Livro; O Ouro Maldito dos Incas

023 – Anno de 1532 – “O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

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“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

A espera de Atahualpa

Atahualpa pediu que um dos espanhóis ficasse no acampamento, mas Soto negou, alegando que não tinha autorização de Pizarro para tanto. Creio, aliás, que nenhum de nós gostaria de ter ficado ali…
Quando voltamos a Cajamarca, já era noite. No começo de novembro fazia frio na região e logo uma garoa gelada começou a cair. Assim, desmontamos e fomos imediatamente para um dos galpões laterais repleto de mantas de lã alpaca, que utilizamos para nos aquecer.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

O relato de Hernando

Pizarro estava impacientes para saber como transcorrera nossa visita. Soto relatou que não estávamos lidando com um mero chefe de curacas, mas com um imperador muito seguro de si e corajoso. Contou o episódio do cavalo e o surpreendente sangue-frio do índio.
O homem não moveu um dedo! Qualquer um de nós teria desviado ou pulado para o lado. Enfim, a visita serviu. Afinal, prestei muita atenção nas armas desses índios e em outros detalhes. E, se o Inca soube se controlar, a maioria se apavorou com os animais. Não usam capacetes como nossos. Os deles não protegem nada. Ainda mais, seus pequenos escudos, igualmente, não servem para muita coisa.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Disse também que Atahualpa teria cerca de quarenta mil guerreiros nos esperando, o que desagradou Pizarro, que teria preferido que a informação não tivesse sido divulgada entre os soldados. Um indício do medo entre nós foi o grande número de soldados que sofreu de diarreia naquela noite, apesar de termos todos comido bom milho, frutas e carne de lhama fresca.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Confissões às pressas

Creio, depois de ouvir os relatos de Soto, a maioria passou a acreditar que não chegaria vivo à noite seguinte. Assim, muitos, diante da possibilidade de morrer, resolveram se confessar, o que sobrecarregou frei Valverde. Eu, de minha parte, preferia penas rezar, como fizeram outros. Começava, entretanto a me pergunar se isso serivira para alguma coisa. Todos os que morreram até então sempre rezavam. António Ortiz não se confessou nem rezou, mas ficou calado, pensativo, igualmente preocupado. Muitos, aliás, não conseguiram dormir, como ocorre, já ouvi dizer, com condenados à morte. Tão ruim como o medo, o frio era outro problema, já que Cajamarca é uma cidade serrana. Dormimos cobertos por mantas coloridas encolhidos no depósito.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Armas à mão, cavalos selados

Pizarro organizou turnos de vigília em vários pontos da cidade. Ordenou, igualmente, a todos que dormissem com as armas à mão, enquanto, mais uma vez, os cavalos permaneciam selados. No dia seguinte ficamos sabendo da existência de um segundo acampamento de Atahualpa ao norte de Cajamarca. Talvez ele estivesse, aliás, nos cercando, para que nenhum de nós escapasse. Ou seja, poderia nos vencer pela fome, se desejasse. Nunca entendi, aliás, por que Atahualpa não empregou essa tática. Creio que seu grande erro foi a excessiva autoconfiança. Presunçoso ele, inicialmente, teria chegado a acreditar, quando Pizarro desembarcou, que o próprio deus-criador Viracocha das lendas incaicas viera saudá-lo como o novo Inca. Ortiz fez uma careta:
– Mal sabe ele que esses deuses brancos vindo do mar lhe trariam varíola em troca de seu ouro…

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

O feitiço virando-se contra o feiticeiro

Ao invés de organizar uma resistência e preparar seu exército para nos enfrentar, Atahualpa não o fez. Em suma, confiante por estar acompanhado de milhares de guerreiros, resolveu nos encontrar em Cajamarca.
Logo depois do amanhecer, chegou um mensageiro enviado pelo Inca dizendo que ele viria ao encontro de Pizarro no final da tarde. Porém, como seus homens tinham medo dos cavalos, pedia que os animais estivessem presos quando ele chegasse. Como nos confessaria mais tarde, sua intenção era aproveitar-se de estarmos desmontados para mandar seus guerreiros nos atacarem. Mas, o feitiço virou-se contra o feiticeiro. Era tudo de que Pizarro precisava. Nosso comandante correu os olhos pela praça, examinando de novo, atentamente, cada um de seus cantos. Respondeu, portanto, que receberia o Inca como amigo e irmão e prometeu, ainda mais, que prenderia os cavalos. Quando o mensageiro virou as costas, o Gobernador chamou Soto, seus irmãos e alguns dos cavaleiros e explicou seu plano. Ou seja, os cavalos deveriam permanecer escondidos nos galpões onde dormimos, aparentemente atendendo ao pedido de Atahualpa, quando, na verdade, armaríamos uma cilada.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Preparando a cilada

