Livro; O Ouro Maldito dos Incas

004-Anno de 1527 – “O Ouro Maldito dos Incas” – A expedição do piloto Bartolomeu

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Expedição na costa sul

Para aproveitar o tempo Pizarro determinou que outro grupo, do qual Pablo e eu fizemos parte, embarcasse em uma nau comandada pelo piloto Bartolomeu Ruiz para explorar a costa mais ao sul descendo o litoral. Enfim, qualquer coisa era melhor do que ficar naquela ilha maldita.

Quem sabe, se não achássemos ouro, encontraríamos comida.
Que saudade, primo! disse Pablo. Já estou arrependido de ter deixado Sevilha. A comida gostosa, as putas…Às vezes fico pensando no leitão assado que minha mãe prepara aos domingos – suspirou Pablo.

Primeiro contato

O primeiro a avistar velas no horizonte foi o grumete, que, do alto da gávea, deu o alerta, causando alvoroço. Todos correram para a proa do navio. Depois de tantas provações, de tanta espera, quando o desânimo já se apoderara de nós, víamos, enfim, algo. Afinal, já percorrêramos mais de cem léguas pelo Mar do Sul. Um litoral seco, desértico, com praias e falésias abruptas, desérticas, sem um só ser vivo, sem vegetação, sem árvores.

E, da mesma forma, sem encontrar o que nos interessava: ouro. Nós, espanhóis, gostamos de ouro. É certo que outros povos também o apreciam, mas entre nós a palavra ouro provoca um brilho inconfundível no olhar.
Como todos naquela embarcação, até então eu não vira a cor do metal. Em resumo, só passara fome, suportara diarreias, cansaço e sofrimento, cercado por selvagens, durante dias seguidos, descendo cada vez mais para o sul. Por isso, o aviso do grumete foi, para mim, motivo de esperança.
O piloto Bartolomeu aproximou-se e, após examinar atentamente a embarcação, voltou-se para o galego que o secundava:
É uma jangada de índios. Que cada um pegue sua arma. Com esses malditos, nunca se sabe.

Ficamos alvoroçados. Peguei logo meu sabre. Os poucos que tinham arcabuzes os carregaram. Pablo tinha uma espada que retirara das mãos de um dos nossos, morto por índios, melhor que o sabre de ferro vagabundo trazido de Sevilha, que ele, esperto, limpara, afiara e vendera com lucro para um soldado. 24
Cada vez mais próximos da jangada, acompanhávamos com entusiasmo os comentários de Bartolomeu.
Homens e mulheres ocupavam a embarcação equipada com uma vela quadrada. Logo pudemos ouvir suas vozes e observar igualmente seus traços. Pareciam-se com índios que víramos no Panamá, mas tinham outro porte e vestiam, porém, roupas elaboradas com belos tecidos. Portavam lindos brincos e adornos de metal dourado.

Debruçamo-nos todos a bombordo.
É ouro! – gritou Pablo.
Outros marinheiros passaram também a gritar.
Calem a boca! – berrou Bartolomeu. – Vão assustá-los, bando de imbecis! E escondam as armas.
Estávamos cada vez mais perto. Assim, o piloto, na proa, inclinou-se e acenou para os índios, que responderam com certa desconfiança inicial. Nosso barco, apesar de não ser grande, era muito maior do que a jangada, e éramos um grupo numeroso
de homens. Pablo cutucou-me com um ar de luxúria:
Viu as mulheres?

Olhei-o de esguelha:
Primeiro o ouro, homem!
Bartolomeu deu as instruções. Ou seja, não devíamos demonstrar interesse pelo ouro. Voltou-se para os marinheiros e, ao cruzar seu olhar com o de Pablo, recomendou:
E não encarem as mulheres!

Nosso galeão, uma nave nunca vista

Os índios eram curiosos e olhavam deslumbrados para o galeão. Para eles nossa nau era enorme. Nem deviam imaginar uma embarcação assim. Imaginei por um momento que deviam estar surpresos, já que, talvez, nunca tivessem visto uma caravela ou homens brancos antes. Com nossas roupas e nossos chapéus, devíamos lhes parecer muito estranhos. Encostado na murada, eu observava seus enfeites. Seria de fato ouro?

