Livro: A Vaca na Estrada

06 De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão

Importante:

Antes de mais nada, gostaria de destacar que o Afeganistão de hoje está totamente fora de qualquer roteiro turístico. A viagem aqui relatada foi realizada antes das guerras, antes do fanatismo Talibã. Ou seja, não estou aconselhando ninguém a visitar o Afeganistão neste momento! Enfim, tenho certeza de que todo mundo já sabe disso… Mas um aviso a mais pode talvez ser útil.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão

Pegando a rota do Afeganistão

Nossa intenção era avançar pelo Irã o mais rapidamente possível. Em suma, chegar logo à Índia e ao Nepal, nossos principais interesses. As francesas, que nos acompanhavam no Irã, queriam visitar outros lugares no Irã. Depois seguiram para o Afeganistão, fim de sua viagem. Nós, porém, não nos entusiasmamos muito pelo Irã. Afinal, lugares bem mais interessantes estavam nos aguardando.
Abaixo: Mapa do Afeganistão

Um país tranquilo

Nós, ainda mais, tínhamos muito caminho pela frente. Foi uma triste despedida, já que tínhamos nos acostumado com a divertida companhia delas. Assim, após um último café da manhã juntos nos separamos. Acenamos da janela do carro e pegamos a estrada rumo à fronteira afegã. Nunca mais as revimos depois. Pena que não puderam seguir de cara para o Afeganistão conosco.
Antes do Talibã, a região atravessava um período tranquilo. Ou seja, sem ocupantes soviéticos, sem guerras, sem norte-americanos. País pobre, porém, fascinante. Aliás, seu território foi desde a Pré-História rota de migração de tribos-indo-europeias que, mais tarde, invadiriam o subcontinente indiano.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão

Afeganistão: uma longa história

A região que percorri de carro integrou o Império Persa e foi conquistado por Alexandre, o Grande. As cidades fundadas ou conquistadas por ele se tornariam as atuais Herat, Kandahar e Kabul, que visitei.
Posteriormente, por volta de 300 a. C. uma parte do atual Afeganistão passou a integrar o império budista Mauria. Mais tarde, porém, tornou-se um reino independente, que terminaria, alguns séculos mais tarde, dominado igualmente por outros povos.

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A mão de Allah

No século VII, o Afeganistão caiu nas mãos dos maometanos. Estes impuseram, com alguma dificuldade, sua religião. Há décadas e, ainda hoje, os Talibãs, seu herdeiros radicais dominam no país. Mais intolerante e fundamentalista do que qualquer grupo islâmico. Em suma, tão radical e fanatizado, aliás, que incomoda até mesmo os aiatolás iranianos.

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De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão

A sharia

Defendem um país com um governo baseado na Sharia, a lei islâmica. A sahria em árabe significa “caminho”. Ou seja, o conjunto de leis da fé islâmica. E, ainda mais, rigorosamente baseada no Alcorão.
Muito difícil é a situação da mulher, a pior do mundo. Ou seja, sem poder estudar, sem profissão, coberta das cabeças aos pés por uma burka. Sem cultura, esmagadas pelo machismo talibã, são vendidas como mercadoria.

05 De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão

A Rota da Seda

A Rota da Seda, da Europa à China, percorrida por Marco Polo, atravessava o Afeganistão. Assim, caravanas de camelos carregavam seda e outros produtos dos confins da China para o Ocidente. Era a uma rota percorrendo os elevados planaltos do Himalaia e as passagens tortuosas do Hindu Kursh. Essa cordilheira corta parte do Afeganistão e também o norte do Paquistão. As viagens duravam meses. O veneziano Marco Polo teria sido um dessses mercadores.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão: a Rota da Seda

A derrota inglesa

Quis o destino que, no século XIX, a terra dos afegãos, vizinha do Turcomenistão, do Usbequistão e de outros “ãos”, ficasse perigosamente próxima ao Império Russo. Ficava igualmente vizinha do Império Britânico das Índias. Os ingleses, aliás, bem sucedidos na Índia, tentaram por duas vezes invadir o país.
A resistência afegã fez, porém, com que a British Army sofresse grandes perdas. Ainda mais, foi posteriormente forçada a abandonar as cidades conquistadas. Aliás, diga-se de passagem, a paisagem acidentada do país, com suas montanhas cheias de cavernas, dificulta assim qualquer conquista.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão: a Rota da Seda

Os tempos da monarquia

O país chegou a ter um monarca de ideias um pouquinho mais liberais. Nos referimos a Manullah, filho de Habibullah, assassinado por opositores em 1919. Amanullah conseguiu abolir a servidão. Quando, porém, quis transformar a situação da mulher, se deu mal. Essa situação é lastimável até hoje. São apenas direitos comuns no resto do mundo civilizado. Mas, o rei teve que abandonar às pressas seu tribal e atrasado país. Que, aliás, pouco mudou desde então.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão – A monarquia

