Livro; O Ouro Maldito dos Incas

006 – Anno de 1529 – “O Ouro Maldito dos Incas” – A mucama índia

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“O Ouro Maldito dos Incas” – A mucama índia

Avançando no aprendizado do espanhol

Não tivemos dificuldades com os verbos mais comuns. Outros, porém, verbos como acreditar, lembrar, duvidar, me deram mais trabalho. Com o passar dos meses, porém, os nativos foram conhecendo cada vez mais palavras, o que nos permitia portanto conversar. Descobri que tinham duas línguas. Uma era utilizada pelos membros de sua tribo, os tallans, e a outra se chamava quéchua. Esse era, aliás, o idioma mais importante do Império Inca. Eu mesmo comecei também a aprender muitas palavras do quéchua, a língua dos incas, que para mim era mais importante do que o tallan. Quanto mais eles aprendiam espanhol, eu igualmente começava a aprender quéchua.Logo compreendi que a palavra inca tinha vária significações. Assim, servia para designar o reino, seu povo e também, em um tom respeitoso, era o nome dado ao imperador, “O Inca”.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A mucama índia

O soberano, era, aliás, quase uma divindade. Os incas, segundo me contaram, eram a tribo do vale de Cusco que dominara os povos vizinhos.
Nossos intérpretes não eram, portanto, “incas”, mas tallans, uma gente conquistada por eles e obrigada a pagar tributos e aceitar a sua autoridade. Ainda mais: descobri que não gostavam dos incas.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A mucama índia

Os Dez Mandamentos

Um dia, padre Fernando de Luque chegou à nossa choupana acompanhado de frei Vicente Valverde, que participaria da próxima expedição e desejava também converter nossos índios. Eu achava precoce, mas não quis contrariá-lo. Falei com os nativos, que concordaram sem dificuldade em aceitar a nossa fé, embora nada soubessem sobre ela. O religioso disse que gostaria de iniciar seus ensinamentos com o Antigo Testamento.

“O Ouro Maldito dos Incas” – A mucama índia

Começarei pelos Dez Mandamentos.
Disfarcei um sorriso e deixei-o com os tallans, observando-os discretamente, sentado à mesa enquanto tomava vinho ao lado de Pablo. José e Miguel, creio eu, tinham, aliás, apenas uma vaga ideia do que frei Valverde tentava lhes ensinar. Devem, aliás, ter ficado surpresos com o fato desses mandamentos existirem entre nós. Afinal, nada daquilo era tomados a sério pelos marinheiros e soldados espanhóis. Em suma, como já comentei antes, roubavam, matavam e cometiam toda espécie de pecado. Enfim, quanto mais Frei Valverde lhe falava sobre a Bílbia, menos compreendiam.

Confundindo a cabeçados índios

Ficaram ainda mais confusos quando o frei explicou-lhes, entre outras coisas, que por meio da confissão, podiam ser absolvidos diante de Deus dos pecados cometidos – o que, quando conseguiram entender, os confundiu ainda mais.
Então posso roubar, padre? Basta contar ao senhor depois? – perguntou José. O sacerdote me fixou desanimado. Abri os braços num gesto vago.
Não sei se estão preparados para a conversão, senhor.
Valverde respirou fundo, desanimado.
–Em nome de Jesus, é mais fácil fazer um macado entender a Bíblia do que esses índios! Mas, Não importa, vamos convertê-los assim mesmo. Afinal, a Igreja conta com isso. Convivendo conosco esses coitados entenderão melhor as leis de Deus.

Cocei a cabeça devagar. Não tinha tanta certeza disso, mas procurei colaborar com o clérigo. Assim, expliquei aos índios que seria útil para eles se converterem ao cristianismo.
Vocês serão mais respeitados.
No dia seguinte já estavam batizados, apesar de ignorarem quase tudo sobre sua nova religião.

