Livro; O Ouro Maldito dos Incas

039 – Anno de 1533 – “O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é CAPA-MONTAGEM-PIZARRO-OK.jpg
“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

O Huyalas

Prosseguindo pelas terras altas chegamos a Huyalas, onde fizemos pausa de uma semana, uma pausa onde aprendemos mais sobre a colonização inca. Quase não chovia fazia. Porém, fazia frio. Assim, à noite,nos enrolávamos em ponchos de alpaca retirados dos depósitos de Atahualpa. Também nos reuníamos em volta de uma fogueira para nos esquentar. Além dos ponchos dos depósitos, nossas companheiras nativas também teciam mantas quentinhas de alpaca, tornando dessa forma nossas noites bem mais aconchegantes.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

Alpacas, vicunhas, guanacos

Fomos bem recebidos naquela aldeia. Em suma, tínhamos o que comer. Em outras palavras, tínhamos principalmente milho, igualmente muitas frutas e, ainda mais, carne de lhama grelhada. Embora alguns espanhóis ainda continuassem a chamar esses animais de cordeiros do Peru, sabíamos que as lhamas não eram realmente ovelhas, animal que, aliás, não existia no Império Inca.
Parecem mais com camelos – disse um soldado que já havia estado no norte da África. Sua carne tinha, aliás, menos gordura do que a dos cordeiros espanhóis e sua lã era igualmente outra. A lã de lhama era assim a mais comum, mas de qualidade inferior à de outros dois animais que existiam por lá. Ou seja, a vicunha e a alpaca, bastante parecidos com ela, mas menores.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização incaCamelídeos
Nota do autor.: lhamas, alpacas, vicunhas, guanacos, são todos pequenos camelídeos, pertencem a mesma espécie)

Houve noites que choveu granizo e também nevou. Enfim como, estávamos alimentados e aquecidos. Logo isso não tinha importância. Aliás, Eem nenhum outro momento dessa aventura tivemos tanto conforto. Só nos incomodava, porém, a eterna insegurança. Assim, todas as noites, sentinelas eram colocados em lugares estratégicos da aldeia. Parte dos cavalos era igualmente mantida selada. Nossas armas eram também conservadas à mão. Pizarro tentava nos tranquilizar:
São apenas precauções.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

A pausa em Hyalas

A pausa em Huyalas nos permitiu continuar a ensinar espanhol a Achachíc. O nobre inca, aliás, àquela altura, já estava familiarizado com Ortiz e comigo. Pizarro nos perguntara como os incas conseguiam obter a obediência de todos em um país em que aparentemente não existiam prisões. Presídios como os que existiam na Espanha eram, portanto algo quase incompreensível para eles.Ou seja, entre os incas alguém podia ficar aprisionado em um cômodo até ser punido. Era, porém, uma detenção provisória, até a pena ser aplicada ou o índio liberado. Não existiam, portanto prisões. Ou seja, ninguém era encarcerado para pagar por um crime cometido. Achachíc riu:
Não temos nada disso.
Ortiz pensou um instante.
Mas… – disse ele, quem comete um crime menos grave, como é punido? Na Espanha passa um tempo, depois é solto.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

O trabalho inútil

O inca explicou que quem cometesse uma falta menor ou fosse indolente era castigado. Em suma, realizando algo pior do que o trabalho forçado: o “trabalho inútil”. Devia, assim, deslocar uma enorme pedra até um determinado lugar. Quando terminava a tarefa, mandavam que colocasse a tal pedra de volta onde estava anteriormente.
Muitas vezes também toda uma comunidade pagava pelos atos cometidos por um de seus membros. Isso fazia com que a obediência às leis incas se tornasse tarefa coletiva.
A lei, como tudo, era baseada nos costumes. Dessa forma, na falta da escrita, as ordens reais eram divulgadas por mensageiros que iam de aldeia em aldeia, anunciando-as. Assim, ninguém podia alegar ignorância.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

Punições severas

As punições para crimes de maior gravidade, como homicídio, relações com uma Virgem do Sol e outros eram severas. Ou seja, desencorajavam qualquer infração. António Ortiz e eu nos entreolhamos com um sorriso. Nossas companheiras eram Virgens do Sol…
Fiquei, aliás, impressionado com as formas cruéis com que eram executadas as condenações à morte entre os incas. O sentenciado por crimes graves podia portanto ser encerrado em um compartimento subterrâneo com insetos venenosos, cobras peçanhentas, pumas ou condores.Ou seja, suas possibilidades de sobrevivência eram, portanto remotas.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

Se em dois dias ainda estivesse vivo, o Inca o perdoaria. Havia igualmente outras penas, como os castigos corporais, o exílio, a perda de cargo e, para as infrações mais leves, a humilhação pública.
Na Espanha não é melhor – disse Ortiz. – Morrer no garrote ou ser queimado vivo? Em suma, a opção que os espanhois deram a Atahualpa…

