Livro: A Vaca na Estrada

011 De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Band-I-Amir

Alojamo-nos em uma cabana de palha. Parecia mais um grande cesto virado de cabeça para baixo. A “porta” era um tapete bem espesso. Incrível a criatividade dos afegãos! Ao lado existia um alojamento de madeira e palha, comprido, com vários quartos e um minúsculo banheiro.
Abaixo: Mapa da região de Band-I-Amir

As camas era guarnecidas de pesados cobertores. Sinal, portanto, de que o frio à noite devia ser bravo. (E, de fato era!) Enfim, a mais de 3.000 metros de altitude, em pleno deserto, era normal. Lembrando ainda as enormes amplitudes térmicas entre o dia ensolarado e a noite. Descarregamos as mochilas, deixamos o carro frente à cabana e saímos para caminhar até o tal dique natural que avistamos ao chegar.

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Um crespúsculo mágico

Às seis horas da tarde era o momento mágico do crepúsculo. O sol baixo projetava sombras contra os desfiladeiros que formavam o fundo da paisagem. Em suma, uma paisagem lindona. Caminhávamos geralmente pela parte mais profunda do vale. Outras vezes subíamos junto a uma espécie de cânion. Ele fora escavado pelas águas em tempos remotos. Suas paredes eram quase verticais com algumas centenas de metros de altura.

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As palhoças hotel-restaurante

Ficamos sabendo depois que, no inverno, o frio é tal que os lagos chegam a congelar. Foi o que nos disse o afegão dono da tenda-dormitório. Segundo ele a paisagem igualmente cobria-se de um espesso manto esbranquiçado de neve. Ou seja, as temperaturas invernais chegavam a variar entre 5 graus positivos e mais de dez negativos nos dias mais frios.

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Dias quentes, noites geladas

Estávamos, entretanto, no verão e as tardes eram ensolaradas e quentes. Só a altitude amenizava o calor seco e forte durante o dia. Isso tornava o clima desértico e montanhoso mais agradável. As noites, mesmo com o céu absolutamente lindo, todo estrelado, porém, eram geladas. Enfim, isso é comum em climas desérticos.
A comida nas duas ou três “palhoças-restaurantes” de Band-I-Amir era pouco variada. Examinamos os cardápios encardidos, escritos em um inglês cheio de erros. Vimos, assim, que, como toda certeza, nos próximos dias iríamos comer apenas carneiro com arroz ou batata.

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A cavalo

No dia seguinte alugamos cavalos em companhia de um grupo de três moças e dois rapazes de Florença. Nenhum “fogoso corcel”; aliás. Todos pangarés preguiçosos. Paramos os cavalos no alto do desfiladeiro. O abismo nos dava medo e, ainda mais, aos cavalos. Assim, a uma dezena de metros da borda resolvemos apear. Os bichos estavam nervosos. Achamos mais seguro, portanto, amarrar as rédeas num arbusto mirrado.

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Nudismo perigoso

Lá de cima vimos um grupo de moças e rapazes ocidentais bronzeando-se à beira do lago, completamente nus. Um risco, aliás, num país como aquele e na maioria das nações islâmicas. Ou seja, um desafio explícito ao conservadorismo afegão. Corriam entre os estrangeiros relatos de estupros de ocidentais. Todas foram surpreendidas praticando nudismo ou fazendo topless. Outras estavam vestidas de modo considerado, na cultura local, provocante. Já sei que isso não justifica, de modo, algum o estupro, é claro. Mas, vá explicar isso a um afegão!

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O risco de afrontar os costumes locais

Em Kabul alguém nos contou a história de duas italianas. Em um pequeno povoado do interior afegão, foram à polícia dar queixa de um estupro. Acabaram violentadas igualmente pelos policiais. Felizmente, episódios assim eram, entretanto exceções. Normalmente, porém, os afegãos procuravam ignorar as ocidentais. Ou seja, mesmo qualquer aventura com ocidentais estava meio que fora de cogitação. Como disse uma loirinha belga com quem conversamos no café:
Para os afegãos somos todas umas vadias…

Águas azuis e transparentes

Descobrir como descer até o lago não foi, entretanto, fácil. Mas, topamos com um tortuoso e estreito caminho junto à parede do cânion. A trilha, um tanto perigosa, aliás, levava a uma faixa de terreno alagadiço. Essa área, ficava situada a menos de um metro acima do nível do lago. Suas múltiplas lagoas de pouca profundidade, tinham fundo calcário muito claro. As águas eram de um azul clarinho.

