. Quis que eu visse, em primeiro lugar, os cavalos e porcos que vendia para as colônias por um bom preço. Em seguida, fomos dar uma olhada nas plantações. A propriedade já possuía oliveiras quando ele a comprara. O azeite era, portanto, outro produto que ele despachava com grande lucro para o Peru. Mostrou-me também uma grande plantação de batatas com folhas baixas junto do chão. Em seguida me levou visitar um depósito com vários tipos de batatas que touxera do Peru.

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As batatas

As batatas são para vender aqui na Espanha. Dizem que a planta está se espalhando para outros países. Chegou também a Portugal, à França, à Itália. Essa raiz dá debaixo da terra e aguenta até invernos pesados. Você lembra que sempre ouvimos que gente em toda a Europa morre de fome?
Eu me recordava. Desde criança, ouvia comentários de que em certos lugares as pessoas não tinham nada para comer. Morrer de fome era, portanto, comum. Pablo apontou para sua plantação com um largo sorriso:
Pois é… Agora, quem não tem o que comer, come batata. Quem tem dinheiro, compra; quem não tem, planta em qualquer pedaço de terreno. Até os ricos estão gostando da batata.

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Havia outra plantação mais adiante: um milharal.
Cresce bem por aqui.
Parei e ergui a aba do chapéu para me proteger do sol.
Quer dizer que está lucrando plantando milho e batata
Senti um tom de ironia quando me respondeu:
Alguma coisa eu ganho.

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Piruleros

E a gente daqui? A cidade me parece vazia. Só o porto é agitado. São os novos piruleros?
Muitos viraram piruleros, como nós. Acham que vão ficar ricos no Peru.
Alguns ficam – disse eu. – Veja você mesmo.
– Poucos. A maioria, porém, não teve sucesso. – Fez uma pausa: – E você, primo, como se saiu?
Eu esperava aquela pergunta. Olhei para ele um momento, não respondi de imediato.
Perdi quase tudo. Voltei com muito menos do que você. E meu ouro hoje compra menos do que o seu quando você chegou. – Contei a ele sobre o acidente da ponte e a morte de Ortiz.
Ele não teve sorte, como você, de ter alguém para lhe estender a mão naquela hora. E era, aliás, uma ponte muito perigosa.
Ortiz era um bom homem… Devo minha vida a ele. Mas, como essas pontes nos dava medo!

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O ouro paga tudo

Permanecemos um instante em silêncio em frente ao milharal, até que eu coloquei a mão em seu ombro e lhe disse:
Primo, você saiu de lá na hora certa. Muitos companheiros morreram. Alguns, nas mãos de nossos compatriotas. Aquilo virou um inferno. Contei-lhe da morte de Toledo e continuamos caminhando pela propriedade. Pablo comentou o que se passava na Espanha. Economia paralisada, tudo caríssimo e importado.
Com todo esse ouro chegando aqui, as plantações foram abandonadas. As fundições fecharam as portas. O país está cheio de ferramentas e produtos vindos de fora. Tudo é pago com o ouro das colônias. Foi todo mundo para o Peru, para o México, para o Caribe. Ou seja, você não se encontra sequer um pastor para tomar conta de ovelhas.

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O que fazer?

Eu estava de volta à Espanha. E agora, o que faria? Depois de ter abandonado minha família, não quis pedir para ser readmitido no pequeno comércio de meu pai. Comecei, assim, negociando com um judeu convertido as esmeraldas que trazia num saquinho, preso por um cordão no pescoço, por dentro da roupa. As pedras também valiam menos do que antes. Depois de ter passado tanto tempo aconselhando e ensinando Pablo, agora sentia que seria ele quem poderia me ajudar com sua experiência de negociante.

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Voltar ao Peru?

Cheguei a pensar em voltar ao Peru. Se eu estivesse sozinho, talvez preferisse embarcar para o Panamá e tentar a sorte outra vez. Mas, tinha duas mulheres e duas crianças para cuidar e alimentar.
Aliás, a situação por lá era preocupante. Grupos rivais se enfrentavam. O ouro trouxera a violência. Os veteranos de Cajamarca, como eu, eram, aliás, vistos pelos almagristas como aliados dos Pizarro. Chegavam a Sevilha notícias de que muitos haviam deixado o país assustados com as represálias e roubos a que estavam sujeitos. Pedi a Pablo para avaliar o que eu poderia fazer com meu ouro e com o que conseguira com minhas gemas.
Não muito, primo. Um pedacinho de terra ao lado das minhas. Porém, bem menor. Poderá criar uns cavalos, plantar milho e batatas, e ganhar um pouco com as oliveiras que existem no terreno. Fez uma pausa. – Preciso de alguém para supervisionar minha propriedade, ficar de olho nos empregados e nos índios. Meu rosto se anuviou. Tanta luta para terminar empregado de meu primo? – E tenho uma casa para você, disse ele. Muito simples, pequena. Para uma emergência. Você terá que ampliá-la, reforma-la, deixa-la bonitinha.