“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

A colonização inca: os três mandamentos

Achachíc continuou.
Normalmente, se os novos súditos pagassem seus impostos e trabalhassem, não eram portanto molestados. Eu cuidava, assim, da aplicação dos três mandamentos principais: Ama k’ella (“Não seja preguiçoso”), Ama llulla (“Não seja mentiroso”) e Ama sua (“Não seja ladrão”). Mas não tinha muito trabalho… – disse. – Em suma, todos tinham esses mandamentos bem claros na cabeça. Aliás, muitos dos que cometiam delitos, acusadostambém por sua própria consciência e com medo de terem suas almas condenadas para sempre, se entregavam a mim para serem punidos.
Era assim, portanto, acolonização inca. (Nota do Autor. Esses princípios existem tb no congresso brasileiro atual Só não são repeitados…)

Prosseguindo rumo a Cusco

Após essa semana de descanso Pizarro mandou que prosseguíssemos rumo a Cusco.
.Passamos por Cajatambo, cruzamos a cansativa e gelada cordilheira de Huayhuash e contornamos a laguna de Chinchaycocha até o rio Mantaro, para alcançar o Pampa de Junín.
O trecho mais duro foi na serra. Assim, eu e outros soldados começamos a ter problemas com a altitude. Contrariando o conselho de José, realizei, porém, demasiados esforços físicos. Como resultado, tive a pior dor de cabeça da minha vida. Não fui o único, aliás. Toledo e outros passaram por experiências semelhantes.
Dessa forma, tornamo-nos imprestáveis para qualquer serviço. Se fôssemos atacados acho que não teríamos condições sequer de nos defender. A dor era tamanha que estávamos tontos e mal conseguíamos nos manter sobre a sela.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

As mágicas folhas verdes

Se continuar, prefiro morrer – disse Toledo, que viajava de olhos fechados e uma das mãos na testa. José, que caminhava do meu lado, explicou:
Só vai passar quando começarmos a descer para o vale. Mas sua dor de cabeça pode melhorar se mascarem isto – tirou um punhado de folhas verdes de um saco que trazia a tiracolo.

Eu as conhecia, eram as mesmas folhas de coca com as quais Nitaya e Ñusta nos preparavam chá todas as manhãs. Só que, mascadas, tinham efeito mais intenso, chegando a amortecer a boca, que ficava esverdeada. Já havíamos notado, aliás, que as duas índias insistiam, agora que subíamos a serra, que bebêssemos daquele chá. Inicialmente não tínhamos compreendido a razão. Só nos diziam:
É bom, é bom
Masque-as – disse José, mas só engulam o caldo.

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é folha-de-coca.jpg
“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

O alívio

As tais folhas nos fizeram bem e de assim aliviaram nossa dor de cabeça. A partir dali, sempre que ia atravessar lugares altos pedia a José que nos arrumasse as folhas de coca. Logo todo mundo começou a fazer a mesma coisa. O índio tinha razão. Ele era um tallan, um homem do litoral. Já viajara por aquela região e sabia dos efeitos da altitude, com a qual não estava acostumado. Eu já notara que os índios das serras eram diferentes daqueles da costa. Eram atarracados e troncudos. Deviam ter grandes pulmões. Quando iniciamos a descida para o belo vale que avistávamos do alto, todos imediatamente começaram a melhorar beneficiados pela pouca altitue. Até a vegetação era diferente, mais umida.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A colonização inca

O inimigo invisível

Há tempos que ouvíamos boatos sobre as tropas quitenhas, mas nunca chegamos a avistá-las. O assunto, aliás, até já virara anedota entre os soldados.
Temos um inimigo invisível – dissera um dos oficiais. Muitos diziam que preferiam enfrentá-las de uma vez a viver nessa ansiedade interminável. No Pampa de Junín, os rumores sobre possíveis emboscadas dos quitenhos se tornaram mais frequentes. Isso fez com que Pizarro, desconfiado, mandasse Almagro à frente de um pelotão a cavalo reconhecer o terreno. Nossos intérpretes, aliás, nos avisaram de que provavelmente o inimigo já tinha informações sobre nossos movimentos.

Siga o relato:

Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

Siga a continuação desta postagem: Surpresas

*****

Você gosta de viajar? Então veja dicas preciosas e fotos dos principais destinos turísticos do mundo:

youtube.com/c/SonhosdeViagemBrasil
 instagram.com/sonhosdeviagembrasil 
facebook.com/sonhosdeviagembrasil

Temos, igualmente, neste blog o livro-a-vaca-na-estrada/, fartamente ilustrado. É o relato de uma viagem sabática, de carro de “Paris a Katmandu” com um amigo francês. Uma longa aventura por desertos e montanhas na Turquia, Irã, Afeganistão (antes do Talibã), Paquistão, Índia e Nepal.

Leia também neste blog o livro “A Vaca na Estrada“, uma viagem de Paris a Katmandu, no Nepal, de carro. Mais um livro, como este, totalmente ilustrado por imagens que acompanham o texto.

0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x