O fanatismo talibã

Certas ações dos talibãs, como incendiar escolas para meninas e igualmente agredir mulheres que saem às ruas sem burca, são exemplos atuais da mentalidade dos afegãos mais religiosos quanto à questão feminina. Ou seja, mulher no Afeganistão, sob o Talibã, não tem direito a nada. Nem, em caso de perigo de vida, ser atendida por um médicos – todos homens.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão

Quando estive no Afeganistão, não existia ainda Talibã. Os valores vigentes, porém, sobretudo no interior do país, eram bem semelhantes. A república, que havia sido proclamada mediante um golpe de estado não mudara, aliás, muita coisa nesse país profundamente conservador. Afinal, os golpistas eram, entretanto, em alguns aspectos, ainda muito mais reacionários do que o rei deposto.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão: a Rota da Seda

Um quadro político complicado

No final de abril de 1978, comunistas afegãos tomaram o poder, apoiados pela União Soviética. Os russos enviaram quase 120 mil soldados ao país e ocuparam as principais cidades. Terminaram, entretanto, acuados pela resistência afegã mujahidin. Esta era, então, apoiada, aliás, pelos Estados Unidos, Paquistão e China. Havia a Guerra Fria de um lado, a rivalidade indo-paquistanesa de outro.

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De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão
Suas cavernas inexpugnáveis, abrigo de grupos terroristas

Um quadro político complicado

A Índia, inimiga histórica do Paquistão, apoiado pela China, era aliada dos russos e tinha igualmente disputas territoriais com os chineses, com os quais trocava ocasionalmente canhonaços na fronteira himalaiana. No meio da briga estava o infeliz Afeganistão, sem recursos naturais, dividido entre os chefões de etnias rivais, nenhum deles “do bem”.
Na década de 1980, soviéticos também se afundaram no atoleiro afegão.

O fracasso norte-americano

Enfim, o mesmo ocorreu também com os norte-americanos. No início, todos chegam, dominam. Depois começa a resistência. Esta é facilitada pelo território montanhoso e cheio de cavernas, abrigos perfeitos para qualquer guerrilha. Conquistar o Afeganistão não é, portanto, tão fácil. Da guerrilha mujahidin, liderada por homens como Osama Bin Laden, treinado pela CIA contra os russos, sairia uma aliança com o Talibã, movimento radical islâmico.

05 De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão: uma guerra sem fim

Um erro político

O Afeganistão parece ser o país onde o feitiço sempre se volta contra o feiticeiro! Ou seja, os invasores acreditavam-se fortes, sem aprender com as lições da História. Dessa forma, os Estados Unidos, ocupara sem dificuldade Kabul e outras cidades importantes. Assim, caíram na ilusão de acreditar que derrotariam o Talibã. O Talibã que eles mesmos treinaram e ajudaram com armas contra os russos! Demoraram porém a perceber que o Talibã, reorganizado, voltou. Ou seja, pareceu renasceu das cinzas. Quem se lembra do monstro alienígena do filme Alien, o Oitavo Passageiro? O Talibã renasceu. Desta vez contra os ocidentais. Esse apoio americano ao Talibã foi, portando, um erro político.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão: a Rota da Seda

A ignorância religiosa vencendo a democracia

Vendo essa guerra, percebi, portanto, como é complicado transformar o Afeganistão em uma democracia. Quase impossível em um país dividido por clãs rivais e dominado pela ignorância.
Desde a invasão soviética até o início de 2010, mais de um milhão de pessoas morreram nos conflitos. Aliás, mesmo atualmente continuam morrendo. Seja em atentados terroristas promovidos por radicais islâmicos. Seja igualmente por bombas jogadas por engano pela OTAN sobre aldeias.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão
Bombardeio da OTAN

As vítimas inocentes

Boa parte das vítimas são aliás, civis, mulheres, crianças e idosos. Enfim, pode ser que meu relato tenha ao menos o mérito de descrever o Afeganistão que conheci. E, aliás, de que tanto gostei. Um Afeganistão do qual muita gente nunca ouviu falar. Não tem, portanto, ideia de como era. Para mim, era o Oriente que buscava nessa viagem. Lugares exóticos, com lindas paisagens, pacífico na época, charmoso. Ou seja, o Oriente das 1001 Noites que eu lia quando criança.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Afeganistão

Sigam o relato:

Sigam esta aventura de carro pelas estradas da Ásia. Atravesse o Oriente mágico e éxotico que encantou milhares de jovens europeus. Uma experiência vivida pelo autor do livro “A Vaca na Estrada” na Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, ÍndiaNepal


Veja a continuação desta postagem:
Herat

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