Livro; O Ouro Maldito dos Incas

011 – Anno de 1531 – “O Ouro Maldito dos Incas” – As pedras verdes e estranhos tumores

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é CAPA-MONTAGEM-PIZARRO-OK.jpg
As pedras verdes e estranhos tumores

As pedras verdes: esmeraldas ou vidro?

É provável que sejam esmeraldas? Alguém, aliás, disse que esmeraldas não se quebravam quando marteladas. Assim, parte dos homens, tentando descobrir se eram realmente esmeraldas,. Ou seja, começou a despedaçá-las com uma pesada pedra. Meu primo foi, aliás, um dos que acreditaram:
É apenas um vidro duro!

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é esmeraldas-3-ok.jpg
As pedras verdes: esmeraldas brutas

Percebi, entretanto, um frade recolhendo diversas pedras e as guardardando numa bolsa. Assim fiz o mesmo. Aliás, já ouvira falar que ele era o único capaz de reconhecer uma gema autêntica. Ia avisar meu primo para que também pegasse esmeraldas para si, mas hesitei. Pablo era capaz de dar com a língua nos dentes. Azar dele, portanto.
Tratei de guardar um bom número de pedras. Um dos soldados, entretanto, que me viu separando as gemas e logo perguntou:
Para que as conserva, se não são esmeraldas?

As pedras verdes: esmeraldas lapidadas e estranhos tumores

Pensei rápido:
Para impressionar as putas em Sevilha. Ou seja, digo que são esmeraldas e passo a noite com a mulher.
Muito tempo depois, descobriríamos que eram de fato esmeraldas. Aqueles soldados ignorantes e precipitados, entre eles meu primo e o galego Carlos, destruíram uma pequena fortuna em pedras preciosas!

Tambores de peles humanas

Ao percorrer, com Ortiz e meu primo, a aldeia deserta, vimos uma pequena fortaleza, cerca de quatrocentas choupanas e templos. O cacique nos acompanhou. Em algumas choupanas havia tambores que, segundo nos contou o cacique capturado, eram feitos com certeza de pele humana. A ideia nos horrorizou.
Uma das primeiras providências de Pizarro foi enviar o ouro saqueado para o Panamá. Assim despachou tudo em um navio comandado por Bartolomeu Ruiz. Quando Hernando, Gonzalo e outros discutiram a medida, Pizarro explicou que seria útil para calar a boca do governador do Panamá. Serviria igualmente para calar a boca dos que não acreditavam em nosso sucesso. E, igualmente, nos facilitaria o recrutamento de voluntários.

As pedras verdes e estranhos tumores

– Nada como o ouro para atiçar essa gente – comentou o Gobernador com sua sb otões.
Com isso logo chegarão reforços.
Embora, pouco depois da partida de Ruiz, um navio tivesse chegado com soldados e provisões, tivemos que ficar oito meses em Coaque à espera de mais tropas, armas e cavalos.

As pedras verdes e estranhos tumores

Rumo às montanhas

Além de as distâncias serem enormes, todas as etapas foram, por uma razão ou outra, muito ainda mais demoradas. Em alguns cruzamentos de trilhas nos perdiamos.
Pizarro optou por as que seguiam para leste, rumo às montanhas provável sede daquela civilização. Afinal, aquele era para nós ainda um país desconhecido. Portanto, só a leste, do lado da cordilheira poderia haver cidades maiores, riquezas.
Ocasinalmente passávamos semanas em um lugar antes de prosseguir. Na maior parte do tempo, aliás, não sabíamos nem sequer que direção tomar.

As pedras verdes e estranhos tumores

Estranhos tumores

Sem entendermos como nem por quê, uma epidemia de estranhos tumores contaminou diversos soldados, entre eles nosso amigo Álvaro Toledo. Ou seja, pústulas que sangravam e produziam intensa dor e febre. Essas feridas se formavam assim sob a pele, no nariz, no rosto, nas orelhas e em outras partes do corpo, deixando os homens desfigurados.

Estranhos tumores

Muitos dos que foram atingidos pelos tumores morreram, mas não sabemos se foi essa a causa. Afinal, outras enfermidadestambém eram comuns naquele lugar. Cheguei a perguntar a um dos padres, que adoecera, se a Virgem não iria nos proteger. Olhou-me febril. Achei que fosse falar algo, mas não disse nada. Nem sei, portanto, o que pensou.

A verruga peruana

Meu primo estava igualmente assustado com a possibilidade de contrair a doença, que seria conhecida mais tarde como verruga peruana.
Vou ficar tão feio que nenhuma mulher no mundo vai querer deitar-se comigo.
Não irá mudar nada – disse eu. – Você já é feio o bastante e, de qualquer jeito, só fode com puta ou com mulher que pega à força, briniquei.
Minhas palavras irônicas não o tranquilizaram. Continuava igualmente preocupado. Disse que talvez os tumores fossem uma vingança dos deuses dos nativos.