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Um deserto de belos relevos

O deserto de Band-I-Amir não era monótono. Tinha, aliás, aspecto grandioso, relevos incríveis. Foi assim, outra das paisagens que mais me impressionaram nessa viagem.
Na volta, a uns 100m do acampamento, os cavalos dispararam. Não se tratava, porém, de uma galopada para satisfazer o cliente. Apenas um vício de cavalos de aluguel no mundo todo. Ou seja, só correm para voltar para a cocheira!

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Pangarés cansados?

O homem que nos alugou os cavalos quis, porém, nos cobrar o dobro do combinado. Disse que, com aquela corrida, tínhamos cansado seus pangarés. Deve ter nos considerado gringos otários. Assim, mostramos que nenhum dos animais estava sequer suado. Em suma, estendemos-lhe exatamente o valor combinado. Em seguida viramos as costas, deixando-o falar sozinho.

Os Magic Bus

Muitos estrangeiros tenham chegado ao Afeganistão de carro como Bernard e eu. Outros em kombis ou até mesmo em motocicleta. Mas, circulavam igualmente nessa época pelo Oriente os famosos Magic Buses. Eram velhos ônibus londrinos de dois andares. Mas, reformados e pintados de cores psicodélicas. Iam da capital britânica a Katmandu e chegavam ao Oriente lotados de hippies. À caminho da Ásia os Magic Buses passavam, porém, uns dias em Paris e outras capitais europeias em seu caminho, para recolher mais passageiros. Eu já os vira, aliás, estacionados em pleno Quartier Latin. Reencontrei-os também em Istambul, Teerã, Kabul, Delhi e Katmandu. Deparei, igualmente, com eles até mesmo no meio das montanhas afegãs.

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Passagem por metade do preço da aérea

Sempre paravam dois ou três dias em cada lugar. Assim, os passageiros tinham tempo de dar uma volta pelas cidades onde passavam. A super aventura custava menos da metade do preço da passagem aérea. A viagem até o Nepal levava mais de um mês. Com um potente sistema de som, os ônibus tinham mesinhas para refeições e bancos reclináveis.

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A Ásia que nunca mais seria a mesma

Algo nos dizia que essa Ásia descontraída que estávamos conhecendo logo começaria a pegar fogo. Ou seja, o ambiente estava começando a se tornar pesado em certos lugares. Assim, quando estivemos em Kabul ouvimos uma história sobre ocidentais degolados por afegãos nas montanhas. Eram, entretanto, casos isolados e raros. Alguns ocorreram em encrencas com traficantes de droga. Europeus que transportavam valores altos em dólares e se desentenderam com a máfia local. Riscos do ofício.

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Kabul, a capital afegã

Kabul da época: uma cidade tranquila

De modo geral, porém, Kabul, com seu ar provinciano, não era mais perigosa do que a Nova York daquela época. Com certeza, aliás, mais segura do que qualquer grande cidade brasileira hoje. Não tínhamos, portanto, nenhum medo de sair pela cidade, mesmo à noite. Foi na política que a coisa engrossou. Ninguém, na época poderia prever o que estava pela frente. Sorte minha e de Bernard que pegamos tempos de paz.
Também tivemos sorte com o clima, fresco, mas não frio. No inverno chegava a nevar.

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Kabul, a capital afegã

O Band-I-Amir Night Club

Em uma das noites que passamos em Band-I-Amir, fomos a um local que apelidamos, por brincadeira, de nightclub. Era onde se podia comer algo e tomar uma bebida quente: invariavelmente, chá. À noite fazia muito frio. As paredes de palha trançada eram recobertas por um tecido grosso. Isso ajudava a conservar o calor agradável de um braseiro. Ele fora montado sobre uma chapa de ferro, no centro da cabana. Nos acomodávamos nos almofadões em volta. Um grupo tocava uns intrumentos. Às vezes, mesmo durante o dia tocavam do lado de fora. Se a noite era gelada, no sol era calor. O deserto tem extremos.

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À noite, uma abertura no teto deixava escapar a fumaça. Em suma, uma boa invenção! Enquanto do lado de fora o frio era insuportável, dentro estava uma delícia.
Entre os habitués do nightclub de Band-I-Amir havia um norte-americano que viajava sozinho, canadenses, belgas e ingleses, italianos e franceses. Todos, exceto o norte-americano, chegaram ao país de carro. A maioria, aliás, em kombis. Poucos, como nós, vieram de carro.

