Livro; O Ouro Maldito dos Incas

016 – Anno de 1532 – “O Ouro Maldito dos Incas” – A traição de Chilimasa

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“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

Chilimasa nos trai

Em abril, os homens já estavam restabelecidos e embarcamos de volta ao continente sem prever a traição de Chilimasa. Estávamos, ainda mais, contentes em podermos continuar a viagem. Em suma, chegar, por exemplo, às tais cidades com calçamento de ouro que não saíam de nossas cabeças. Além do mais, Chilimasa garantira também que um banquete com frutas e pernis de cordeiro assado nos aguardava ao desembarcar.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

De volta ao continente, quando pusemos os pés em terra, os tumbesinos, antes tão dóceis, dispararam uma chuva de flechas sobre nós. Três soldados morreram, dois ficaram feridos. Pizarro ficou irado. Voltou-se para Ponce de León:
Acabem com esses merdas!
Os índios se dispersaram, assustados com a carga de nossa cavalaria. Pizarro, entretanto queria mesmo é capturar Chilimasa. Assim mandou que Hernando de Soto e outros cavaleiros perseguissem e capturassem
Tragam esse filho da puta, vivo, se possível! Quero entender a razão dessa traição.

O interrogatório

Era final de tarde. A patrulha voltou arrastando o cacique. Filipillo foi logo chamado como intérprete. Iríamos entender a traição de Chilimasa. Interrogado, o ofegante curaca confessou assim estar obedecendo a uma ordem do Inca. Achamos, entretanto, que devia ter muito mais para contar. Com os intérpretes e Chilimasa no centro de uma roda formada por Pizarro, Soto, Hernando, Gonzalo e outros, aprendemos dessa forma fatos importantes sobre o que sucedia naquele estranho país.
Pizarro olhou para Felipillo ao seu lado e apontou o curaca:
Quero saber tudo sobre a traição de Chilimasa. Desde o começo. Ou seja, pretendo saber o que está acontecendo, quem está por trás desses ataques e quem é o rei dessa gente.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

A traição de Chilimasa foi sendo explicada. O cacique não se fez, aliás, de rogado, falou a verdade deta vez. Antes de explicar por que razão nos traíra discorreu, porém, sobre o que se passara nos últimos anos no Império Inca. Disse que foram governados até recentemente por Huayna Cápac. Um dos mais importantes, aliás, entre todos os soberanos do Peru.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

A chegada dos viracochas

O cacique contou-nos, assim, que foi no final do seu reinado que correram pelo império as primeiras notícias sobre estranhas naus tripuladas por estranhos e cabeludos homens brancos. Em suma, gente de uma raça nunca antes vista: os viracochas. Olhei para Ortiz, parado junto a mim:
– Certamente que eles sabem de nós faz tempo.
Também acho. Esses índios devem ter muito mais segredos do que podemos imaginar – respondeu meu amigo.

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“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

Uma aula sobre os incas

Acrescentou igualmente que o Inca Huayna Cápac tinha duas centenas de filhos com suas numerosas concubinas e esposas. Uma de suas concubinas, a filha do rei de Quito, que aceitou submeter seu reino ao poder incaico, foi mãe de Atahualpa, filho ilegítimo, mas muito querido do imperador. Porém, a sucessão ao trono deveria caber a Huáscar, que vivia em Cusco e era filho do monarca com a Coya, a rainha, sua irmã e também principal esposa.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa – A Coya

A varíola

Naquela época a varíola já tinha se espalhado por todo o império, assim como outras enfermidades. Chilimasa nos disse que o velho Inca tinha morrido dessa doença. Comentava-se que a peste fora trazida ao país pelos viracochas. Afinal, os primeiros contaminados foram os nativos do litoral norte, do império. Em suma, os primeiros a terem contato com os invasores. É possível, aliás, que o sobrerano de Quito tenha sido contaminado por seus próprios espiões. Afinal, mensageiros foram enviados para acompanhar o que faziam os viracochas já recebidos por caciques.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

A divisão do império

Ao sentir a morte se aproximar, o soberano moribundo mandou chamar o filho Huáscar a Quito e pediu-lhe que deixasse essa porção do império para seu irmão bastardo, no que foi atendido. Porém, após a morte de seu pai, Huáscar resolveu obrigar Atahualpa a lhe prestar vassalagem e igualmente renunciar à expansão da parte do império sob seu domínio.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

Devia, igualmente, levar a Cusco a sagrada múmia do pai. Enfim, Atahualpa mandou a múmia, mas não se apresentou. Desconfiado do irmão, preferiu ficar em Quito. Huáscar, porém, irritado com o que considerou um desrespeito tanto à memória de seu pai quanto a ele próprio, mandou matar todos os que seu irmão enviara para acompanhar o cortejo.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

Apesar disso, Atahualpa não se moveu de Quito, só enviou embaixadores que prometeram submissão a Huáscar. Este se indignou, mandou igualmente cortar os narizes dos mensageiros e exigiu a presença do irmão.
Que profissão ruim, ser mensageiro neste país – murmurou um dos presentes. Todos riram. Dessa forma, o ambiente, inicialmente tenso, desanuviou-se um pouco.