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é pele-4-ok-1.jpg
A “verruga peruana”: estranhos tumores

Os deuses que dão medo

Prudentemente, eu olhava o religioso de longe, na porta da cabana. Não sabia se as verrugas se transmitiam aos que ficassem muito perto dos doentes. Ou seja, por precaução puxei meu primo pelo braço.
Vamos embora.
Lá fora, Pablo olhou para as estrelas. Era um céu diferente do que estávamos acostumados. Encostou-se numa árvore para mijar:
– Sabe o que eu acho? Talvez os deuses dessa gente sejam mais fortes do que o nosso. Você viu que caras horríveis eles tem? Pelo menos muitos deles… Enfim, algumas dessas carrancas dão medo.

As pedras verdes e estranhos tumoresÍdolo inca

Cale a boca, homem! Se um dominicano escuta, te queimam num poste.
O padre que havcia embolsado as gemas verdes, apavorado com os tumores, arrumou um pretexto para deixar o Peru e voltou ao Panamá com a nau que nos trouxera provisões. Meses mais tarde alguém me contou que o infeliz caíra doente e morrera cheio de chagas logo ao chegar a Nombre de Dios. Posteriormente, quando foram preparar seu corpo para o enterro, encontraram as pedras costuradas numa dobra de sua batina.

Fome

Os meses passados em Coaque foram de sofrimento, com parte da tropa doente. Ainda mais, passávamos fome, pois a comida acabara. Alguns, desesperados, comeram cobras e sapos, que lhes provocaram intensas dores na barriga. Um deles morreu aos gritos, chamando pela Virgem. Sem farinha, chegamos a sacrificar três de nossos cães, que foram avidamente devorados pela tropa. Sobrevivíamos, em outras palavras basicamente com mariscos, peixes. Vez ou outra, igualmente, conseguíamos pescar ou caçar ou animais selvagens.

Enfim, comida…

O dia mais feliz dos oito meses de padecimento que passamos no vilarejo foi aquele em que meu primo, Carlos, Ortiz e eu saímos a cavalo para procurar comida. Ou seja, deparamos assim com duas ovelhas selvagens de pescoço comprido, que foram abatidas com lança. O restante da tropa, faminta, aliás, mal acreditou quando chegamos com os animais. Fomos, dessa forma, aplaudidos aos gritos de alegria. Um de nosss homens aprendera com os tallans a assar filé dessa carne branca e macia, do modo mais adequado. Em suma, nunca passamos tão bem!

Lhama

Uma vela no horizonte

Certa tarde, olhando o mar, vimos uma vela no horizonte. Logo ela causou enorme entusiasmo entre os homens, que acenderam fogueiras nas quais jogaram lenha molhada para provocar fumaça. Era o tão esperado navio com provisões e reforços que, enfim, chegava do Panamá. Seu comandante Sebastián de Belalcázar desembarcara, aliás, mais ao norte e descera a costa a cavalo com parte dos homens, saqueando aldeias indígenas pelo caminho.

As pedras verdes e estranhos tumores – Finalmente uma vela no horizonte

Pizarro nos mandou a seu encontro para conduzi-lo até nós. Quando, porém, os recém-chegados viram o estado de nossa tropa, assustaram-se e não quiseram nem sequer chegar perto dos doentes. Escolheram cabanas do outro lado da aldeia, bem longe, portanto, de nós.
Consideram-nos empesteados… – disse, vendo-os se afastar.

De fato, somos – disse Ortiz, cruzando os braços longos e magros.
Pizarro resolveu abandonar o local. Os doentes foram embarcados e nós seguimos pelo litoral por terra. Logo chegamos uma localidade que denominamos Puerto Viejo, onde paramos por dois meses, enquanto os homens se restabeleciam. O navio, entretanto, trouxera pouca comida. Teríamos que continuar conseguindo provisões por bem ou à força nas raras aldeias indígenas daquela costa árida.

Tierra de mierda

Quando prosseguimos rumo ao sul tivemos novamente problemas para encontrar o que comer. Muitos homens resmungavamassim, que aquela era uma terra de mierda, cheia de mosquitos, onde faltava até mesmo água para beber. Eu concordava, mas achava que, se prosseguíssemos na direção sul, cedo ou tarde encontraríamos comida. Já interrogara José a respeito.
Vocês desembarcaram muito ao norte. Por aqui não há alimento. Confirme com Felipillo.
Felizmente, Belalcázar trouxera porcos do Panamá. Nós os matávamos quando era preciso, sempre cabendo uma pequena porção do animal para cada um de nós. Ou seja, esfomeados, quebrávamos os ossos do bicho, extraindo deles até o mínimo tutano.

Aldeias vazias

No caminho, só encontrávamos, aliás, aldeias vazias. Parece, portanto, que, avisados com antecedência de nossa chegada, os índios fugiram pelo mar com suas canoas, levando tudo o que podiam, comida e animais.
Sedentos, avistamos um largo tanque de pedra, com apenas um palmo d’água. Corremos afobados para nos saciar, mas fomos ultrapassados pelos porcos, também desesperados de sede. Quando chegamos ao reservatório ele já havia sido invadido pelos bichos. Assim, a água se transformara em um lamaçal marrom, que os bichos não abandonaram nem mesmo a bastonadas.