A um sinal de Pizarro, sairíamos das casas montados nos animais e nos lançaríamos, assim, de surpresa sobre o Inca. As ordens, entretanto, eram para não matá-lo nem feri-lo.
Quero o homem vivo e saudável. É só para agarrar o índio!
Pedro de Candía, por sua vez, posicionaria suas peças de artilharia na fortaleza, de onde poderia atingir qualquer ponto de Cajamarca. O objetivo era semear pânico, assustar os índios e impedir igualmente a chegada de reforços.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Do fortim os sentinelas tinham uma boa visão de Cajamarca e do vale e, dessa forma, acompanhavam, apreensivos, o movimento dos guerreiros quitenhos. No meio da tarde chegou uma mensagem de Pedro de Candía. O grego avisava que os índios começavam a deixar o acampamento e seguiam vagarosamente para Cajamarca. Uma verdadeira torrente humana vinha em nossa direção com Atahualpa à frente sobre sua liteira. Portanto, nos preparássemos! Dizia que pareciam formigas, de tão numerosos.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Esperando Atahualpa, prontos para o ataque

Ficamos esperando Atahualpa. Os cavaleiros foram divididos em três grupos, liderados por Hernando Pizarro, Hernando de Soto e Belalcázar. Pablo e eu ficamos no pelotão comandado por este último. Logo, quando o Inca entrasse na praça, deveríamos estar montados e prontos para o ataque.
Se querem conservar a pele, essa é a nossa única chance. Em suma, se não capturarmos o índio, morreremos todos, insistiu Pizarro.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Os cavalos investiriam e abririam passagem para que vinte soldados a pé chegassem, assim, até o Inca e o prendessem. Grupos menores fechariam as três ruas de acesso à praça quando a confusão começasse. No Amaru Huasi, o Templo da Serpente, em frente ao centro da praça, mais de duas dezenas de homens permaneceriam igualmente escondidos. Um grupo de soldados a pé ficou sob o comando de Juan Pizarro, no mesmo galpão que os cavaleiros. Sua função era seguir os cavaleiros e matar os índios que escapassem das lanças.
O sinal para a ação partiria de Pizarro, que daria um tiro de arcabuz e gritaria: “Santiago!”, nosso santo guerreiro. Um soldado no alto de um muro ergueria um lenço branco na ponta de uma vara. Era o sinal a Candía para que disparasse. Quem não ouvisse o arcabuz, ouviria o canhão postado na fortaleza.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Esperando Atahualpa: sua comitiva se aproxima

Quando soube que a comitiva inca se aproximava, Pizarro deu ordens para que ocupássemos nossas posições.
– Escondam-se e mantenham-se em silêncio absoluto.
A praça logo ficou deserta. Sentinelas anunciavam que a longa fila de guerreiros continuava se aproximando, mas ninguém via Atahualpa entre eles. Se mandasse seus guerreiros atacarem sem comparecer ao encontro, todo o plano iria por água abaixo. Somente mais tarde, pelo próprio Atahualpa, ficamos conhecendo certos detalhes. Ele sabia onde estávamos! Um de seus espiões, que montara guarda numa elevação de onde podia, portanto, avistar a praça. Assim deu-lhe a notícia de que os viracochas, apavorados, tinham se escondido nos edifícios em torno dela…
A demora de Atahualpa preocupou, porém, a todos: não sabíamos o que sucedia.
A tensão durou um tempo interminável, enquanto Pizarro esforçava-se para nos tranquilizar.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Atahualpa chegando sobre uma liteira

Finalmente, chegou da fortaleza o aviso de que Atahualpa deixara o acampamento se aproximava devagar. Estava instalado em uma liteira ornamentada, carregada por quatro índios. Pizarro exultou. Era mais fácil capturar o inca sobre a liteira. À frente seguiam músicos e dançarinos.
O galego Carlos benzeu-se. Ninguém falava, mas os soldados olhavam uns para os outros e trocavam sorrisos nervosos. Ou seja, como se cada um estivesse medindo o medo do companheiro e comparando-o com o seu.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Eu sentia um nó na garganta. Pensei em minha mãe, em meu pai. Se eu morresse naquele fim de mundo, talvez ninguém ficasse sabendo. Afinal, muitos dos que viram ao Peru, nunca mais regressaram. Ninguém, nem a própria família, teve notícias deles. Meus ais talvez nem saberiam o que houve, como morri. Meus amigos também não. Ou seja, nunca rezariam por minha alma.

“O Ouro Maldito dos Incas” – Esperando Atahualpa

Uma praça pequena para tanta gente

Como Atahualpa não dispensava sua liteira, ele e sua grande comitiva só chegaram a Cajamarca no final da tarde. Embora ele tivesse atrás de si um enorme exército, como previra Pizarro, não havia espaço na praça para tanta gente. Ou seja, talvez apenas uma dezena de guerreiros poderiam acompanhá-lo. E o Inca, como se não bastasse trouxe ainda músicos e bailarinas que dançavam ao lado da liteira. De um vão junto à porta do galpão, vi a comitiva entrando na praça. Guerreiros, em primeiro lugar, mas em número limitado e, aparentemente, desarmados.

Siga o relato:

Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

Siga a continuação desta postagem: A captura de Atahualpa

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