Livro; O Ouro Maldito dos Incas

030 – Anno de 1533 – “O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

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“O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

Naus da Espanha

A novidade foi o reencontro de Almagro e Pizarro. Gostávamos das raras ocasiões quando chegava uma nau vinda da Espanha. Era, em suma, quando sempre recebíamos alguns tonéis de vinho entre outros produtos preciosos. Os incas, por exemplo, não conheciam a uva. E, igualmente, nunca tinham ouvido falar em vinho. Também não conheciam cerveja ou qualquer tipo de bebida apreciada na Europa. Ou seja, no Peru, a única bebida que tínhamos era portanto a chicha feita de milho, comum aliás, em todo o Império Inca.

“O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

Papos em volta da fogueira

Dessa forma, vez ou outra, à noite, sentados em volta de uma fogueira nos reuníamos para beber na companhia de meu primo, de Carlos e de Toledo. Este último, o mais velho do grupo, era um homem experiente. E, ainda mais, sabia ler e escrever. Só nosso amigo Carlos era um total ignorante. Seu castelhano era cheio de erros, pois misturava expressões galegas no meio das frases, o que nos fazia rir. Talvez nem ele próprio, aliás, soubesse direito o que estava fazendo no Peru.

“O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

Reforços para prosseguir a conquista

Almagro trouxe consigo duas centenas de homens e cinquenta cavalos, o que reforçou, portanto, muito nossa situação. Na ocasiãos os dois sócios trocaram um abraço. Não sei, porém, quanto foi sincero de ambas as partes aquele cumprimento. Aliás, o secretário de Almagro escrevera uma carta a Francisco Pizarro. Traiu Almagro. Ou seja, disse a Pizarro que o Adelantado queria uma parte do território conquistado para estabelecer um governo próprio. Eram intrigas e mais intrigas.

“O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

Ouro e intrigas

Notei a postura mal-humorada dos irmãos de Pizarro, Hernando principalmente. Ou seja, odiavam o sócio de Francisco. O ouro obtido após a tomada de Cajamarca deu, aliás, início novas as intrigas. Amigos de Almagro advertiam-no a tomar cuidado com Pizarro. Este, por sua vez, era aconselhado por seus irmãos a livrar-se do sócio. A bem da verdade, porém, Pizarro chegou a repreender seus irmãos por tratarem mal a Almagro.
Não precisam gostar dele, mas não o destratem.
Assim, obrigou-os a se desculparem. As antipatias mútuas, porém, nunca foram superadas.

Atahualpa refém de Pizarro

António Ortiz, que observara comigo diálogos ásperos entre eles, franziu a testa.
Isso ainda vai acabar mal disse num tom profético.
Seis meses se passaram e Atahualpa ainda não entregara todo o ouro prometido em troca de sua libertação. Com seu principal comandante preso por nós, o Inca encontrava-se enfraquecido. Os soldados, aliás, o acusavam de atrasar de propósito o pagamento do resgate.

“O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

Gonzalo, por exemplo, vivia resmungando. Cuspiu, com ar de desprezo:
Não era, então, para encher o quarto até o teto com peças de ouro? O filho da puta cumpriu sua promessa? Vai ficar nos enrolando durante quanto tempo?
Pizarro, por sua vez, estava cada vez mais desconfiado de que Atahualpa, de fato, mandara matar o irmão, algo que o proibira de fazer.

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Felipilo se diverte

O Inca tinha ainda outro inimigo, o intrigante Felipillo. Ou seja,este o odiava em razão das crueldades praticadas pelo soberano quitenho contra seu povo. O intérprete começou sua vingança com algo que iria ferir o Inca profundamente. Passou, dessa forma, a dormir com suas irmãs-concubinas. Cada noite eu o via, discreto, levar uma delas para seu canto. Um dia, deitou-setambém com uma das favoritas do soberano, a princesa real.
Atahualpa, furioso, foi queixar-se a Pizarro, que obrigou o tallan a devolver a jovem. Felipillo deve ter percebido, penso eu, que a única maneira de ter a princesa era liquidar Atahualpa. Além disso, estava igualmente apavorado com a possibilidade de o Inca ser libertado.

“O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

A tática de Felipilo

Ou seja, o Inca o esfolaria vivo se tivesse a oportunidade de fazê-lo. Assim, começou a espalhar boatos. Disse, por exemplo,que tropas de Atahualpa estavam posicionadas a poucas léguas de Cajamarca. Ou seja, que poderiam atacar a cidade desta vez com grande número de arqueiros.
Decidido a dar cabo de Atahualpa, o tallan ponderava igualmente que Pizarro nunca conseguiria a lealdade das tribos dominadas enquanto o soberano quitenho estivesse vivo. Em suma, somente sua morte acabaria com qualquer veleidade de resistência de seus generais.