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Por meio de gestos, Bartolomeu os convidou a se aproximar. Creio que, inicialmente, não entenderam. Tinham expressão amistosa, mas não se moveram. Bartolomeu insistiu em seus apelos, até que encostaram a jangada em nosso barco. Dois marinheiro desceram rapidamente por uma escada de cordas e foram saudar os índios 25
Fiquem atentos e calados. Não os assustem, carajo! – advertiu-nos, mais uma vez, Bartolomeu.

Primeiros índios a bordo

Após um instante de hesitação, dois índios subiram a bordo, olhando para nós e para a embarcação com ar maravilhado. Os olhos de todos nós se concentraram em suas joias, mas Bartolomeu nos avisara para não cobiçá-las.
Pizarro ordenara que capturássemos índios para servir de intérpretes para futuras expedições e revelar segredos sobre seu povo e sobre a existência de riquezas. Não era, portanto, para roubá-los nem maltratá-los. Bartolomeu fez sinal aos indígenas para que o seguissem.

Sem assustá- los, levou-os para o interior do navio, porém, fechou a porta, enquanto mandou recolher a escada e erguer as velas, aproveitando a brisa regular para zarpar discretamente. Os índios na jangada viram o navio afastar-se sem que nada pudessem fazer, mesmo porque estavam com mulheres e crianças. Os que estavam na cabine demoraram para perceber que estavam partindo.
Não quero superestimar a captura dos índios, mas sei que foi útil para nós. Além disso, aqueles colares e brincos de ouro eram uma prova concreta da existência de metais preciosos por ali, aparentemente em grande quantidade.

Era visível, aliás, que os nativos capturados eram mais ricos e adiantados do que as tribos primitivas que comiam gente, que havíamos até então encontrado em outros lugares desse continente misterioso. Assim, excitados pela visão do ouro, nos perguntávamos se aquela terra não seria tão rica quanto o México de Cortez. Ou seja, se nós, espanhóis, conseguíramos conquistar o tão poderoso reino mexicano, por que não teríamos igual sucesso nessas lendárias terras do Mar do Sul?

Os nativos aprisionados na caravela não conheciam armas de fogo nem o cavalo. A bordo, mostraram medo tanto dos arcabuzes quanto dos animais. Houve um episódio engraçado. O piloto Bartolomeu levou os índios até nossos cavalos. Acercaram-se receosos, como nós mesmos estaríamos se nos convidassem a nos aproximar de leões. Quando um dos animais relinchou, entraram em pânico e, se não os segurássemos, talvez tivessem se atirado no mar. 26

Viracochas

Depois de um tempo percebemos que os índios se referiram a nós como viracochas. Mais tarde soubemos que esse era o nome de um deus branco que, segundo suas lendas, chegaria àquele litoral pelo mar. Pizarro e todos nós nos enquadravámos nessa visão. Ótimo para nós. Em suma, éramos deus, ou quase…

Os índios e os crucíficios

Com certa surpresa, porém, notamos que o ouro para eles era apenas um metal bonito utilizado em ornamentos e na confecção de seus ídolos pagãos. Não servia portanto como dinheiro, não era objeto de cobiça. Mostramos alguns dobrões de prata e de ouro para eles sem que entendessem para que serviam; não sabiam entretanto, o que era moeda. Ouro para eles não tinha importância! Gente estranha! Não podíamos fazer outra coisa senão rir, incrédulos, de sua ignorância.
Como se não bastasse, os pobres diabos ainda por cima eram hereges e desconheciam a Palavra de Cristo. Um dominicano chegou perto deles, mostrou-lhes um pequeno e delicado crucifixo manuseado com devoçãoie disse:
Jesus Cristo.