“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

De soldado a agricultor

Pablo foi generoso. Afinal, fora eu quem lhe abrira esse horizonte, o levara ao Peru.
Ele mostrou-me o terreno. Não era enorme, mas razoável. Grandinho, em suma. Enfim, tinha milho, batatas, oliveiras. Fez-me uma proposta interessante. Ele me daria um pedaço de suas terras em troca de algumas esmeraldas. Eu aceitei. Depois soube que Pablo, ótimo negociante conseguiu por elas três vezes mais do que eu obtivera com algumas que vendera ao judeu…
Eu não tinha, aliás, dinheiro para mais. Assim, tive de me conformar. Trabalharia, portanto, meu pedaço de solo e supervisionaria o trabalho dos pões nas terras de Pablo.
Ele apoiou a mão sobre meu ombro:
Fazer o quê, primo? Mas você vai gostar de ter uma terra e plantar. Com essa escassês está rendendo.

“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

Tereza

Pablo contou-me também sobre Teresa. Ela se casara com um homem muito mais velho, primo de meu pai, e enviuvara poucos anos depois. Segundo alguns rumores, ela maltratara o marido quando ele se tornara paralítico, preso à cama, sem poder se levantar. Comentava-se igualmente que ela o envenenara lentamente e que tivera amantes.
Enfim, são boatosMas, na verdade, os dois não se entendiam e ela parecia ansiosa para se livrar dele.

“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

Permaneci calado um momento. Essa conversa me incomodou.
– E você disse que ela quer me ver.
– Ela disse que quer.
– Como ela está?
– Rica… Mais ou menos bonita. Deve ser a boa vida! completou, com um sorriso.

Ao nos despedirmos, Pablo me deu um conselho: seria melhor, em Sevilha, que pensassem que Ñusta era irmã de Nitaya.

“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

O encontro

Hesitante depois do que Pablo me contara, resolvi visitar Teresa, que morava numa bela casa com um pátio central muito agradável, no bairro de Santa Cruz. Recebeu-me com um vestido vermelho em cujo decote um medalhão dourado se destacava, em meio aos seios. Sua sala era bem mobiliada. Li em seu rosto o prazer que sentia em ostentar o conforto em que vivia. Mandou que um escravo nos servisse vinho em finas taças de cristal. Dispensou-o, sentou-se ao meu lado e observou-me. Voltei-me para ela:
Perdi a conta. Você ficou casada por poucos anos, não foi, prima?
Tudo se sabe na família
Eu não quis fazer nenhum comentário.
Você tem filhos? perguntei.
Um casal. Têm sete e oito anos. A pajem os levou para passear. Fez uma pausa.
Fiquei sabendo que você mora com duas índias.
Sim… Minha concubina e a irmã dela. Muitos no Peru, como eu, tiveram filhos com nativas. Trouxe meu menino para ser educado aqui.

“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

Ironias

Sorriu com ironia:
Sempre achei que você merecia coisa melhor.
Não gostei. Respirei fundo.
Talvez. Mas, há homens que se casam com espanholas e não têm sorte.
Teresa olhou-me com o rabo dos olhos, segurou a taça e levou-a vagarosamente aos lábios.
Alguns não têm. Mas você entende como são as coisas aqui em Sevilha. Quando não sabem, inventam, exageram. Bem, eu me casaria de novo. E você?
Abri os braços num gesto vago:
Eu não posso… Tenho minha mulher.

“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

Apenas uma índia

Teresa riu, debochada:
Mulher? Dizem que é bonitinha. Mas é apenas uma índia! Ponha ela e a irmã na cozinha, como Pablo fez. Acha que eu não sei que aqueles meninos de olhos puxados são dele? Ou mande as índias e as crianças para um convento. Conheço, aliás, um padre que pode arranjar isso. Posso ser franca? Com ouro, tudo se ajeita.
Teresa estava sugerindo que eu colocasse Nitaya e Ñusta como serviçais e internasse meus filhos em um mosteiro! Abaixei os olhos para ela. O medalhão que portava no pescoço, talvez porque refletisse o vermelho de seu vestido, tornara-se de um dourado rúbio. Ou seja, o mesmo reflexo que eu vira nas moedas naquele final de tarde junto ao rio onde Ortiz tombara com a mula. O ouro de Teresa talvez fosse tão maldito quanto aquele…

“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

Adeus

Permaneci mudo, pensativo. Anos antes, eu teria aceitado. Não agora. Examinei o rosto e o jeito de Teresa por alguns instantes. Não apreciava seus modos afetados de grande senhora. Percebi, então, que já não sentia qualquer desejo por ela. Nada. Peguei meu chapéu e me levantei:
Prima, tenho que ir.
Vai voltar para sua índia? Idiota, eu tenho ouro!!!

“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

Fique com ele. Deve estar sujo de sangue.
Voltei-lhe as costas. Caminhei para a porta sem me despedir. Voltei pensativo, para a pequena acomodação que meu pai me conseguira logo que desembarcamos em Sevilha. Em suma, sem ter onde ficar na cidade e sem saber sequer o que faria da vida.
Queria muito rever Nutaya. Imaginava suas preocupações, mesmo porque lhe dissera onde iria.

“O Ouro Maldito dos Incas”- com Nitaya e Nusta

Já tenho você

Quando voltei, Nitaya me esperava na salinha da entrada. Tinha os olhos vermelhos. Vi que chorara. Nusta estava ao seu lado com as crianças, ar igualmente apreensivo.
Vai se casar com a espanhola?
Não
Ela me abraçou:
Abracei-a:
– Já tenho você.

Siga a continuação desta postagem: Após a Conquista

Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

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