“O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

Felipillo garantia, igualmente, que todos os partidários de Huáscar viam com bons olhos a execução do tirano. Também afirmava que, se muitos índios ainda temiam nos ajudar, era porque tinham medo de Atahualpa. Interroguei José. Ele confirmou com um movimento de cabeça:
Se for libertado, Atahualpa vai massacrar os partidários de Huáscar. – Fez uma pausa e acrescentou: – E também vocês e nós, tallans.

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Executar Atahualpa ou não?

Pizarro, que já se acostumara com o Inca, relutava em aceitar sua execução. Cada vez, porém, mais espanhóis eram favoráveis à sua morte. Frei Valverde também desejava punir o soberano. Ouvi-o comentar que aquele índio era também um pecador. Em suma, capaz de matar os irmãos e fornicar com as irmãs. Devia, portanto, ser enviado ao inferno o quanto antes para pagar por seus atos. Essa era uma opinião importante. Todos os demais religiosos pensavam da mesma forma. Compartilhavam, assim, os pontos de vista de Valverde, o que influenciava a todos nós. Conversei a respeito com Ortiz. Ele também achava que Atahuapla era um canalha. Porém achava que o que mais motivava Pizarro e a Igreja era o ouro.

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O comportamento dos espanhois

E ainda mais, sabíamos que estávamos procedendo de forma tão criminosa quanto o imperador inca. Logo tomei consciência de que nossas mãos e desses religiosos estavam também ensanguentadas, mesmo falando em Cristo o tempo todo.
Viu quantos inocentes, milhares deles foram mortos, contaminados propositalmente por nós? Mulheres, velhos, crianças? Isso é o nosso cristianismo? disse meu amigo.
Abaixei a cabeça pensativo. Era verdade… Estávamos sendo tão crueis quanto os incas. Pensar nisso me abalou. Comecei a entender melhor meu amigo Ortiz.
Além de Hernando Pizarro, somente Soto era contra a execução do Inca. Hernando preferia, em suma, levá-lo para a Espanha, onde seria julgado. Mas, Pizarro desconfiava da proposta de Soto. Em outras palavras, conduzir o monarca inca como prisioneiro à Espanha, não era motivada por nenhuma compaixão para com o índio. O que seu capitão desejava era reforçar sua própria posição perante a corte espanhola e, dessa forma, obter benefícios.

“O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

Os riscos de libertar Atahualpa

Atahualpa, por outro lado, que durante meses seguidos já encaminhara a Cajamarca boa parte do ouro prometido, pedia para ser libertado. Isso, porém, nós sabíamos, Pizarro não faria. Será nosso fim, afirmara mais de uma vez.
Uma de suas providências para saber as verdadeiras intenções do prisioneiro foi mandar interrogar o comandante das forças de Atahualpa, Calcuchímac. Este, aliás apenas se recuperava das queimaduras sofridas quando torturado. O tradutor foi Felipillo. Eu e Ortiz, presentes, percebemos que Felipillo distorcia a versão do general, mas nos calamos. Quando Calcuchímac reconhecia que havia guerreiros nas proximidades de Cajamarca, Felipillo acrescentava por sua conta que eram guerreiros dispostos a nos atacar…


Eu mesmo já fora convencido por frei Valverde da necessidade da execução do soberano quitenho. Ortiz não apoiava a execução do índio, mas concordava que Pizarro tinha razão. Atahualpa, livre, tentaria se vingar.
É claro, não? É o que eu faria, aliás, se fosse ele.
Para piorar a situação do Inca, os curacas de Cusco, partidários do falecido Huáscar, também começaram a acusar o prisioneiro de ter ordenado a seus oficiais arregimentar tropas em Quito.

“O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

Pizarro cada vez mais desconfiado

Pizarro, na dúvida, apenas escutava, sem se decidir pela execução do índio. Finalmente, um dia perdeu a paciência. Assim, de frente para o Inca, o interpelou diante de seus principais veteranos e dos intérpretes.
Eu o trato como um irmão e você reúne tropas para nos atacar? Não aceito traição!
Atahualpa, naturalmente, negou tudo e disse que estava sendo vítima de uma conspiração. Observou as pessoas à sua volta, detendo-se em Felipillo. Seus olhos faiscaram.
É uma enorme mentira! Alguns querem me ver morto.
Até seu general Calcuchímac confessou que seus guerreiros pretendem nos atacar, retrucou Pizarro.

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“O Ouro Maldito dos Incas” – O reencontro de Almagro e Pizarro

Atahualpa ficou pálido.
Se disse isso é porque foi torturado e está com medo. Mas, ele me pagará por essa mentira. Pizarro o mediu muito sério, dedo em riste:
Se os seus guerreiros nos atacarem, você será o primeiro a morrer. Não apenas os partidários de Huáscar e os tallans querem que você morra. Muitos de meus homens aqui presentes também gostariam de vê-lo assando em uma fogueira como uma espiga de milho.

Siga o relato:

Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

Siga a continuação desta postagem: A execução de Atahualpa

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