O ladino Atahualpa

Atahualpa, maroto, declarou, então, que aceitava ir a Cusco e submeter-se ao irmão. Faria mais: iria acompanhado de milhares de seus súditos, que também declarariam fidelidade ao Inca. Logo montou uma enorme comitiva que partiu de Quito, constituída, na verdade, pelos melhores soldados quitenhos, sem a mais remota intenção de se submeter a Huáscar.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

Este, que no primeiro momento não desconfiara de nada, acabou sendo alertado por curacas pelas diversas províncias incas províncias atravessadas pelas tropas de Atahualpa. Ou seja, aquele grande exército não estava seguindo para Cusco para se prostrar aos seus pés. Assim, armou sua defesa e saiu a campo para enfrentar as tropas do irmão.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de ChilimasaAtahualpa vence o irmão Huáscar

A derrota de Huáscar

Porém, seus guerreiros eram poucos; e, ainda mais, grande parte deles estava espalhada pelo império. Vencido pelo irmão após uma sucessão de batalhas, Huáscar, o último Inca legítimo, acabou, dessa forma, prisioneiro.
Por puro acaso, aliás, havíamos desembarcado no Peru quando o país encontrava-se em plena guerra civil. Ou seja, e as duas partes estavam dessa forma mais preocupadas em exterminar-se mutuamente do que em cuidar do grupelho de viracochas que chegara a seu litoral. Essa circunstância, certamente nos ajudou.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

Massacre na corte de Cusco

Temeroso de não ser aceito como Inca em razão de sua condição de filho bastardo, Atahualpa fez, porém uma limpeza na corte cusquenha. Assim, mandou executar as oitenta concubinas de Huáscar, inclusive as grávidas com crianças de colo, e também seus filhos. Boa parte dos serviçais e caciques que o apoiavam foi igualmente assassinada.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

Segundo Chilimasa, Atahualpa estava ainda insastisfeito com sua vingança sobre o irmão. Assim, mandou que cerca de mil e quinhentos corpos mutilados da corte de Huáscar foram expostos em estacas junto à estrada que levava a Cusco. Muitas das mulheres e crianças foram também mortas em frente a Huáscar, que permanecia refém do irmão e assistia a tudo encerrado numa gaiola de madeira. Huáscar, que tentou se manter impassível, só teria porém se descontrolado quando seu irmão mandou abrir o ventre de sua esposa favorita, grávida. Em suma matou dois de seus filhos ainda na barriga da mãe.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

A vingança de Atahualpa

Chilimasa calou-se um momento talvez para medir a reação de seu relato aos viracochas. A essa altura Gonzalo fez uma careta:
Esse miserável vai nos contar o porquê da traição ou vai nos dar uma aula de história?
Pizarro segurou em seu braço:
Deixe que ele continue. É bom saber que diabo de país é este e com quem estamos lidando. Deve saber até onde existe ouro…

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de Chilimasa

A conspiração contra os viracochas

Chilimasa prosseguiu. Ele e sua gente, que havia apoiado Huáscar, pagaram muito caro por isso. A vingança de Atahualpa foi, aliás, implacável: ou seja, fez tambores com a pele da maioria dos guerreiros do curaca. Este foi poupado por ter aceitado prestar vassalagem a Atahualpa, mas devia igualmente obedecer cegamente às ordens dos oficiais enviados pelo monarca quitenho e matar os viracochas.
O cacique nos confessou assim detalhes da conspiração. Apenas para ilustrar, no dia em que deixamos Puná, um espia do rei inca estivera na ilha. Ele ordenara que Tumbala e Chilimasa cessassem imediatamente suas rivalidades e dessem cabo dos espanhóis, sob pena de serem ambos executados de forma cruel.
Esses espias, que mais tarde apelidaríamos de Orejones, existiam em todo o império dos incas.

“O Ouro Maldito dos Incas” – a traição de ChilimasaOrejone

Os orejones

Orejones eram espias que usavam pesados brincos de ouro e prata tornava. Desse modo, com o tempo, suas orelhas ficavam alongadas. Eram eles, portanto, que mantinham Atahualpa informado sobre tudo o que acontecia em seus domínios. Isso explicava, dessa forma a visita de Chilimasa a Puná. Ou seja, quando se encontraram, os caciques já estavam combinados. A briga dos dois fora, portanto, uma encenação! Podiam se odiar, mas tinham sido obrigados a obedecer. Por isso, aliás, Tumbala, capturado por nós, dissera a Pizarro que seria inútil mandar seus guerreiros cessarem os ataques contra nossos soldados. Em suma: não podia contrariar Atahualpa. Entendemos asim a traição de Chilimasa.

Siga o relato:

Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

Siga a continuação desta postagem: Guerra civil no império inca

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