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As coincidências da estrada

Uma das moças, no centro da roda, uma italiana, tocava violão muito bem. Acaso da estrada: era muito amiga de Andrea, um arquiteto amigo meu de Florença! Aliás, coincidências desse gênero, quase inacreditáveis, aconteceram comigo mais de uma vez. Assim, uma brasileira, amiga minha dos tempos em que morei em Paris, conheceu num trem na França, um iugoslavo que fora meu companheiro de viagem. Havíamos perambulado juntos pelo no sul da Tailândia dois anos antes.
Da mesma forma, em Pokhara, no Nepal, cruzei com um norte-americano do Alaska. Nos conhecêramos no ano anterior em Shukothai, no centro da Tailândia! Mas, explica-se: trata-se de gente do mesmo perfil. Em suma, que visita os mesmos lugares preferidos dos mochileiros.

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Band-I-Amir

O povo da caverna

Com as italianas conosco, pudemos, no dia seguinte, dessa forma, nos aproximar de uma caverna habitada. Inclusive até fomos recebidos pela “dona de casa”, que assava pães achatados como massa de pizza em um forno que não passava de um buraco no chão.
Ela e suas filhinhas tinham pele clara. Ou seja, olhos azuis e cabelos loiros, como muita gente no país, provavelmente descendentes dos arianos. Outros afegãos que eu encontrara tinham, porém, tipo físico bem diferente: eram morenos, de olhos amendoados, com evidentes traços mongóis.

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De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Band-I-Amir

Por volta de meio-dia, resolvemos aproveitar a temperatura agradável para descer novamente até a beira do lago para um mergulho. Fomos de carro pela trilha no deserto percorrida a cavalo no dia anterior. Ao chegar à área formada por dezenas de pequenas lagunas, experimentamos a temperatura. A água estava ótima, não me pareceu fria como eu desconfiara.

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Andando sobre as águas

Depois de tomar sol um tempo, resolvi, finalmente, mergulhar no lago principal, de águas azuis, transparente e muito fundo. Assim, sem pensar duas vezes, me joguei de cabeça naquelas águas profundas. Tive, entretanto, uma surpresa. A água era tão gelada que tive a sensação de mergulhar num lago glacial. Subi de volta à superfície afobadamente e nadei como uma máquina para a margem.

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De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Band-I-Amir
Só as águas razas não eram geladas..

Bernard riu muito:
Você não nadou, andou sobre a água como um Cristo!
O que aconteceu foi que eu, para evitar surpresas verificara antes a temperatura da água de pequenas lagoas. Eram, entretanto muito mais rasas, com menos de 1,5 de profundidade e igualmente aquecidas pelo sol, portanto, muito menos frias.

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De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Band-I-Amir .

Seguindo viagem

Em suma, as lagoas razas onde eu testara antes a temperatura. Ou seja, suas águas esquentavam muito rapidamente sob o sol. Os grandes lagos eram, entretanto, muito mais profundos. Ou seja, com imenso volume de água, mantinham-se eternamente gelados naquela altitude.
Enfim, Band-I-Amir era isso. Fantástico, de uma beleza rústica de nos deixar de boca aberta, muito sol, céu azulão e tempraturas agradáveis.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Band-I-Amir

E quando a festa acabou…

Mas, tratava-se, porém, de um lugar para se ficar apenas uns três ou quatro dias. Afinal, fora apreciar as paisagens, não havia muito o que fazer, à noite, principalmente. Ou seja, não existia uma cidade, um centro, nada, apenas esse esquema de hospedagem precário. Percebemos isso quando o grupo que animou o Band-I-Amir Nightclub foi embora e a festa acabou.

Rumo à fronteira

Voltamos a Kabul para nos abastecer de água mineral, frutas e biscoitos e logo pegamos o caminho do Paquistão pela estrada do norte.
Na fronteira, do lado afegão, tivemos, porém, um contratempo. O policial da alfândega nos pediu uma declaração aduaneira que não nos fora fornecida quando entramos no país.

De Paris a Katmandu de carro – “A Vaca na Estrada” – Band-I-Amir

O que ele queria, porém, era um bashish. Assim, demos ao sujeito uma camiseta barata que me acompanhava desde o Brasil. Tudo assim se resolveu.
Enfim, tudo colocado na balança, o Afeganistão foi uma bela aventura. Ou seja, um dos lugares mais diferentes que tive a oportunidade de conhecer. E eu já havia perambulado por dezenas de países em minhas andanças pelo mundo.
Hoje, enfim, o Afeganistão acabou para o turismo. Nem o turista mais irresponsável viaja por lá. De fato, uma pena!

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Sigam esta aventura de carro pelas estradas da Ásia. Atravesse o Oriente mágico e exótico que encantou milhares de jovens europeus. Uma experiência vivida pelo autor do livro “A Vaca na Estrada” na Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão, ÍndiaNepal


Veja a continuação desta postagem: Paquistão

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