Pior: assustados com os golpes, defecaram dentro do tanque. Assim, tivemos que beber daquela água imunda. O resultado foi uma tremenda diarreia. Lembro que, horas depois, voltando de trás de uma moita, já aliviado, com a mão apertando a barriga, apanhei uma pedra e a atirei em um dos porcos.
Bicho miserável!

Costa árida, costelas à mostra

Estávamos preocupados, ou melhor, quase desesperados. Os poucos mantimentos que tínhamos foram, portanto racionados. Precisávamos encontrar logo comida para nós e para os animais, pois não poderíamos esperar que Almagro chegasse com provisões do Panamá. Só ocasionalmente tínhamos a sorte de encontrar goiabas, ameixas ou abacates e alguma outra fruta.

As frutras desconhecidas dos espanhois

Quando isso acontecia, comíamos não apenas as frutas maduras, mas também as verdes, que, frequentemente, nos causavam dores de barriga. Em certos trechos desse litoral, não encontrávamos nem sequer uma árvore frutífera. Em suima, lembrava um deserto.Tivemos que nos contentar com vieiras escavadas nas areias ou ostras e mariscos arrancados de rochedos, que comíamos crus.

As pedras verdes e estranhos tumores: dobrevivendo à base de ostras

Poucas fontes de água

Como a costa era árida, raramente encontrávamos água. Eu olhava para aquelas dunas enormes, voltava-me para o mar, apalpava minhas costelas quase à mostra.
Até meu primo, que saíra do Panamá gorducho, estava magro. Mal-humorado de fome, Pablo, que sempre gostou de comer, me recriminava por tê-lo convencido, em Gorgona, a contnuar participando da expedição.
Os que voltaram ao Panamá devem estar comendo galinha assada… E nós estamos aqui, na miséria! Eu trocaria todo o outro desta terra por uma boa galinha assada espanhola!

Sonhando com frango assado…

– Quando encontrarmos ouro e ficarmos ricos, você me agradecerá.
Ele balançou a cabeça, desanimado:
Será que encontraremos alguma coisa? Saímos da Espanha há três anos e até agora só passamos fome e apuros.

Índios desconfiados e cavalos carnívoros

Graças à Virgem dias depois chegamos a uma aldeia abandonada pelos índios. Numa das casinhas de pedras encontramos espigas de milho, um cereal comum naquele reino esquecido por Deus. Num pasto ao lado deparamos igualmente com duas ovelhas da terra, que matamos para comer.
Nos lugarejos da costa, o comportamento dos nativos variava. Ora nos recebiam bem, ora com desconfiança e, quase sempre, porém, com muito medo. Além de estarmos com um aspecto lamentável, usávamos barba, algo incomum entre os índios, imberbes por natureza.

Cavalos carnívoros?

O pavor dos cavalos


Naquela aldeia, tinham especial pavor dos cavalos. Interroguei José, que repetiu o que já falara uma vez em Nobre de Dios: os nativos acreditavam que os cavalos eram carnívoros e imortais. Tratei de passar a informação a Pizarro, que conversava com seu irmão Gonzalo. Pensativo, ele coçou a barba.
É melhor que continuem a pensar assim .Se um cavalo morrer, esconderemos o corpo.
Um soldado veterano suspirou:
Não se preocupe, Gobernador: com a fome que temos passado, se um cavalo morrer, será comido imediatamente. Pizarro olhou-o calado. Ele também tinha fome.

As pedras verdes e estranhos tumores. Peixe outro alimento possível quando tinham sucesso nas pescarias

Chegara o mês de dezembro.Continuamos rumo ao sul por terra, enquanto os navios nos acompanhavam, costeando o litoral. A bordo, as provisões também eram racionadas, mas pelo menos se conseguia, com mais facilidade do que nós, comer peixe de vez em quando. O problema é que, como éramos numerosos tínhamos todos que nos dedicar portanto também à pesca para saciar nossa fome crônica.

Siga o relato:

Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

Siga a continuação desta postagem:

*

Você gosta de viajar? Então veja dicas preciosas e fotos dos principais destinos turísticos do mundo:

youtube.com/c/SonhosdeViagemBrasil
 instagram.com/sonhosdeviagembrasil 
facebook.com/sonhosdeviagembrasil

Temos, igualmente, neste blog o livrA vaca na estrada, fartamente ilustrado. É o relato de uma viagem sabática, de carro de “Paris a Katmandu” com um amigo francês. Uma longa aventura por desertos e montanhas na Turquia, Irã, Afeganistão (antes do Talibã), Paquistão, Índia e Nepal.

Leia também neste blog o livro “A Vaca na Estrada“, uma viagem de Paris a Katmandu, no Nepal, de carro. Mais um livro, como este, totalmente ilustrado por imagens que acompanham o texto.

0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x