O misterioso reino do Mar do Sul

Enquanto esperava a volta de nosso capitão, continuei ensinando espanhol aos índios, ao mesmo tempo que colhia informações sobre o misterioso reino do Mar do Sul. José, em especial, aprendia muito rápido. Sua facilidade em se expressar em espanhol ajudou-me a entender como era esse reino que tentaríamos conquistar. Como ele era um tallan, dominado pelos incas, não tinha pudor em revelar seus segredos. Fora uma sorte capturá-lo.

Os tallans

Contei isso a Almagro. Espertalhão, ele esfregou as mãos, seu único olho até brilhou:
Vamos trazer essa gente para nosso lado. Diga-lhes que vamos libertá-los.
Foi o que eu fiz. Expliquei, portanto, a José que queríamos libertar todos os povos dominados pelos incas: ele me ajudaria muito se contasse como era seu mundo. Não se fez de rogado. Logo entendi, que apesar de odiarem os incas, os tallans tratavam de servi-los fielmente e obredecer todas as leis impostas pelos quéchuas que controlam cada detalhes do império.

Se não o fizessem, os castigos seriam terríveis. Sua família e talvez toda sua aldeia fosse punida. Mas, agora nós, espanhóis, estávamos lhes oferecendo uma chance real de se livrarem dos dominadores.
Passei a chamar José, o mais interessado dos intérpretes, para a minha mesa, e desenvolvi uma certa cumplicidade com ele. Com o tempo, criou-se uma amizade entre nós. Se antes eu via os nativos como seres muito diferentes de nós, agora começava a entendê-los e até a admirar suas qualidades.

Vez ou outra voltava do mercado com frutas para ele, um homem de aproximadamente trinta anos, calado e observador. O mais jovem, Miguel, era preguiçoso e não parecia preocupado em aprender muita coisa; nunca lhe dei muita atenção.

A índiazinha grávida

Pablo, que se interessava menos do que eu pelas histórias contadas pelos nativos, às vezes participava das conversas. Seus principais prazeres eram beber e abusar da mucama, que acabou ficando grávida. Certa manhã, quando notei, na cozinha, que a barriga da indiazinha crescera, fiz uma careta. Só nos faltava essa! Fui falar com Pablo. Ele, que se pelava de medo do padre, estava preocupado.
O clérigo Luque vai ficar furioso.
Essas coisas são comuns nesta colônia, mas não sei como ele irá reagir – falei, pensativo, com a intenção de assustá-lo um pouco.

A india velha

Alguém me falara de uma índia velha, capturada quando os primeiros espanhóis desembarcaram na colônia, que conhecia ervas abortivas. Fui conversar com ela. Perguntei-lhe, entre outras coisas, se isso acarretaria risco para a menina. Não gostaria que nada de mal sucedesse a ela e temia a reprovação do padre, que investira dinheiro ao comprar a nativa.
A maioria sobrevive – respondeu em voz baixa.
Não tínhamos alternativa. Ao anoitecer, discretamente, levei a moça. Não quis, porém, ficar, nem assistir. Só reapareci no dia seguinte. A indiazinha jazia deitada num canto sobre uma esteira de palha, a barriga ainda inchada. Parecia muito enfraquecida.
Ela vai se recuperar – disse a velha, que me pediu uma moeda.
Se ela sobreviver, eu lhe pago.

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Calma, primo! A moça é do padre!

Dois dias depois, fui buscá-la. Continuava fraca, mas estava melhor. Ajeitei-a em seu catre, levei-lhe frutas, água e pão. Em pé, Pablo me olhava atento:
Quando vai estar pronta de novo?
Puxei meu primo para fora.
Deixe-a em paz por uns dias, por amor de Deus! Servi dois copos de vinho. Abaixei a voz; preferia que os tallans não me escutassem.
Ouça, primo, nós, homens, temos nossos desejos. Podemos foder quantas índias quisermos quando chegarmos ao reino inca. Mas aqui na colônia podemos acabar tendo problemas. Se essa moça morrer você terá que prestar contas ao padre Luque. Uma indiazinha como essa custa dinheiro. Você tem o suficiente para indenizar o reverendo?

Siga o relato:

Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

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