Os índios, porém, olharam para o crucifixo, pegaram-no sem especial deferência, como se fosse mais um enfeite igual aos que eles usavam pendurados no pescoço. Noso religioso mostrou-lhes então um maior. O índio que tinha o cruficíxo em mãos exibiu-os aos demais. Pareceram-me que encaravam a figura do Cristo na Cruz meio retorcida, com certo humor.

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O indígena mostrou-nos, então, um enfeite de ouro puro, mais elaborado. Ele o usava pedurado no pescoço, preço em um cordão também de ouro. Nos entreolhamos. O religioso segurando a peça e a sentiu na mão, tentando imaginar quando pesava. Era, maciça.
É pagã, mas se derretida deve pegar preço.

O frei depois de resmungar que o nosso era sagrado, retomou seu crucifixo. murmurando que Cristo nunca aparecera para essas criaturas. Achei que tinha razão. Eu nunca vira uma só representação de Nosso Senhor em que Jesus se parecesse com um índio. Aliás, Deus Pai nos fez à sua imagem e semelhança. Se éramos brancos, Deus também era, nunca teria feições de índio ou de negro. O dominicano franziu a testa ao me escutar; esboçou um ligeiro sorriso quando eu o lembrei desse detalhe. Comentou que, sendo assim, como esses infelizes nunca tiveram contato com o Credo Verdadeiro, cabia, portanto, a nós, cristãos, ensinar a esses infiéis sobre Deus.
É o dever de cada espanhol.

Não podemos comer ouro! Queremos pão!

As evidências obtidas por nós sobre a existência de ouro e de cidades no Mar do Sul não foram suficientes para levantar o ânimo dos companheiros que, doentes e famintos, nos esperavam em Gorgona, quando voltamos para a ilha. Quando desembarcamos em Gorgona, a maioria dos soldados continuava desesperada para ser resgatada.

Ou seja, queriam voltar ao Panamá. Muitos não escondiam suas queixas sobre os chefes da expedição. Diziam que, quando encontravam ouro, o metal era sempre 27 enviado ao Governador do Panamá. Em suma, apenas como um pretexto para arrastar outros pobres diabos para compartilhar o inferno em que vivíamos.

Por isso, quando Almagro partiu em busca de reforços, Pizarro mandara recolher as correspondências dos marinheiros destinadas ao Panamá, sempre cheias de queixas. Um soldado, entretanto, conseguiu enviar à esposa do Governador um pedaço de papel escondido em um novelo de algodão, como se fosse um presente, no qual relatara a situação em que nos encontrávamos e implorava que mandassem naus para nos salvar.

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Essa mensagem, que chegou às mãos do Governador, funcionou como uma verdadeira sabotagem nos planos de Francisco Pizarro.
Apesar das súplicas do padre Luque, sócio de Pizarro e de Almagro, para que os deixassem prosseguir a missão, o Governador do Panamá, indignado com nosso comandante, mandou duas naus para nos resgatar em setembro de 1527.

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Quando as naves enviadas pelo Governador alcançaram a ilha, muitos soldados deram pulos de alegria e abraçaram os marinheiros.Tinham passado por tão duras penas que estavam mergulhados em total desespero.
Irritado com a atitude de seus homens, Pizarro traçou, com a espada, uma linha na areia.


Passem para esse lado os que desejam voltar ao Panamá e continuar pobres. Juntem-se a mim os que me acompanharão e ficarão ricos. – E aumentando um pouco a voz apontou ao galeâo:
Não preciso de covardes.

Só meu primo, eu e onze outros soldados tivemos a coragem de acompanhar o comandante. Como disse, eu procurava por ouro, desejava tentar a sorte, mudar minha vida. Afinal, já que suportara tantas privações, não queria que tivesse sido em vão. Pablo, que andava muito desanimado, só me acompanhou porque eu o convenci. Nós, que aceitamos ficar na ilha de Gorgona com Francisco Pizarro, passamos a ser conhecidos como “Os Treze da Fama”.

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Como um analfabeto no comando de menos de duzentos homens, com pouca ou nenhuma experiência militar, conseguiu dominar um império de doze milhões de pessoas ?

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